Diante das grandes repercussões políticas e econômicas que tomam conta da mídia nacional e abalam todo o país, não poderíamos deixar falar aqui a respeito do caso do Banco Master. Até mesmo por eu ter investido em um CDB deles que prometiam retorno de 120% do CDI, que com muito custo fui ressarcido pelo Fundo Garantidor de Crédito (FGC). Mas infelizmente, tem uma grande parcela de pessoas que investiram seja diretamente, ou via fundos de investimentos que não irão receber facilmente os valores. Sim, podem dizer que somos iludidos por altos retornos e ganhos fáceis, ou seja, visamos o lucro. Isso é perfeitamente normal dentro de uma economia capitalista. Principalmente no atual capitalismo financeiro, em que o dinheiro virou mercadoria - mercadoria intangível (números numa tela de computador). A era do dinheiro virtual, cujo juro é a forma de remuneração pelo empréstimo de valores monetários. Trara-se de um sistema baseado na confiança, daí o termo fiduciário (fé, crença, acreditar no outro). Interessante observar que tais palavras são fortemente presentes nos dogmas religiosos. Parece que dinheiro e religião entrelaçaram-se e comungam o mesmo objetivo. Alguns de meus leitores podem dizer: isso é paranoia, que é apenas mera coincidência e coisas do tipo. Se formos buscar nos fatos históricos, algumas religiões dissidentes do catolicismo eram bastante tolerantes a usura, nada mais que empréstimos a juros. Essas religiões preconizaram os ideais burgueses e capitalistas. Digo isso, pelo fato de que a história percorre ciclos e segue uma mesma lógica, no entanto o espaço e o tempo muitas vezes se diferem. Aonde quero chegar diante desse pensamento? Bem, a resposta está justamente aqui, no Brasil, em pleno século XXI. Porém, precisamos fazer um esforço intelectual e pontuar alguns fatos anteriores para entender a realidade atual dos acontecimentos. A força capitalista propulsionada pelo motor da indústria, produção e o consumo de bens em meados dos anos 70 do século XX inicia sua derrocada. Ocorre o processo de desindustrialização e modelo fordista perde força em quase todo o mundo. Os sindicatos, as associações e as lutas dos trabalhadores são minadas, assim como a grande indústria fabril. O capitalismo fordista de produção deixa de ser o modelo atraente e abre espaço para serviços e a financeirização. Os bancos tornam-se os imperadores do mercado. As finanças e o mercado financeiro determinam como será o jogo do poder. Não interessa mais produzir e vender da maneira antiga. O mote é inserir o consumidor no jogo do crédito e débito, ou seja, a mercadoria é só uma isca para atrair futuros devedores, e deles cobrar juros. A era do homem endividado. Aquele que não possui empréstimos e dívidas deixa de ser atraente ao mercado. Com tudo isso, a indústria ganha com a bancarização e emissão de títulos creditícios. Vejam bem, toda essa mudança atinge desde de indivíduos à países. Pois, grandes nações passam a contrair empréstimos à juros devido a desindustrialização e caírem na ideologia neoliberal, ficam então sujeitas aos ditames de países credores e grandes conglomerados financeiros. As consequências desse neoliberalismo foram avassaladoras, como as crises constantes e abalo na soberania de muitos países que impactam diretamente na democracia. As privatizações e a austeridade nos gastos públicos marcam bem essa época no Brasil, no final dos anos 90 com o governo de Fernando Henrique Cardoso. A implementação do ideal neoliberal teve um custo enorme para o país, privatizações a toque de caixa, aumento do desemprego, mesmo com baixa inflação a pobreza extrema prevalecia. A distribuição da riqueza situava-se em níveis elevados. A elite ainda possuía grande parte da riqueza produzida em suas mãos. Nos bastidores da política e da economia a usura imperava e fazia com que as fortunas crescessem ainda mais. Os grandes bancos tinham lucros absurdos. Para captar mais dinheiro e ampliar as linhas de créditos ás famílias, às empresas e aos pequenos negócios entrava em cena a criatividade financeira do mercado. O mix de produtos financeiros - assim como a variabilidade de espécies de plantas e animais dentro da biologia - caminhavam numa diversidade assustadora. Os bancos, corretoras, financeiras e gestoras de investimentos, além das casas de análises locupletavam-se numa plêiade de entes financeiras. Muitas delas sem qualquer real lastro de capital, no intuito apenas de captar dinheiro de investidores com a promessa de altos rendimentos. Muitos dos produtos financeiros lastreados por essas entidades eram compostos de títulos e ativos denominados podres, com muito pouco valor real e artificialmente valorizado. Um exemplo claro, são os subprimes norte-americano, dividas imobiliárias (hipotecas) que eram vendidos aos pequenos investidores sem qualquer clareza em relação ao risco de crédito e capacidade do devedor em honrar a dívida. É importante observamos com clareza, que o capitalismo ao buscar novas maneiras de acumular-se e crescer não se importa com o modelo econômico e nem mesmo com o seu detentor. Por isso o dinheiro perpassa por diferentes de mãos e determina quem o comandará. Na atualidade, o capital conforma-se no modelo do dinheiro produzindo mais dinheiro sem passar pelo crivo da mercadoria, tornou-se um fim em si mesmo. Daí nasce o capitalismo financeiro e com ele toda uma espécie de produtos para o gosto do freguês, da qual citamos logo acima. Pois, é nesse instante que poderemos analisar detidamente os casos mais absurdos e bizarros de grupos ou indivíduos que fizeram desta vertente de capitalismo financeiro para gerar fortunas e se aproveitar do poder. Especificamente, o caso do Banco Master (claro que casos anteriores e outros futuros adentraram e adentrarão as páginas policiais e da mídia, assim como os meios políticos) mostra-se mais recente e gerou todo um burburinho nos corredores de Brasília. Não há nada demais em adquirir títulos de créditos privados como CDBs, LCIs, LCAs, FDICs e outros produtos financeiros. Tratam-se, a grosso modo, de compras de dívidas, em que empresas tomam empréstimos e assim pagam juros conforme o risco. Quanto maior o risco, maior os juros. Ai que entra a mágica do Banco Master, com seu truque de ilusionismo financeiro, ao emitir títulos de créditos privados com promessa de juros acima do 120% do CDI. O Banco captou dos investidores bilhões em reais, mas sem condições reais honrar com os credores. A verdadeira questão é que o Master não possuía se quer patrimônio e muito menos capital suficiente para arcar com prejuízos. Enquanto isso, o seu dono vivia uma vida luxuosa e de aparências, gastando o dinheiro dos investidores. Bem próximo ao esquema das pirâmides, só que com aval político. O mais interessante dessa história toda é o que há por trás de tudo. O dono do Banco Master tem ligações com a igreja a qual pertence um deputado da direita e o seu pastor está ligado diretamente ao banqueiro (laços familiares). Uma forte rede que interliga política, igreja e capital financeiro. O Banco Master, assim como outros negócios bilionários demonstra a incapacidade de grandes empreendimentos de andarem sozinhos, e dependem fortemente de aportes do Estado e subsídios estatais. Não que tais subsídios e financiamentos sejam ilegais ou imorais. Portanto, cabe aos governos o dever de cobrar transparência na gestão destes recursos emprestados e fiscalizá-los. Enfim, trata-se de dinheiro que sai do bolso da população através de impostos. Infelizmente, escândalos financeiros como estes já não nenhuma novidade no mundo corporativo. Exemplos emblemáticos no Brasil e no mundo tornaram-se corriqueiros, porém um prato cheio para a mídia. Alguns vão lembrar-se do caso Coroa Brastel em 1983, em que letras de câmbio frias foram jorradas no mercado e sem qualquer lastro, dando enormes prejuízos aos pequenos investidores. Muitos outros casos como estes tiveram destaque na página principal dos jornais. Banco Nacional (1995), Banco Econômico (1995), Bamerindus (1997) - que não estava numa boa, Banco Marka (1999), FonteCindam (1999) que foram socorridos pelo Banco Central e outros exemplificam o descontrole na emissão e fiscalização de ativos financeiros, apesar da forte regulamentação por parte dos órgãos monetários. Talvez uma grande parcela da sociedade enxerga isso como algo natural, e inconscientemente até defenda tal atitude. Como se a corrupção por parte das empresas fosse uma consequência dos atos provocados pelos governo e entidades estatais. No entanto, tal suposição é errônea - dado que muitos bancos e empresas dependem de aportes e financiamentos estatais como o BNDES para manter-se. O Banco Master não fugiu à regra - e sim - houve por parte do empresário claras tentativas de aproximar-se de pessoas do Estado para obter vantagens e ganhos. Mais uma vez os vícios privados tentam alinhar dos vícios públicos. No final de tudo, os únicos perdedores - mais uma vez - são os trabalhadores cuja previdência está atrelada a estes fundos mal geridos; o pequeno investidor que acredita que terá algum rendimento com esses títulos (podres) e a sociedade em geral que assiste incrédulo toda essa farsa montada por apenas interesses espúrios.
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