Os
romances-reportagem e ensaios sobre criminalidade costumam dizer tanto sobre os
lugares que descrevem quanto sobre os instrumentos que os representam. Lidos
lado a lado, Cabeça de Porco, de Celso Athayde e MV Bill, e A tinta e o sangue,
de Dominique Kalifa, oferecem uma vigília comparativa: um mapeamento
espaço-temporal sobre como a violência e o crime são narrados, vendidos e
instrumentalizados pela mídia — e como essas narrativas moldam políticas,
estigmas e práticas cotidianas de controle social.
Dois mundos, um mesmo mecanismo:
A obra
de Kalifa recupera os mecanismos do sensacionalismo policial na França do
século XIX: a emergência da imprensa popular — jornais baratos, reportagens
melodramáticas, ilustrações e “casos” que prendiam leitores — criou uma
indústria de notícias criminais que transformava crimes em espetáculos. A pena
e a gravura compunham imagens fortes sobre marginalidade, monstro e perigo
urbanizados, deslocando debates sobre desigualdade para as páginas de
entretenimento e alimentando pânico moral.
Cabeça
de Porco, situado nas periferias urbanas brasileiras contemporâneas, traz o
contraponto em um contexto tecnológico e sócio-histórico diferente: a violência
é filmada, viralizada, transmitida por telejornais e redes sociais; as favelas
são simultaneamente território real e produto midiático. Athayde e MV Bill
mostram como a imagem da “boca de fumo”, do “traficante” e do “criminoso” se
incorpora no discurso público e termina por orientar políticas de segurança,
coopta narrativas locais e desincentiva leituras estruturais da pobreza.
Espaço:
periferia vs. centro e a geografia das representações:
Kalifa
descreve um centro urbano em plena transformação industrial, onde a
criminalidade ganha foco porque perturba a ordem burguesa e porque vende jornais.
O “espaço” aqui é a cidade em expansão: a vitrine do capitalismo nascente que
precisa explicar (e conter) a desigualdade. Em contraste, Cabeça de Porco
mostra periferias que a mídia contemporânea insiste em manter como “fora” do
centro — zonas de exceção onde a violência é tratada como fenômeno cultural ou
patológico, mais que como resultado de exclusão socioeconômica. A imprensa e as
câmeras reconstroem esses territórios como ameaças permanentes, demarcando
fronteiras simbólicas entre “nós” e “eles”.
Temporalidade: do papel à tela:
A
passagem do século XIX ao século XXI acompanha uma transformação técnica
decisiva. No modelo de Kalifa, o jornal impresso, a notícia e fixa a imagem do
criminoso num ciclo relativamente previsível: rumor — reportagem — ilustração —
julgamento simbólico. No Brasil contemporâneo, as televisões, os portais
noticiosos e as redes sociais aceleram e fragmentam esse ciclo: imagens em
vídeo, áudios, transmissões ao vivo e comentários em tempo real potencializam a
circulação, mas também pulverizam a responsabilidade editorial. A velocidade
amplia a visibilidade do conflito, transforma indivíduos em virais e
intensifica decisões políticas e operações policiais em reação a manchetes,
trending topics e cliques.
A construção do inimigo e seus efeitos
práticos:
Ambos
os livros mostram que a mídia não é apenas observadora; ela ativa mecanismos
legais, econômicos e simbólicos. Kalifa demonstra como a imprensa do século XIX
contribuiu para criar um tipo de figura criminosa que justificava câmaras
inquisitoriais e leis novas; Athayde e MV Bill expõem como a cobertura
contemporânea das favelas legitima operações de polícia militar, projetos de
encarceramento e estigmatização institucional — e como essas intervenções
retroalimentam a violência que elas dizem combater.
Importância
dos atores locais e das vozes subalternas:
Uma
diferença crucial é a presença (em Cabeça de Porco) de atores locais que
resistem à única narrativa: lideranças comunitárias, educadores, artistas e
ex-detentos que tentam redescrever a periferia. Já na análise de Kalifa, a
imprensa massiva raramente incorpora vozes da periferia operária do século XIX
— o “outro” é narrado por quem detém a caneta. Hoje, embora as mídias sociais
possam dar voz direta a moradores, essas vozes competem num ambiente saturado
onde imagens sensacionais continuam dominando a agenda.
Mídia como mercado e como máquina de
moralidade:
Ambos
os contextos confirmam uma constatação: notícias sobre crime são mercadoria. No
século XIX, vender jornais exigia casos chocantes; hoje, cliques e audiência
ditam manchetes. Essa relação mercado-moralidade transforma crime em espetáculo
e simplifica causas complexas — o resultado é uma opinião pública inclinada a
respostas punitivas imediatas, políticas de exceção e universalização do medo.
Narrativas que precisam ser desconstruídas:
A
correlação entre Cabeça de Porco e A tinta e o sangue mostram que, apesar das
diferenças de época e tecnologia, o núcleo do problema é semelhante: a mídia
contribui decisivamente para definir quem é considerado criminoso e que
respostas a sociedade adota. Ler os dois em diálogo permite perceber padrões - produção
do pânico, mercantilização do sofrimento, invisibilização de estruturas - e
pressiona por uma imprensa que contextualize, pluralize vozes e recuse a
simplificação sensacionalista. Para além do diagnóstico, resta um convite:
transformar a agenda pública, criando espaços midiáticos e políticos que
privilegiem explicações estruturais, reparação social e políticas de segurança
orientadas por direitos, e não apenas por imagens que vendem.
A Violência Midiatizada: Da Paris do
Século XIX às Favelas Cariocas do Século XXI
A
violência sempre existiu; a forma como a contamos, porém, nunca foi neutra.
Entre Paris e Rio, entre o século XIX e o XXI, a mídia permanece como
protagonista nessa história - para o bem ou para o mal.
Como a
construção narrativa do crime atravessa séculos e fronteiras, revelando padrões
midiáticos que transformam a violência em espetáculo
Separados
por mais de um século e um oceano, dois livros aparentemente distintos revelam
uma inquietante continuidade histórica: a relação simbiótica entre violência,
criminalidade e mídia. "A Tinta e o Sangue", do historiador francês
Dominique Kalifa, e "Cabeça de Porco", da dupla brasileira Celso
Athayde e MV Bill, expõem, cada um à sua maneira, como a narrativa midiática
sobre o crime não apenas documenta a violência, mas a constrói, a
espetaculariza e a transforma em mercadoria cultural.
O Nascimento do Crime como Espetáculo:
Em
"A Tinta e o Sangue", Kalifa mergulha na Paris do século XIX para
desvendar o momento fundacional da cultura de massa em torno do crime. A
capital francesa, então epicentro da modernidade, testemunhou o nascimento de
uma nova forma de consumir violência: através da imprensa sensacionalista, dos
romances policiais e dos fait divers - aquelas pequenas narrativas de crimes
cotidianos que fascinavam (e ainda fascinam) o público.
O
historiador demonstra que a tinta dos jornais e a tinta da literatura beberam
do sangue real das ruas parisienses para criar um imaginário do crime que
ultrapassava em muito a realidade estatística. A violência, filtrada pelas
lentes da mídia oitocentista, tornava-se produto de entretenimento, instrumento
de controle social e ferramenta de construção de identidades urbanas.
Das Apaches Parisienses aos Comandos
Cariocas:
Avançando
no espaço e no tempo, chegamos ao Rio de Janeiro do início do século XXI.
"Cabeça de Porco", lançado em 2005, leva o leitor para dentro do
Complexo de favelas da Penha, oferecendo um relato visceral da violência urbana
brasileira. MV Bill, rapper nascido e criado na Cidade de Deus, e Celso
Athayde, produtor cultural e ativista, constroem uma narrativa que é
simultaneamente denúncia, testemunho e obra jornalística.
A
correlação temporal é reveladora: assim como as gangues das "Apaches"
aterrorizavam o imaginário parisiense do fin-de-siècle - frequentemente de
forma exagerada pela imprensa -, os "comandos" e facções das favelas
cariocas ocupam, no século XXI, um espaço desmedido no noticiário brasileiro. A
diferença crucial, porém, está no lugar de fala: enquanto Kalifa analisa como a
elite letrada francesa construiu narrativas sobre as classes perigosas, Athayde
e MV Bill falam de dentro, desmontando estereótipos midiáticos com a autoridade
de quem viveu a realidade retratada.
A Mídia como Mediadora e Criadora da
Violência:
Ambos
os livros, cada um em seu registro, evidenciam o papel central da mídia não
como mero espelho da violência, mas como agente ativo em sua configuração
social. No século XIX francês, a imprensa popular criou arquétipos do criminoso
que permanecem até hoje: o apache violento, a prostituta vítima, o burguês
devasso. Esses tipos, mais do que descrever a realidade, moldavam a percepção
pública e influenciavam políticas de segurança.
No
Brasil contemporâneo, "Cabeça de Porco" denuncia operação semelhante.
A favela midiatizada é quase sempre sinônimo de violência, seus moradores
eternamente suspeitos, suas crianças condenadas de antemão. MV Bill e Athayde
mostram como essa narrativa hegemônica invisibiliza a complexidade social das
comunidades, reduzindo-as a cenários de guerra onde apenas traficantes e
policiais existem.
O Sangue que Vende Jornais - Ontem e Hoje:
"Se
há sangue, há primeira página" - o velho adágio jornalístico que Kalifa
identifica no século XIX permanece assustadoramente atual. A economia da atenção,
que começou com os jornais populares franceses vendidos a um centavo, atinge
seu paroxismo nas redes sociais e na cobertura televisiva contemporânea. A
chacina, o tiroteio, a operação policial: tudo vira espetáculo instantâneo,
consumido vorazmente por uma audiência simultaneamente horrorizada e fascinada.
A
diferença talvez esteja na velocidade. Enquanto os leitores parisienses
esperavam a edição vespertina para saber dos crimes matinais, hoje o sangue é
transmitido ao vivo, em tempo real, com helicópteros sobrevoando favelas e
cinegrafistas documentando cada disparo. A tinta se tornou pixel, mas o sangue
continua sendo o mesmo.
Geografias da Exclusão:
Há
também uma perturbadora continuidade geográfica na forma como a violência é
espacializada. Kalifa mostra como certos bairros parisienses - Belleville, La
Chapelle, zonas operárias - eram construídos discursivamente como territórios
do perigo, zonas morais onde a lei vacilava. Essa cartografia do medo
legitimava tanto o sensacionalismo midiático quanto as incursões policiais mais
violentas.
"Cabeça
de Porco" revela mecanismo idêntico operando nas favelas cariocas. O
morro, na geografia imaginária da cidade, é o espaço do Outro, do perigo, da
desordem - o que autoriza tanto a cobertura espetacularizada quanto a violência
estatal sistemática. Em ambos os casos, a estigmatização midiática de
territórios inteiros reforça ciclos de marginalização e violência.
Resistências Narrativas:
Contudo,
se Kalifa documenta como os subalternos foram representados pela elite
midiática do século XIX, "Cabeça de Porco" representa algo
radicalmente novo: a tomada da palavra. MV Bill e Athayde não são acadêmicos
externos analisando a favela, mas vozes emergentes de dentro dela, disputando o
monopólio narrativo sobre suas próprias vidas.
Essa
ruptura é fundamental. O livro brasileiro não apenas denuncia a midiatização da
violência, mas oferece uma contra-narrativa, complexificando o que a mídia
tradicional simplifica, humanizando quem ela desumaniza, contextualizando o que
ela espetaculariza. É a diferença entre ser objeto e sujeito da história.
Um Século de Continuidades:
Colocados
em diálogo, "A Tinta e o Sangue" e "Cabeça de Porco"
revelam que a relação entre mídia, violência e criminalidade possui raízes
históricas profundas. Da Paris de Balzac e Zola ao Rio de Janeiro de MV Bill,
permanece a tentação de transformar o sofrimento real em entretenimento, de
simplificar complexidades sociais em narrativas maniqueístas, de estigmatizar
territórios e populações inteiras.
Mas os
livros também apontam caminhos. Se Kalifa nos ajuda a entender historicamente
como chegamos aqui - como a cultura de massa sobre o crime se consolidou -,
"Cabeça de Porco" demonstra que outras narrativas são possíveis
quando aqueles que vivem a violência tomam a caneta (ou o microfone) das mãos
de quem apenas a observa de longe.
A
tinta continua se alimentando do sangue, mas agora algumas mãos antes
silenciadas começam a escrever suas próprias histórias. E isso, talvez, seja o
início de uma mudança que nem Kalifa poderia ter previsto ao estudar a Paris do
século XIX: o momento em que os objetos da narrativa criminal se tornam seus sujeitos,
desafiando um século e meio de representações que os desumanizaram.
O Espetáculo do Medo: Da Paris da Belle
Époque às Favelas do Rio de Janeiro:
Uma
análise comparativa entre "A Tinta e o Sangue", de Dominique Kalifa,
e "Cabeça de Porco", de MV Bill, Celso Athayde e Luiz Eduardo Soares,
revela como a mídia molda, há séculos, a nossa percepção da violência.
Separados
por um oceano e por um século de história, dois cenários aparentemente
distintos se encontram na intersecção entre a tinta dos jornais e o sangue das
ruas. De um lado, a Paris do final do século XIX, iluminada pelos lampiões a
gás e aterrorizada pelas manchetes sensacionalistas. Do outro, o Rio de Janeiro
do início do século XXI, marcado pelos becos das favelas e pela guerra do
tráfico televisionada.
Ao
colocarmos lado a lado o estudo histórico:
A Tinta e o Sangue, do historiador francês Dominique Kalifa, e a
reportagem antropológica Cabeça de Porco, de Celso Athayde, MV Bill e Luiz
Eduardo Soares, emerge uma linha contínua e perturbadora: a construção
midiática do "criminoso" e a transformação da violência em produto de
consumo de massa.
A Invenção do "Fait Divers" e a
Realidade da Favela:
Dominique
Kalifa nos transporta para a França da Belle Époque, momento em que a imprensa
de massa explodia. É ali que nasce o fascínio moderno pelo crime. Kalifa
demonstra como os jornais da época, o chamado Petit Journal, não apenas
relatavam crimes, mas criavam uma narrativa de terror urbano. O
"apache" parisiense — o jovem delinquente dos subúrbios — tornava-se
uma figura mítica, um monstro necessário para vender jornais e justificar
políticas de repressão higienista.
Saltamos
então para o Brasil contemporâneo de Cabeça de Porco. O cenário muda, mas a
dinâmica de estigmatização permanece assustadoramente similar. Se em Paris a
tinta do jornal criava o monstro, no Rio de Janeiro, as câmeras de TV e as
manchetes policiais ajudaram a consolidar a imagem do jovem negro e favelado
como o "inimigo público número um".
Athayde,
Bill e Soares mergulham na realidade crua que a mídia raramente mostra.
Enquanto a imprensa tradicional foca no corpo estendido no chão e na apreensão
de armas (o espetáculo), Cabeça de Porco busca a biografia por trás do gatilho.
O livro revela a humanidade complexa dos "soldados do tráfico",
desmontando a caricatura simplista que a sociedade consome no jantar.
O Medo Como Moeda de Troca:
A
correlação espaço-temporal entre as obras evidencia que o medo é uma moeda
histórica valiosa.
Em
Kalifa, em pleno século XIX/XX o medo do crime serviu para vender tiragens
recordes e consolidar a indústria cultural nascente. A violência era estética,
um folhetim sangrento para entreter a burguesia segura em seus salões. Já para
Athayde/Bill - século XXI - esse medo
justifica a militarização da segurança pública e a ausência do Estado nas
favelas. A mídia, muitas vezes, atua como porta-voz oficial das operações
policiais, perpetuando uma visão de "nós contra eles", onde a favela
é o território do "outro", o bárbaro moderno.
A Voz dos Silenciados:
A
grande diferença — e talvez o ponto de virada — está na autoria e na
perspectiva. Kalifa faz uma arqueologia do discurso midiático; ele analisa como
os outros falaram sobre o crime. Já Cabeça de Porco é uma ruptura nesse padrão
histórico. Pela primeira vez, a narrativa não é apenas sobre o território
vulnerável, mas parte dele. MV Bill e Celso Athayde, oriundos da CUFA (Central
Única das Favelas), tomam para si a "tinta" para descrever o próprio
"sangue".
Enquanto
a imprensa francesa descrita por Kalifa lucrava com a distância entre o leitor
e o criminoso, os autores brasileiros encurtam essa distância. Eles nos forçam
a olhar nos olhos dos jovens que, sem opções de Estado ou mercado, encontram no
tráfico uma identidade e um pertencimento — uma tragédia social que a manchete
sensacionalista ignora deliberadamente.
A Mídia no Banco dos Réus:
Ler A
Tinta e o Sangue à luz de Cabeça de Porco é perceber que a "crônica
policial" nunca é neutra. De Paris ao Rio, a narrativa da violência é
seletiva.
Kalifa
nos ensina que a sociedade de massa precisa do crime como espetáculo para
definir suas fronteiras morais. Athayde e Bill nos mostram o custo humano dessa
necessidade. A junção das obras serve como um alerta atemporal: enquanto
consumirmos a violência como entretenimento ou estatística fria, continuaremos
a alimentar a engrenagem que mancha de sangue as ruas e de tinta (ou pixels) as
nossas consciências.
A
criminalidade muda de rosto, de arma e de sotaque ao longo dos séculos. Mas a
lente de aumento da mídia, que distorce para vender e segregar, permanece,
infelizmente, a mesma.
KALIFA,
Dominique. A tinta e o sangue: narrativas sobre crimes e sociedade na Belle
Époque. Tradução de Luiz Antônio Oliveira de Araújo. São Paulo: Editora da
Unesp, 2019. 519 p.
SOARES, Luiz Eduardo; MV BILL; ATHAYDE, Celso. Cabeça de porco. Rio de Janeiro: Objetiva, 2005. 295 p.


