sábado, 24 de janeiro de 2026

Entre periferias e prensas: como a mídia costura a narrativa da violência em duas épocas e espaços.

 

Os romances-reportagem e ensaios sobre criminalidade costumam dizer tanto sobre os lugares que descrevem quanto sobre os instrumentos que os representam. Lidos lado a lado, Cabeça de Porco, de Celso Athayde e MV Bill, e A tinta e o sangue, de Dominique Kalifa, oferecem uma vigília comparativa: um mapeamento espaço-temporal sobre como a violência e o crime são narrados, vendidos e instrumentalizados pela mídia — e como essas narrativas moldam políticas, estigmas e práticas cotidianas de controle social.

Dois mundos, um mesmo mecanismo:

A obra de Kalifa recupera os mecanismos do sensacionalismo policial na França do século XIX: a emergência da imprensa popular — jornais baratos, reportagens melodramáticas, ilustrações e “casos” que prendiam leitores — criou uma indústria de notícias criminais que transformava crimes em espetáculos. A pena e a gravura compunham imagens fortes sobre marginalidade, monstro e perigo urbanizados, deslocando debates sobre desigualdade para as páginas de entretenimento e alimentando pânico moral.

Cabeça de Porco, situado nas periferias urbanas brasileiras contemporâneas, traz o contraponto em um contexto tecnológico e sócio-histórico diferente: a violência é filmada, viralizada, transmitida por telejornais e redes sociais; as favelas são simultaneamente território real e produto midiático. Athayde e MV Bill mostram como a imagem da “boca de fumo”, do “traficante” e do “criminoso” se incorpora no discurso público e termina por orientar políticas de segurança, coopta narrativas locais e desincentiva leituras estruturais da pobreza.

Espaço: periferia vs. centro e a geografia das representações:

Kalifa descreve um centro urbano em plena transformação industrial, onde a criminalidade ganha foco porque perturba a ordem burguesa e porque vende jornais. O “espaço” aqui é a cidade em expansão: a vitrine do capitalismo nascente que precisa explicar (e conter) a desigualdade. Em contraste, Cabeça de Porco mostra periferias que a mídia contemporânea insiste em manter como “fora” do centro — zonas de exceção onde a violência é tratada como fenômeno cultural ou patológico, mais que como resultado de exclusão socioeconômica. A imprensa e as câmeras reconstroem esses territórios como ameaças permanentes, demarcando fronteiras simbólicas entre “nós” e “eles”.

Temporalidade: do papel à tela:

A passagem do século XIX ao século XXI acompanha uma transformação técnica decisiva. No modelo de Kalifa, o jornal impresso, a notícia e fixa a imagem do criminoso num ciclo relativamente previsível: rumor — reportagem — ilustração — julgamento simbólico. No Brasil contemporâneo, as televisões, os portais noticiosos e as redes sociais aceleram e fragmentam esse ciclo: imagens em vídeo, áudios, transmissões ao vivo e comentários em tempo real potencializam a circulação, mas também pulverizam a responsabilidade editorial. A velocidade amplia a visibilidade do conflito, transforma indivíduos em virais e intensifica decisões políticas e operações policiais em reação a manchetes, trending topics e cliques.

A construção do inimigo e seus efeitos práticos:

Ambos os livros mostram que a mídia não é apenas observadora; ela ativa mecanismos legais, econômicos e simbólicos. Kalifa demonstra como a imprensa do século XIX contribuiu para criar um tipo de figura criminosa que justificava câmaras inquisitoriais e leis novas; Athayde e MV Bill expõem como a cobertura contemporânea das favelas legitima operações de polícia militar, projetos de encarceramento e estigmatização institucional — e como essas intervenções retroalimentam a violência que elas dizem combater.

Importância dos atores locais e das vozes subalternas:

Uma diferença crucial é a presença (em Cabeça de Porco) de atores locais que resistem à única narrativa: lideranças comunitárias, educadores, artistas e ex-detentos que tentam redescrever a periferia. Já na análise de Kalifa, a imprensa massiva raramente incorpora vozes da periferia operária do século XIX — o “outro” é narrado por quem detém a caneta. Hoje, embora as mídias sociais possam dar voz direta a moradores, essas vozes competem num ambiente saturado onde imagens sensacionais continuam dominando a agenda.

Mídia como mercado e como máquina de moralidade:

Ambos os contextos confirmam uma constatação: notícias sobre crime são mercadoria. No século XIX, vender jornais exigia casos chocantes; hoje, cliques e audiência ditam manchetes. Essa relação mercado-moralidade transforma crime em espetáculo e simplifica causas complexas — o resultado é uma opinião pública inclinada a respostas punitivas imediatas, políticas de exceção e universalização do medo.

Narrativas que precisam ser desconstruídas:

A correlação entre Cabeça de Porco e A tinta e o sangue mostram que, apesar das diferenças de época e tecnologia, o núcleo do problema é semelhante: a mídia contribui decisivamente para definir quem é considerado criminoso e que respostas a sociedade adota. Ler os dois em diálogo permite perceber padrões - produção do pânico, mercantilização do sofrimento, invisibilização de estruturas - e pressiona por uma imprensa que contextualize, pluralize vozes e recuse a simplificação sensacionalista. Para além do diagnóstico, resta um convite: transformar a agenda pública, criando espaços midiáticos e políticos que privilegiem explicações estruturais, reparação social e políticas de segurança orientadas por direitos, e não apenas por imagens que vendem.

A Violência Midiatizada: Da Paris do Século XIX às Favelas Cariocas do Século XXI

A violência sempre existiu; a forma como a contamos, porém, nunca foi neutra. Entre Paris e Rio, entre o século XIX e o XXI, a mídia permanece como protagonista nessa história - para o bem ou para o mal.

Como a construção narrativa do crime atravessa séculos e fronteiras, revelando padrões midiáticos que transformam a violência em espetáculo

Separados por mais de um século e um oceano, dois livros aparentemente distintos revelam uma inquietante continuidade histórica: a relação simbiótica entre violência, criminalidade e mídia. "A Tinta e o Sangue", do historiador francês Dominique Kalifa, e "Cabeça de Porco", da dupla brasileira Celso Athayde e MV Bill, expõem, cada um à sua maneira, como a narrativa midiática sobre o crime não apenas documenta a violência, mas a constrói, a espetaculariza e a transforma em mercadoria cultural.

O Nascimento do Crime como Espetáculo:

Em "A Tinta e o Sangue", Kalifa mergulha na Paris do século XIX para desvendar o momento fundacional da cultura de massa em torno do crime. A capital francesa, então epicentro da modernidade, testemunhou o nascimento de uma nova forma de consumir violência: através da imprensa sensacionalista, dos romances policiais e dos fait divers - aquelas pequenas narrativas de crimes cotidianos que fascinavam (e ainda fascinam) o público.

O historiador demonstra que a tinta dos jornais e a tinta da literatura beberam do sangue real das ruas parisienses para criar um imaginário do crime que ultrapassava em muito a realidade estatística. A violência, filtrada pelas lentes da mídia oitocentista, tornava-se produto de entretenimento, instrumento de controle social e ferramenta de construção de identidades urbanas.

Das Apaches Parisienses aos Comandos Cariocas:

Avançando no espaço e no tempo, chegamos ao Rio de Janeiro do início do século XXI. "Cabeça de Porco", lançado em 2005, leva o leitor para dentro do Complexo de favelas da Penha, oferecendo um relato visceral da violência urbana brasileira. MV Bill, rapper nascido e criado na Cidade de Deus, e Celso Athayde, produtor cultural e ativista, constroem uma narrativa que é simultaneamente denúncia, testemunho e obra jornalística.

A correlação temporal é reveladora: assim como as gangues das "Apaches" aterrorizavam o imaginário parisiense do fin-de-siècle - frequentemente de forma exagerada pela imprensa -, os "comandos" e facções das favelas cariocas ocupam, no século XXI, um espaço desmedido no noticiário brasileiro. A diferença crucial, porém, está no lugar de fala: enquanto Kalifa analisa como a elite letrada francesa construiu narrativas sobre as classes perigosas, Athayde e MV Bill falam de dentro, desmontando estereótipos midiáticos com a autoridade de quem viveu a realidade retratada.

A Mídia como Mediadora e Criadora da Violência:

Ambos os livros, cada um em seu registro, evidenciam o papel central da mídia não como mero espelho da violência, mas como agente ativo em sua configuração social. No século XIX francês, a imprensa popular criou arquétipos do criminoso que permanecem até hoje: o apache violento, a prostituta vítima, o burguês devasso. Esses tipos, mais do que descrever a realidade, moldavam a percepção pública e influenciavam políticas de segurança.

No Brasil contemporâneo, "Cabeça de Porco" denuncia operação semelhante. A favela midiatizada é quase sempre sinônimo de violência, seus moradores eternamente suspeitos, suas crianças condenadas de antemão. MV Bill e Athayde mostram como essa narrativa hegemônica invisibiliza a complexidade social das comunidades, reduzindo-as a cenários de guerra onde apenas traficantes e policiais existem.

O Sangue que Vende Jornais - Ontem e Hoje:

"Se há sangue, há primeira página" - o velho adágio jornalístico que Kalifa identifica no século XIX permanece assustadoramente atual. A economia da atenção, que começou com os jornais populares franceses vendidos a um centavo, atinge seu paroxismo nas redes sociais e na cobertura televisiva contemporânea. A chacina, o tiroteio, a operação policial: tudo vira espetáculo instantâneo, consumido vorazmente por uma audiência simultaneamente horrorizada e fascinada.

A diferença talvez esteja na velocidade. Enquanto os leitores parisienses esperavam a edição vespertina para saber dos crimes matinais, hoje o sangue é transmitido ao vivo, em tempo real, com helicópteros sobrevoando favelas e cinegrafistas documentando cada disparo. A tinta se tornou pixel, mas o sangue continua sendo o mesmo.

Geografias da Exclusão:

Há também uma perturbadora continuidade geográfica na forma como a violência é espacializada. Kalifa mostra como certos bairros parisienses - Belleville, La Chapelle, zonas operárias - eram construídos discursivamente como territórios do perigo, zonas morais onde a lei vacilava. Essa cartografia do medo legitimava tanto o sensacionalismo midiático quanto as incursões policiais mais violentas.

"Cabeça de Porco" revela mecanismo idêntico operando nas favelas cariocas. O morro, na geografia imaginária da cidade, é o espaço do Outro, do perigo, da desordem - o que autoriza tanto a cobertura espetacularizada quanto a violência estatal sistemática. Em ambos os casos, a estigmatização midiática de territórios inteiros reforça ciclos de marginalização e violência.

Resistências Narrativas:

Contudo, se Kalifa documenta como os subalternos foram representados pela elite midiática do século XIX, "Cabeça de Porco" representa algo radicalmente novo: a tomada da palavra. MV Bill e Athayde não são acadêmicos externos analisando a favela, mas vozes emergentes de dentro dela, disputando o monopólio narrativo sobre suas próprias vidas.

Essa ruptura é fundamental. O livro brasileiro não apenas denuncia a midiatização da violência, mas oferece uma contra-narrativa, complexificando o que a mídia tradicional simplifica, humanizando quem ela desumaniza, contextualizando o que ela espetaculariza. É a diferença entre ser objeto e sujeito da história.

Um Século de Continuidades:

Colocados em diálogo, "A Tinta e o Sangue" e "Cabeça de Porco" revelam que a relação entre mídia, violência e criminalidade possui raízes históricas profundas. Da Paris de Balzac e Zola ao Rio de Janeiro de MV Bill, permanece a tentação de transformar o sofrimento real em entretenimento, de simplificar complexidades sociais em narrativas maniqueístas, de estigmatizar territórios e populações inteiras.

Mas os livros também apontam caminhos. Se Kalifa nos ajuda a entender historicamente como chegamos aqui - como a cultura de massa sobre o crime se consolidou -, "Cabeça de Porco" demonstra que outras narrativas são possíveis quando aqueles que vivem a violência tomam a caneta (ou o microfone) das mãos de quem apenas a observa de longe.

A tinta continua se alimentando do sangue, mas agora algumas mãos antes silenciadas começam a escrever suas próprias histórias. E isso, talvez, seja o início de uma mudança que nem Kalifa poderia ter previsto ao estudar a Paris do século XIX: o momento em que os objetos da narrativa criminal se tornam seus sujeitos, desafiando um século e meio de representações que os desumanizaram.

O Espetáculo do Medo: Da Paris da Belle Époque às Favelas do Rio de Janeiro:

Uma análise comparativa entre "A Tinta e o Sangue", de Dominique Kalifa, e "Cabeça de Porco", de MV Bill, Celso Athayde e Luiz Eduardo Soares, revela como a mídia molda, há séculos, a nossa percepção da violência.

Separados por um oceano e por um século de história, dois cenários aparentemente distintos se encontram na intersecção entre a tinta dos jornais e o sangue das ruas. De um lado, a Paris do final do século XIX, iluminada pelos lampiões a gás e aterrorizada pelas manchetes sensacionalistas. Do outro, o Rio de Janeiro do início do século XXI, marcado pelos becos das favelas e pela guerra do tráfico televisionada.

Ao colocarmos lado a lado o estudo histórico:  A Tinta e o Sangue, do historiador francês Dominique Kalifa, e a reportagem antropológica Cabeça de Porco, de Celso Athayde, MV Bill e Luiz Eduardo Soares, emerge uma linha contínua e perturbadora: a construção midiática do "criminoso" e a transformação da violência em produto de consumo de massa.

A Invenção do "Fait Divers" e a Realidade da Favela:

Dominique Kalifa nos transporta para a França da Belle Époque, momento em que a imprensa de massa explodia. É ali que nasce o fascínio moderno pelo crime. Kalifa demonstra como os jornais da época, o chamado Petit Journal, não apenas relatavam crimes, mas criavam uma narrativa de terror urbano. O "apache" parisiense — o jovem delinquente dos subúrbios — tornava-se uma figura mítica, um monstro necessário para vender jornais e justificar políticas de repressão higienista.

Saltamos então para o Brasil contemporâneo de Cabeça de Porco. O cenário muda, mas a dinâmica de estigmatização permanece assustadoramente similar. Se em Paris a tinta do jornal criava o monstro, no Rio de Janeiro, as câmeras de TV e as manchetes policiais ajudaram a consolidar a imagem do jovem negro e favelado como o "inimigo público número um".

Athayde, Bill e Soares mergulham na realidade crua que a mídia raramente mostra. Enquanto a imprensa tradicional foca no corpo estendido no chão e na apreensão de armas (o espetáculo), Cabeça de Porco busca a biografia por trás do gatilho. O livro revela a humanidade complexa dos "soldados do tráfico", desmontando a caricatura simplista que a sociedade consome no jantar.

O Medo Como Moeda de Troca:

A correlação espaço-temporal entre as obras evidencia que o medo é uma moeda histórica valiosa.

Em Kalifa, em pleno século XIX/XX o medo do crime serviu para vender tiragens recordes e consolidar a indústria cultural nascente. A violência era estética, um folhetim sangrento para entreter a burguesia segura em seus salões. Já para Athayde/Bill - século XXI -  esse medo justifica a militarização da segurança pública e a ausência do Estado nas favelas. A mídia, muitas vezes, atua como porta-voz oficial das operações policiais, perpetuando uma visão de "nós contra eles", onde a favela é o território do "outro", o bárbaro moderno.

A Voz dos Silenciados:

A grande diferença — e talvez o ponto de virada — está na autoria e na perspectiva. Kalifa faz uma arqueologia do discurso midiático; ele analisa como os outros falaram sobre o crime. Já Cabeça de Porco é uma ruptura nesse padrão histórico. Pela primeira vez, a narrativa não é apenas sobre o território vulnerável, mas parte dele. MV Bill e Celso Athayde, oriundos da CUFA (Central Única das Favelas), tomam para si a "tinta" para descrever o próprio "sangue".

Enquanto a imprensa francesa descrita por Kalifa lucrava com a distância entre o leitor e o criminoso, os autores brasileiros encurtam essa distância. Eles nos forçam a olhar nos olhos dos jovens que, sem opções de Estado ou mercado, encontram no tráfico uma identidade e um pertencimento — uma tragédia social que a manchete sensacionalista ignora deliberadamente.

A Mídia no Banco dos Réus:

Ler A Tinta e o Sangue à luz de Cabeça de Porco é perceber que a "crônica policial" nunca é neutra. De Paris ao Rio, a narrativa da violência é seletiva.

Kalifa nos ensina que a sociedade de massa precisa do crime como espetáculo para definir suas fronteiras morais. Athayde e Bill nos mostram o custo humano dessa necessidade. A junção das obras serve como um alerta atemporal: enquanto consumirmos a violência como entretenimento ou estatística fria, continuaremos a alimentar a engrenagem que mancha de sangue as ruas e de tinta (ou pixels) as nossas consciências.

A criminalidade muda de rosto, de arma e de sotaque ao longo dos séculos. Mas a lente de aumento da mídia, que distorce para vender e segregar, permanece, infelizmente, a mesma.

KALIFA, Dominique. A tinta e o sangue: narrativas sobre crimes e sociedade na Belle Époque. Tradução de Luiz Antônio Oliveira de Araújo. São Paulo: Editora da Unesp, 2019. 519 p.

SOARES, Luiz Eduardo; MV BILL; ATHAYDE, Celso. Cabeça de porco. Rio de Janeiro: Objetiva, 2005. 295 p.

sábado, 10 de janeiro de 2026

Do papel ao asfalto: A tinta que mancha e o sangue que escorre.

 

O fenômeno da violência não é um fato isolado, mas uma construção narrativa que atravessa séculos e oceanos. Ao aproximarmos as obras "A Tinta e o Sangue", do historiador francês Dominique Kalifa, e "Cabeça de Porco", de Celso Athayde e MV Bill, emerge um paralelo perturbador: como o crime, ao ser mediado pela tinta dos jornais ou pelas lentes dos documentários, molda o imaginário coletivo e define quem é o "inimigo público" da vez.



No texto anterior, exploramos essa correlação espaço-temporal entre a Paris da Belle Époque e o Rio de Janeiro contemporâneo. Aqui daremos continuidade a essa questão da volência e da criminalidade por se tratar de uma assunto real e atemporal, que aflige o mundo. 

Portanto, a correlação espaço-temporal entre a Paris da Belle Époque e o Rio de Janeiro contemporâneo estabelece-se na maneira como o desenvolvimento urbano e a modernização das metrópoles geraram "territórios de exclusão" que a mídia passou a monitorar e estigmatizar. Enquanto a Paris do final do século XIX passava pelas reformas de Haussmann, que empurravam a pobreza para os subúrbios e submundos (bas-fonds), o Rio de Janeiro do século XXI consolida a favela como esse espaço limiar, muitas vezes invisível ao Estado, exceto pela via repressiva. Em ambos os contextos, o tempo histórico parece se repetir no que diz respeito à gestão do medo: a distância cronológica de um século é anulada pela permanência de uma estrutura social que necessita de um "lugar do perigo" para reafirmar a ordem e o progresso das áreas centrais e nobres.

Sob a perspectiva temporal, as obras de Kalifa e de Athayde/Bill mostram que a construção do imaginário da violência é um processo contínuo que migra da página impressa para a tela digital. Na Paris de 1900, a "tinta" dos jornais de massa, como o Le Petit Journal, criava um cronômetro de pânico cotidiano através dos crimes relatados, moldando a percepção de tempo da população como uma era de insegurança iminente. De forma análoga, no Rio de Janeiro contemporâneo, a velocidade das notícias e o impacto visual do documentário e das redes sociais em Cabeça de Porco atualizam essa sensação de cerco. O "espaço" deixa de ser apenas geográfico e torna-se um campo de batalha narrativo, onde a mídia dita o ritmo da percepção pública, transformando o jovem periférico de hoje no herdeiro direto do estigma que outrora pertenceu aos marginalizados da Paris finissecular (Uma virada de século carregada de tensões sociais, inovações tecnológicas e uma nova forma de consumir notícias sobre violência).

A Espetacularização do Medo: Da Paris de 1900 ao Rio de 2000

Dominique Kalifa analisa como a imprensa parisiense do final do século XIX transformou os faits divers (notícias de crimes cotidianos) em um combustível para o consumo de massa. A violência deixava de ser um evento privado para se tornar um produto cultural.

No Brasil, "Cabeça de Porco" (2005) surge em um cenário onde a televisão e o jornalismo policial já haviam consolidado o "espetáculo da violência". Enquanto Kalifa foca na "tinta" que ensanguenta o papel, Athayde e Bill mostram o "sangue" que escorre no asfalto carioca, muitas vezes higienizado ou distorcido pela narrativa hegemônica para justificar políticas de exclusão.

O quadro comparativo, abaixo, estabelece uma ponte entre dois contextos que, embora distantes no tempo e no espaço, operam sob uma mesma lógica de controle social através da informação. No primeiro eixo, a Paris da Belle Époque e o Rio de Janeiro contemporâneo são apresentados como palcos de uma modernização excludente: enquanto a reforma de Haussmann empurrava as "classes perigosas" para as margens parisienses, a urbanização brasileira consolidou a favela como o território da exceção. A mídia, em ambos os casos, atua como o arquiteto desse abismo, utilizando o fait divers (o crime banal) em Paris ou o jornalismo policial de massa no Brasil para rotular esses espaços como zonas de guerra, transformando o medo em um produto de alto consumo e eficácia política.

No segundo eixo, a análise foca na construção da identidade do criminoso como uma ameaça civilizatória. A transição da figura do "Apache" para a do "Falcão" revela uma estratégia midiática de desumanização: o jovem é despido de sua subjetividade e revestido de uma estética do perigo — seja pelas gírias e tatuagens dos submundos franceses ou pelo fuzil e o rádio comunicador nas favelas cariocas. A diferença fundamental apontada pelo quadro é a origem do discurso. Enquanto a obra de Kalifa analisa como a tinta dos jornais silenciava o acusado para criar um mito literário-policial, Cabeça de Porco rompe essa tradição ao dar voz direta aos protagonistas, transformando o "objeto" de estudo em "sujeito" que narra sua própria realidade e denuncia o viés estigmatizante das câmeras

Quadro Comparativo Histórico-Midiático

Aspecto

A Tinta e o Sangue (Paris, séc. XIX/XX)

Cabeça de Porco (Rio de Janeiro, séc. XXI)

O Cenário

A Paris em modernização (Haussmann) e seus submundos (bas-fonds).

As favelas brasileiras e o asfalto em conflito permanente.

O Protagonista

O criminoso "fantástico", o Apache ou o anarquista terrorista.

O jovem de periferia, invisível até se tornar o "falcão" do tráfico.

Papel da Mídia

Criar um imaginário de insegurança para vender jornais.

Estigmatizar territórios e reforçar o racismo estrutural.

A "Invisibilidade"

O crime torna visível a classe perigosa sob uma ótica burguesa.

O livro tenta dar voz ao "invisível" para romper o estereótipo midiático.

A Construção do Inimigo: O "Apache" e o "Bandido"

Kalifa descreve a obsessão da mídia francesa com os "Apaches" — gangues de jovens delinquentes que aterrorizavam Paris. A imprensa da época construiu uma identidade visual e comportamental para esses jovens, transformando-os em uma ameaça civilizatória.

Em "Cabeça de Porco", vemos o reflexo moderno dessa construção. MV Bill e Celso Athayde denunciam como o jovem negro da periferia é o alvo prioritário da "lente" social. A mídia não apenas relata a violência, mas cria um perfil de suspeição que precede o crime. A diferença fundamental é que, enquanto em Paris a mídia era o agente externo, em "Cabeça de Porco", os autores usam o próprio suporte mediático (livro e documentário) para retomar a narrativa, passando de objeto de estudo a sujeitos do discurso.

Apaches e Falcões: A Personificação do "Perigo Público"

A correlação mais fascinante entre as obras de Dominique Kalifa e a de Celso Athayde e MV Bill reside na criação de figuras místicas que personificam o crime urbano. Embora separados por um século, o Apache e o Falcão ocupam o mesmo lugar no imaginário social: o de uma juventude desviante que desafia o Estado.

O Apache: O "Selvagem" da Metrópole

Em A Tinta e o Sangue, Kalifa descreve como a imprensa francesa rotulou gangues de jovens como "Apaches". O nome não era acidental; buscava traçar um paralelo com os povos indígenas da América do Norte, pintando esses jovens como "selvagens" infiltrados no coração da civilização europeia. O Apache era caracterizado por:

  • Estilo próprio: Roupas específicas, gírias e tatuagens que a mídia expunha para tornar o criminoso "reconhecível".
  • Territorialidade: Dominavam os bairros periféricos de Paris, criando zonas de exclusão que a burguesia temia atravessar.

O Falcão: O "Vigia" da Exclusão

Em Cabeça de Porco, o "Falcão" é o jovem que vigia a favela para o tráfico, mas, sob a lente de Athayde e Bill, ele deixa de ser apenas um dado estatístico para se tornar um sintoma. Enquanto a mídia brasileira trata o Falcão como um exército inimigo a ser abatido, o livro humaniza essa figura, revelando:

  •  A lógica de sobrevivência: O "voo" do falcão é limitado pela falta de oportunidades, transformando o crime na única carreira disponível.
  • A espetacularização do fuzil: Assim como a faca do Apache aterrorizava a Paris de 1900, o fuzil nas mãos do Falcão é a imagem exaustivamente repetida nos telejornais para justificar o estado de exceção nas periferias.

A Lente que Distorce

A relação é simétrica: a "tinta" da Belle Époque criou o Apache para vender jornais e exigir repressão policial, enquanto o "sangue" relatado em Cabeça de Porco é frequentemente usado pelo jornalismo sensacionalista brasileiro para ratificar o medo e manter o status quo. Em ambos os casos, a mídia não apenas noticia; ela estigmatiza, fixando no jovem pobre a imagem definitiva do medo social.

O Crime como Espelho Social

A correlação entre Kalifa e a dupla brasileira revela que a violência é um subproduto da desigualdade urbana e da gestão do medo. Se em Paris a "tinta" da imprensa ajudou a consolidar a ordem burguesa, no Brasil contemporâneo, a obra de Athayde e Bill atua como um contra-discurso, expondo as entranhas de um sistema que produz o crime para depois espetacularizá-lo.

Ambas as obras confirmam: a história da criminalidade é, antes de tudo, uma história das representações que fazemos dela.

Para aprofundar essa conexão, vamos inserir no próximo texto fatos que focam especificamente nessa construção social desses dois personagens: o Apache parisiense e o Falcão brasileiro, e assim demonstrar como a mídia utiliza arquétipos semelhantes em épocas diferentes.

KALIFA, Dominique. A tinta e o sangue: narrativas sobre crimes e sociedade na Belle Époque. Tradução de Luiz Antônio Oliveira de Araújo. São Paulo: Editora da Unesp, 2019. 519 p.

SOARES, Luiz Eduardo; MV BILL; ATHAYDE, Celso. Cabeça de porco. Rio de Janeiro: Objetiva, 2005. 295 p.

 


sábado, 3 de janeiro de 2026

A tinta, o sangue e a favela: uma viagem histórica pela anatomia do crime


A violência, a criminalidade, a corrupção são mercadorias de nossa sociedade, que se fixou muito bem no modelo capitalista e ganhou enorme projeção nos meios de comunicação. Pois, nessa era contemporânea o desejo da juventude de estar na moda, de consumir o tênis de marca, o celular mais tecnológico, roupas finas, relógios e joias caras e o carro de luxo atiça  o desejo do jovem e com a meninada da periferia não é diferente. Está tudo ali nas mídias - o tempo todo: compre, consuma, seja único e descolado. Uma sociedade mercadorizada, cujo ser humano também transformou-se em mercadoria. Todos esses excessos mexem com a cabeça do menino pobre das comunidades. Pois, ele também que ser parte desse circo capitalista, nem que para isso recorra aos metódos mais vis e perigosos e junto aos cruéis requintes de violência. Hoje, no Brasil, o tráfico de drogas tornou-se  ocaminho mais próximo dessa ilusão propogada pelos meio de comunicação. O tráfico de drogas como um meio de vida para alcançar tais desejos. Soma-se a isso o falso poder das armas, que na própria fala das meninas é uma forma de consquistar os garotos. Esse vai ser o mote do livro Cabeça de porco, um relato a respeito desse Brasil do século XXI apresentado pelo autores Luiz Eduardo Soares, MV Bill e Celso Athayde. Pois, o ano é 2005, o crime e a violência mostra-se latente nas vielas sujas dos morros das grandes cidades, junto a corrupção policial, tráfico de drogas e armas, milícias. Onde o medo, a frustração e o sentimento de impotência são impostos aos seus habitantes. Cabeça de porco trás à público justamente esse conjunto de relatos e entrevistas fornecendo um pequeno panorama do cotidiano  desses meninos e meninas que convivem diariamente com a criminalidade. Acrescenta-se a tudo isso as condições sociais e econômicas de um país totalmente desigual. A falta de condições mínimas de saúde, o desemprego, a baixa escolaridade, a necessidade de trabahar na infância para obter o sustento da família, a moradia precária e a miséria é a realidade em grande parte do país. Portanto, impera a desestrutura familiar, o vício nas drogas, o alcoolismo dos pais que adentram essas moradias precárias e assim afetam diretamente as crianças e jovens das comunidades carentes. Adiciona-se a estes fatores a violência cometida pelos pais e parentes junto a truculência do aparelho estatal na figura da polícia, que utiliza-se da força bruta contra a população que vivem nesses locais. Para ampliar esse preconceito contra o povo mais pobre,na sua maioria pretos e pobres, mulheres - mães solo, homossexuais a mídia, através da TV, rádios e Internet realizam o trabalho de quarto poder, ou seja, julga e condena as ações e fatos ocorridos nestas comunidades. A mídia estampa fortemente os fatos, em busca de audiência, muitas vezes apenas nas presunções e opiniões. Basta vermos os noticiários apresentados nos programas policiais de TV. Verdadeiros banho de sangue e que em nada ajuda nas investigações - ao contrário - criam mais desconfiança e problemas. Fazem apenas sensacionalismo e terror. Agora, se voltarmos no tempo - precisamente na França do fim do século XIX e início do século XX, teremos da mesma forma um padrão semelhante. Nessa época, a criminalidade e a violência em parte da Europa era visível e tornava-se comum. As cidades europeias estavam deixandopara trás o modelo bucólico, uma sociedade agrária e adentrando o mundo moderno do capitalismo industrial. As capitais de certos países europeus como: Londres, Paris, Roma, Berlim destacavam-se pela urbanização. As indústrias deram lugar ao trabalho camponês. O comércio e serviços floresciam e com eles vieram todo tipo de pessosas. Dessa forma, dava-se lugar a criminalidade e todo tipo de violencia. Aumento nos números de roubos e futos, assassinatos, estupros, invasão de domicílios, brigas de bares e ruas, feminicídios e crimes de golpes, além da atuação de guangues de ruas. Assim como no século XXI - especificamente no Brasil - tivemos o crescimento assustador da violência. A Europa teve seu surto de criminalidade. Se a mídia dos nossos tempos soube tirar vantagem desses ocorridos, não foi diferente na Europa do final do século XIX e início do século XX. Por meio dos jornais, além do cinema que se introduzira não apenas como canal de diversão e lazer, mas também como veículo de comunicação e informação - bem, jornalistas, repórteres e cineastas estavam atentos aos fatos criminais deste tempo. Cotidianamente os principais jornais da época traziam os famosos fait-divers (fatos diversos) do crime: assassinatos, homicídios, estupros e outros eram relatados detalhadamente nesses jornais. Digamos - era tinta e sangue se misturando numa composição perigosa, porém lucrativa para os meios de comunicação. Domenique Kalifa soube muito bem traduzir estes fatos em sua obra: A tinta e o sangue. Com isso, podemos pensar que a violência indiferentemente do tempo e do espaço tem lugar garantido na leitura, ou melhor na visão da sociedade. Os gêneros literários que abordam crimes e atos de violência tornam-se campeões de audiência entre as pessoas, sendo facilmente vendável e lucrativo. Por outro lado, as críticas feitas à justiça e a polícia não são poupadas e às vezes bastante severas por parte das midias na resolução de casos violentos e que geram comoção nacional em qualquer parte do planeta. Somos obrigados a concordar que a violência queira ou não possui forte ligação com as mazelas sociais e econõmicas. Pois, fato comprovado tanto na obra "Cabeça de porco" (em que os jovens são submetidos ao tráfico de drogas e armas) quanto no livro "A tinta e o sangue de Domenique Kalifa (cujos jovens desescolarizados, vindos de uma pobreza extrema cometem crimes bárbaros). Em ambas as obras, a midia protagonizam os casos, destacam os infratores (bandidos) e expoêm as vítimas  num espetáculo de horrores. Sempre aplaudida por uma plateia sedenta, não por justiça, mas que valotiza o consumo. A desgraça alheia vende, e vende muito bem. Seja um homem ou uma mulher do século XXI  consumidores de redes sociais, vídeos em plataformas da internet, ou então aquele senhor do início do século XX que compra um jornal impresso para ver as ilustrações de um crime cometido por um jovem rapaz - um apache. Há neles um certo fetiche pela mercadoria violência. De Abel e Caim  no antigo testamento da bíblia ao lendário Jack Estripador na Inglaterra e por fim passando aos cárteis de drogas na Ámerica do sul as práticas criminosas e a violência extrema foram quase sempre temas  recorrentes e destaque na sociedade. Objeto de estudos acadêmicos, preocupação por parte do Estado - apesar da letargia e omissão de governos, e destaque midiático a criminalidade gera aos mesmo tempo fascinío e medo na população. Sentimentos contraditórios que ampliam-se cada vez mais por causa de sintomas mal resolvidos pela inércia do Estado somada pela exploração do capital agora dominados em parte por grupos criminosos e organizados que se aproveitam da fragilidade da sociedade. Foi assim nos passado com as gangues novaiorquinas; a máfia italiana; os cárteis de drogas nas cidades colombianas e hoje o tráfico de drogas nos morros cariocas. O custo da violência é alto demais, e que paga é a  população, seja através altos impostos, ou com o sacríficio própria vida. Ninguém sai ileso desta guerra. 

KALIFA, Domenique. A tinta e o sangue: narrtaivas sobre crime e sociedade na Belle èpoque. Tradução de: Luiz Oliveira de Aráujo. São Paulo: UNESP, 2019. 517p. 

SOARES, Luiz Eduardo; MV BILL;  ATHAYDE, Celso. Cabeça de Porco. Rio de Janeiro: Objetiva, 2005. 295 p.

sábado, 20 de dezembro de 2025

Pensamentos filosóficos: a vida social, os costumes e o sistema econômico de Mandeville, Russell e Osho.

 

Na pretensão de finalizarmos os estudos sobre os nossos autores, colocaremos neste último texto algumas considerações relevantes que irão pontuar melhor o nosso entendimento a respeito dos fatos históricos próprios de cada época. Além de permitir que façamos certas elucubrações filosóficas relacionadas aos modos de vida, os costumes e sistemas da qual viveram estes pensadores. Pois, os três autores -  Bernard Mandeville, Bertrand Russell e Osho - apresentam visões radicais e profundamente críticas sobre os modos de vida, costumes, sistemas econômicos e a vida social de suas respectivas épocas. O caminho convergente entre eles reside na defesa da liberação do indivíduo das restrições e hipocrisias impostas pela moralidade convencional e pelas estruturas sociais coercitivas, embora cada um chegue a essa conclusão por vias distintas. Para Mandeville (século XVIII), a vida social pauta-se pelo vício, cujo modo de vida e os costumes estão imbricados na dicotomia realidade versus aparência.  Mandeville sustenta que os costumes e a moralidade pública são uma fachada hipócrita. A vida privada é, inevitavelmente, dominada por paixões egoístas e vícios (luxúria, orgulho, inveja). Trata-se para o autor de uma virtude fictícia, ou seja, a virtude é vista como uma invenção política para controlar o comportamento e tornar o homem "dócil e útil", contrariando sua natureza. Os costumes sociais são, portanto, um conjunto de regras que buscam canalizar o egoísmo de forma socialmente aceitável. Já o sistema econômico é impulsionado pelo famoso paradoxo: "vícios privados, benefícios públicos." A busca individual por luxo e satisfação pessoal (os vícios) gera consumo, emprego, comércio e, em última análise, a prosperidade nacional. Portanto, o papel da sociedade nada mais é que um agregado de indivíduos buscando maximizar o próprio interesse. O bom funcionamento social depende da gestão astuta dos vícios, não da sua erradicação. O egoísmo é o motor natural e eficiente do sistema. Por outro lado, na visão de Russell (século XX), a vida social estende-se pela posse e pelo medo, daí sua crítica à moralidade e aos costumes que na verdade sufocam os impulsos criativos em favor dos impulsos de posse. A sociedade capitalista industrial do seu tempo valoriza a acumulação, a competição e o controle. A vida social e a política internacional são dominadas pelo medo, pela possessividade (desejo de propriedade, território, domínio) e pelo orgulho nacionalista, que são a raiz da guerra. Por isso, nos aspectos econômicos e sociais Russell busca defender vigorosamente a vida criativa (produção de beleza, conhecimento, amor) em detrimento da vida de posse (acumulação, competição). Assim, valoriza o trabalho construtivo e a cooperação, como o sindicalismo, em oposição ao capitalismo belicoso. Logo, a ameaça do Estado se faz presente nas indagações do autor. Dado que o Estado frequentemente está aliado ao nacionalismo e ao militarismo, impõe costumes e leis que reforçam a dominação e minam a liberdade individual e de pensamento, culminando na guerra. Sendo Osho um homem do nosso tempo, que despontou no pós-guerra fria, as suas postulações sobre os costumes sociais, a moralidade e a religião são entendidas como manifestações dotadas de um profundo medo da dúvida e da insegurança existencial. O modo de vida do homem comum é uma fuga constante da liberdade para a segurança da crença e do grupo. O homem social é um ser domesticado, reprimido pela moralidade externa (seja religiosa ou ideológica), o que o torna infeliz e incapaz de alcançar a plenitude. Quanto a vida social, os sistemas econômicos e políticos são construídos sobre ideologias rígidas (crenças) que dividem a humanidade em facções e geram fanatismo. O capitalismo pós-industrial é visto como um sistema que estimula o consumismo e a alienação, reforçando a busca externa (posse) em vez da transformação interna. Para Osho única forma de mudar a sociedade é através da revolução individual, onde o ser humano se liberta da necessidade de crença, abraça a dúvida e a meditação para atingir a consciência plena.

Dentro dessa perspectiva do pensamento econômico, cada um dos três autores tece suas próprias análises e conclusões. Isso abre um certo precedente para que possamos avaliar qual narrativa melhor nos cabe.  Talvez, Mandeville como o arauto do pensamento liberal econômico. Na obra - A Fábula das Abelhas (1714/1729) – Mandeville é frequentemente citado como um precursor seminal do liberalismo econômico clássico, notavelmente o de Adam Smith. Sua defesa paradoxal de que "Vícios Privados" geram "Benefícios Públicos" subverteu a moralidade tradicional e abriu caminho para a aceitação do auto-interesse como motor da prosperidade. A principal contribuição de Mandeville reside na legitimação do egoísmo e do auto-interesse como forças econômicas benéficas, o que viria a ser o alicerce teórico do capitalismo. Diante disso, temos:

·         A legitimação do auto interesse: Mandeville argumenta que a busca individual por luxo, conforto e prazeres pessoais (os "vícios") estimula o consumo. Este consumo, por sua vez, gera demanda por bens e serviços, impulsionando a produção, o comércio e a inovação. O dinheiro circula, e a nação se torna rica e poderosa. Exemplo: A vaidade de querer roupas caras (luxo/vício) sustenta tecelões, alfaiates, mercadores, e assim por diante.

·         A negação da virtude estática: ao demonstrar que uma sociedade de abelhas que se torna subitamente "virtuosa" (sem luxo, sem egoísmo) inevitavelmente empobrece e declina, ele ataca a noção de que a moderação e a abnegação moral são economicamente desejáveis. Ele sugere que a moralidade rígida é, na verdade, um obstáculo ao desenvolvimento econômico.

·         O mercado como força autônoma (implícita): embora Mandeville não tenha articulado a teoria da "mão invisível" como Adam Smith faria posteriormente, sua obra implica que a economia funciona melhor quando os indivíduos são livres para perseguir seus próprios fins (mesmo que moralmente duvidosos), e não quando são rigidamente controlados pela moralidade ou pelo Estado.

Embora Mandeville tenha fornecido a justificação para a liberdade de ação econômica, Russell e Osho, operando em contextos de capitalismo industrial e pós-industrial, criticam as consequências éticas e sociais da filosofia do auto-interesse irrestrito. Bem, a crítica de Bertrand Russell coloca-se nas consequências sociais e bélicas. Assim, ele concorda que o auto-interesse é um motor poderoso, mas ele distingue entre o que é criativo e o que é possessivo. A partir daí se faz as seguintes considerações:

·         O vício da posse: para Russell, o problema do capitalismo mandevilleano não é o auto-interesse em si, mas a sua manifestação como possessividade (o impulso de posse). A busca incessante por acumular propriedade, riqueza e poder — que Mandeville legitimou como "vício benéfico" — é, para Russell, a causa principal da guerra, do imperialismo e da miséria social no século XX.

·      Rejeição a utilidade dos vícios: Russell rejeita a ideia de que o vício (aqui, a possessividade) é útil. O capitalismo, ao basear-se na competição irrestrita e na possessividade, gera um ambiente de medo e insegurança que leva à violência internacional (guerra).

·         A Busca pelo criativo: a crítica de Russell é um apelo para transcender o mero auto-interesse possessivo (o vício mandevilleano) e focar nos impulsos criativos (ciência, arte, amor, conhecimento), que são construtivos e não competitivos, levando a um sistema social mais pacífico.

Por fim, as consequências existenciais e psicológicas colocadas por Osho permite criticar a sociedade capitalista pós-industrial por criar um ser humano profundamente infeliz e alienado. A análise de Osho imbrica em:

·         A armadilha do desejo externo: o vício e o luxo, que Mandeville via como benefícios econômicos, são, para Osho, meras distrações externas que impedem o indivíduo de confrontar sua própria consciência. A sociedade capitalista, ao legitimar a busca incessante por consumo, mantém o indivíduo em um estado de alienação e dependência de objetos externos.

·         O vício da crença: a busca por riqueza material é vista como análoga à busca por crenças rígidas: ambos são tentativas de preencher um vazio interior com algo externo. O foco no "vício" econômico cria um ciclo de insatisfação que Osho busca quebrar através da transformação interior.

·         Rejeição ao materialismo utilitário: Osho rejeita a métrica de Mandeville (prosperidade nacional como objetivo máximo). A prosperidade material que vem do vício não compensa a perda da liberdade interior e do despertar da consciência.

Conclusão

Mandeville desmantelou a moralidade tradicional para justificar o nascimento do sistema capitalista com base no auto-interesse. Russell e Osho, vivendo sob as consequências desse sistema, criticaram os resultados: Russell focou na destruição social e na guerra causada pela possessividade, enquanto Osho focou na destruição existencial e na alienação causada pela incessante busca por satisfação material.

MANDEVILLE, Bernard. A fábula das abelhas: ou vícios privados, benefícios públicos. São Paulo: Editora Unesp, 2017. 412 p.

OSHO. Crença, dúvida e fanatismo: é essencial ter algo em que acreditar? São Paulo: Planeta, 2015. 254 p.

RUSSELL, Bertrand. Por que os homens vão à guerra. São Paulo: Editora Unesp, 2014. 219 p. 

sábado, 13 de dezembro de 2025

Críticas às estratégias de dominação: análise em três épocas


Se naquele primeiro momento do texto anterior apresentamos os pontos convergentes entre os pensamentos de nossos três autores. Aqui iremos considerar os rumos distintos de cada um deles nos aspectos da economia e sociedade, da política, da religião, dos modos de vida e dos costumes. Tais distinções surgem na avaliação que cada um faz da natureza e da finalidade desses impulsos não-racionais, refletindo seus respectivos contextos históricos.  No que tange a economia e a sociedade precisamos observar o contexto histórico em que estes autores viveram. Daí podemos traçar a realidade de cada época. A perspectiva econômica e social de Mandeville jaz num contexto do século XVIII, cujos princípios estão sobrepostos na defesa implícita do laissez-faire antes de Adam Smith, e um momento da legitimação do luxo da nação hegemônica. Nesse caminho, Mandeville nos apresenta a ideia dos vícios como molas da prosperidade. Pois assim o luxo e o egoísmo são inevitáveis e cruciais para a riqueza nacional na Inglaterra pré-capitalista em ascensão. A moralidade tradicional é um elemento totalmente estéril. Ainda em Mandeville o aspecto da moralidade pública e a religião são, em parte, invenções de governantes e filósofos para domesticar o egoísmo, tornando-o socialmente útil e garantindo a ordem. Sendo a moralidade uma ferramenta ideológica utilizada pelos governos. Para Russell, que reside nas primeiras décadas do século XX em plena primeira guerra mundial, sua crítica pauta-se no imperialismo e no capitalismo industrial que motiva a guerra por recursos e mercados.  Portanto, a ênfase deste autor recaí no criativo versus o possesivo. Ou seja, a obsessão pela posse (propriedade, território) leva à guerra. Defende a autodeterminação e o engajamento coletivo (sindicalismo) para equilibrar o indivíduo e o Estado. A religião (e as Igrejas) na visão de Russell frequentemente é cooptada pelo nacionalismo para justificar a guerra, atuando como um impulso a mais para a beligerância. Defende a liberdade de pensamento e o pacifismo. O capitalismo pós-industrial dotado de crítica ao consumismo, à rigidez ideológica da guerra fria e às estruturas de poder organizadas em torno da crença torna-se o contexto ideal para que Osho possa colocar o dedo sobre a ferida. Por isso, sua análise crítica radical paira sobre o sistema de crença, onde o fanatismo impulsionado pela carência psicológica é a base de sistemas religiosos, políticos e econômicos coercitivos. Em sua visão, o foco está na transformação individual para além da crença. Osho pensa a religião estruturada como prisão, assim como a política ideológica, sendo sistemas de crença que sufocam a dúvida pura (que leva ao conhecimento) e criam o fanatismo, que é a raiz do ódio e da guerra. Busca a consciência individual. Resumidamente podemos dizer que Mandeville enxerga esses impulsos (vícios) como o motor indispensável da prosperidade da nação ascendente (otimismo utilitarista). Já Russell e Osho veem a exploração desses mesmos impulsos (possessividade, necessidade de crença) como a causa das maiores tragédias e limitações da humanidade (pessimismo ético-existencial). Portanto o ponto de distinção final é a solução: Mandeville aceita o vício como motor; Russell propõe a promoção de impulsos criativos e uma política mais justa; Osho clama por uma transformação radical da consciência individual (dúvida pura) que transcenda a necessidade de crença em primeiro lugar. Com a finalidade de compreender melhor as estratégias de poder para criar ambientes de dominação contra a sociedade, estes autores tecem críticas ácidas à religião - um instrumento de controle e dominação social.  Sendo um  ponto de convergência notável, embora com matizes distintas, nas obras de Bernard Mandeville, Bertrand Russell e Osho. Cada autor, em seu respectivo contexto histórico (séculos XVIII, XX e pós-Guerra Fria), desvela como a fé estruturada serve aos propósitos do poder político, social e até mesmo psicológico.

1. Mandeville (século XVIII): a religião como artifício político para a ordem

Na Inglaterra pré-capitalista do século XVIII, Mandeville, em A Fábula das Abelhas, não ataca a fé em si, mas questiona o papel da moralidade e da virtude (frequentemente impostas pela religião) na sociedade.

  • Dominação pela Virtude Artificial: Para Mandeville, a religião institucionalizada, juntamente com a filosofia moral, funciona como um artifício político criado por "governantes hábeis" para moldar o comportamento humano. O objetivo não é a salvação da alma, mas sim a pacificação social e o controle dos vícios privados que, em excesso, poderiam desestabilizar o Estado.
  • Controle do Egoísmo: a religião domina ao sugerir que o egoísmo desenfreado é pecaminoso, impondo o conceito de sacrifício e moderação. Isso permite que o Estado canalize os impulsos egoístas (vícios) da população de formas que são, paradoxalmente, economicamente produtivas (o luxo gera comércio), enquanto mantém a ordem pública pela promessa de recompensas ou medo de punições divinas.
  • Característica da Época: a crítica de Mandeville é cínica e utilitarista, refletindo o nascimento do liberalismo. A religião é vista como uma ferramenta pragmática de engenharia social para a manutenção da Pax Britannica e a ascensão econômica da nação.
  • Dominação pela Obediência e Justificação: Russell argumenta que as Igrejas e a moralidade religiosa são frequentemente cooptadas pelo nacionalismo para justificar a guerra. A religião não só prega a obediência cega (a Deus e, por extensão, ao Estado), mas também fornece uma sanção moral e divina para a violência. Ela transforma o assassinato em "sacrifício patriótico" e o ódio ao inimigo em uma "cruzada".
  • Supressão da Dúvida: ao exigir crença inabalável e lealdade a dogmas, a religião mina o impulso criativo e o juízo racional individual, que Russell considera essenciais para a paz. A dominação ocorre ao impor uma mentalidade de rebanho, onde a crítica é vista como heresia ou traição.
  • Característica da Época: a crítica de Russell é pacifista e humanista, focada na destruição causada pela união do poder religioso e do poder de Estado (militarismo). Ele critica especificamente como o clero de todas as nações beligerantes abençoava suas respectivas tropas, evidenciando a instrumentalização da fé para fins políticos e de guerra.
  • Dominação pela Necessidade de Crença: Para Osho, a religião domina ao capitalizar a insegurança fundamental do indivíduo diante da vida e da morte. O ser humano não suporta a dúvida pura (o estado de não-saber) e, por isso, busca refúgio em sistemas prontos de crença (dogmas, ideologias).
  • Criação do Fanatismo e da Exclusão: Este sistema de crença estabelece uma dicotomia "nós contra eles" (crentes vs. infiéis), gerando o fanatismo. A dominação se manifesta na coerção social e na violência moral imposta pelo grupo ao indivíduo que ousa duvidar. O indivíduo domina a si mesmo ao aceitar uma resposta fácil em vez da jornada incerta da consciência.
  • Característica da Época: A crítica de Osho é radical e anti-institucional. Ele critica a rigidez ideológica tanto da religião quanto da política de seu tempo (capitalismo vs. comunismo). Para ele, toda crença estruturada (seja religiosa ou ideológica) é um mecanismo de dominação que impede a liberdade interior e a iluminação.

2. Russell (século XX): a religião a serviço do nacionalismo e da guerra

Russell, escrevendo em 1915, no auge da Primeira Guerra Mundial (capitalismo industrial, nacionalismo exacerbado), concentra-se em como a religião apoia a ideologia bélica. Em Por que os Homens Vão à Guerra, ele vê a dominação religiosa fundindo-se com a dominação estatal, que tem como consequência supressão da razão e Justificação da Guerra, ou seja, a violência estatal e a obediência cega.

3. Osho (pós-guerra fria): a religião como fuga psicológica e raiz do fanatismo

Osho, atuando no capitalismo pós-industrial (pós-1968, Guerra Fria), aprofunda a crítica ao nível psicológico e existencial. Em Crença, Dúvida e Fanatismo, a dominação não é apenas política, mas reside na própria estrutura da crença humana. Criação do Fanatismo e da Infelicidade Interior são consequêcias da dominação religiosa, que capitaliza a aversão humana à dúvida e à insegurança.

Em suma, Mandeville vê a dominação religiosa como um mal necessário e útil para a prosperidade da nação. Russell a vê como uma força perigosa a serviço do militarismo e da guerra. Osho a vê como uma prisão psicológica e existencial que impede a realização do potencial humano. Os três concordam que, longe de ser apenas uma questão de fé individual, a religião é um poderoso mecanismo de poder e controle social.

MANDEVILLE, Bernard. A fábula das abelhas: ou vícios privados, benefícios públicos. São Paulo: Editora Unesp, 2017. 412 p.

OSHO. Crença, dúvida e fanatismo: é essencial ter algo em que acreditar? São Paulo: Planeta, 2015. 254 p.

RUSSELL, Bertrand. Por que os homens vão à guerra. São Paulo: Editora Unesp, 2014. 219 p. 


Natureza

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