sábado, 24 de janeiro de 2026

Entre periferias e prensas: como a mídia costura a narrativa da violência em duas épocas e espaços.

 

Os romances-reportagem e ensaios sobre criminalidade costumam dizer tanto sobre os lugares que descrevem quanto sobre os instrumentos que os representam. Lidos lado a lado, Cabeça de Porco, de Celso Athayde e MV Bill, e A tinta e o sangue, de Dominique Kalifa, oferecem uma vigília comparativa: um mapeamento espaço-temporal sobre como a violência e o crime são narrados, vendidos e instrumentalizados pela mídia — e como essas narrativas moldam políticas, estigmas e práticas cotidianas de controle social.

Dois mundos, um mesmo mecanismo:

A obra de Kalifa recupera os mecanismos do sensacionalismo policial na França do século XIX: a emergência da imprensa popular — jornais baratos, reportagens melodramáticas, ilustrações e “casos” que prendiam leitores — criou uma indústria de notícias criminais que transformava crimes em espetáculos. A pena e a gravura compunham imagens fortes sobre marginalidade, monstro e perigo urbanizados, deslocando debates sobre desigualdade para as páginas de entretenimento e alimentando pânico moral.

Cabeça de Porco, situado nas periferias urbanas brasileiras contemporâneas, traz o contraponto em um contexto tecnológico e sócio-histórico diferente: a violência é filmada, viralizada, transmitida por telejornais e redes sociais; as favelas são simultaneamente território real e produto midiático. Athayde e MV Bill mostram como a imagem da “boca de fumo”, do “traficante” e do “criminoso” se incorpora no discurso público e termina por orientar políticas de segurança, coopta narrativas locais e desincentiva leituras estruturais da pobreza.

Espaço: periferia vs. centro e a geografia das representações:

Kalifa descreve um centro urbano em plena transformação industrial, onde a criminalidade ganha foco porque perturba a ordem burguesa e porque vende jornais. O “espaço” aqui é a cidade em expansão: a vitrine do capitalismo nascente que precisa explicar (e conter) a desigualdade. Em contraste, Cabeça de Porco mostra periferias que a mídia contemporânea insiste em manter como “fora” do centro — zonas de exceção onde a violência é tratada como fenômeno cultural ou patológico, mais que como resultado de exclusão socioeconômica. A imprensa e as câmeras reconstroem esses territórios como ameaças permanentes, demarcando fronteiras simbólicas entre “nós” e “eles”.

Temporalidade: do papel à tela:

A passagem do século XIX ao século XXI acompanha uma transformação técnica decisiva. No modelo de Kalifa, o jornal impresso, a notícia e fixa a imagem do criminoso num ciclo relativamente previsível: rumor — reportagem — ilustração — julgamento simbólico. No Brasil contemporâneo, as televisões, os portais noticiosos e as redes sociais aceleram e fragmentam esse ciclo: imagens em vídeo, áudios, transmissões ao vivo e comentários em tempo real potencializam a circulação, mas também pulverizam a responsabilidade editorial. A velocidade amplia a visibilidade do conflito, transforma indivíduos em virais e intensifica decisões políticas e operações policiais em reação a manchetes, trending topics e cliques.

A construção do inimigo e seus efeitos práticos:

Ambos os livros mostram que a mídia não é apenas observadora; ela ativa mecanismos legais, econômicos e simbólicos. Kalifa demonstra como a imprensa do século XIX contribuiu para criar um tipo de figura criminosa que justificava câmaras inquisitoriais e leis novas; Athayde e MV Bill expõem como a cobertura contemporânea das favelas legitima operações de polícia militar, projetos de encarceramento e estigmatização institucional — e como essas intervenções retroalimentam a violência que elas dizem combater.

Importância dos atores locais e das vozes subalternas:

Uma diferença crucial é a presença (em Cabeça de Porco) de atores locais que resistem à única narrativa: lideranças comunitárias, educadores, artistas e ex-detentos que tentam redescrever a periferia. Já na análise de Kalifa, a imprensa massiva raramente incorpora vozes da periferia operária do século XIX — o “outro” é narrado por quem detém a caneta. Hoje, embora as mídias sociais possam dar voz direta a moradores, essas vozes competem num ambiente saturado onde imagens sensacionais continuam dominando a agenda.

Mídia como mercado e como máquina de moralidade:

Ambos os contextos confirmam uma constatação: notícias sobre crime são mercadoria. No século XIX, vender jornais exigia casos chocantes; hoje, cliques e audiência ditam manchetes. Essa relação mercado-moralidade transforma crime em espetáculo e simplifica causas complexas — o resultado é uma opinião pública inclinada a respostas punitivas imediatas, políticas de exceção e universalização do medo.

Narrativas que precisam ser desconstruídas:

A correlação entre Cabeça de Porco e A tinta e o sangue mostram que, apesar das diferenças de época e tecnologia, o núcleo do problema é semelhante: a mídia contribui decisivamente para definir quem é considerado criminoso e que respostas a sociedade adota. Ler os dois em diálogo permite perceber padrões - produção do pânico, mercantilização do sofrimento, invisibilização de estruturas - e pressiona por uma imprensa que contextualize, pluralize vozes e recuse a simplificação sensacionalista. Para além do diagnóstico, resta um convite: transformar a agenda pública, criando espaços midiáticos e políticos que privilegiem explicações estruturais, reparação social e políticas de segurança orientadas por direitos, e não apenas por imagens que vendem.

A Violência Midiatizada: Da Paris do Século XIX às Favelas Cariocas do Século XXI

A violência sempre existiu; a forma como a contamos, porém, nunca foi neutra. Entre Paris e Rio, entre o século XIX e o XXI, a mídia permanece como protagonista nessa história - para o bem ou para o mal.

Como a construção narrativa do crime atravessa séculos e fronteiras, revelando padrões midiáticos que transformam a violência em espetáculo

Separados por mais de um século e um oceano, dois livros aparentemente distintos revelam uma inquietante continuidade histórica: a relação simbiótica entre violência, criminalidade e mídia. "A Tinta e o Sangue", do historiador francês Dominique Kalifa, e "Cabeça de Porco", da dupla brasileira Celso Athayde e MV Bill, expõem, cada um à sua maneira, como a narrativa midiática sobre o crime não apenas documenta a violência, mas a constrói, a espetaculariza e a transforma em mercadoria cultural.

O Nascimento do Crime como Espetáculo:

Em "A Tinta e o Sangue", Kalifa mergulha na Paris do século XIX para desvendar o momento fundacional da cultura de massa em torno do crime. A capital francesa, então epicentro da modernidade, testemunhou o nascimento de uma nova forma de consumir violência: através da imprensa sensacionalista, dos romances policiais e dos fait divers - aquelas pequenas narrativas de crimes cotidianos que fascinavam (e ainda fascinam) o público.

O historiador demonstra que a tinta dos jornais e a tinta da literatura beberam do sangue real das ruas parisienses para criar um imaginário do crime que ultrapassava em muito a realidade estatística. A violência, filtrada pelas lentes da mídia oitocentista, tornava-se produto de entretenimento, instrumento de controle social e ferramenta de construção de identidades urbanas.

Das Apaches Parisienses aos Comandos Cariocas:

Avançando no espaço e no tempo, chegamos ao Rio de Janeiro do início do século XXI. "Cabeça de Porco", lançado em 2005, leva o leitor para dentro do Complexo de favelas da Penha, oferecendo um relato visceral da violência urbana brasileira. MV Bill, rapper nascido e criado na Cidade de Deus, e Celso Athayde, produtor cultural e ativista, constroem uma narrativa que é simultaneamente denúncia, testemunho e obra jornalística.

A correlação temporal é reveladora: assim como as gangues das "Apaches" aterrorizavam o imaginário parisiense do fin-de-siècle - frequentemente de forma exagerada pela imprensa -, os "comandos" e facções das favelas cariocas ocupam, no século XXI, um espaço desmedido no noticiário brasileiro. A diferença crucial, porém, está no lugar de fala: enquanto Kalifa analisa como a elite letrada francesa construiu narrativas sobre as classes perigosas, Athayde e MV Bill falam de dentro, desmontando estereótipos midiáticos com a autoridade de quem viveu a realidade retratada.

A Mídia como Mediadora e Criadora da Violência:

Ambos os livros, cada um em seu registro, evidenciam o papel central da mídia não como mero espelho da violência, mas como agente ativo em sua configuração social. No século XIX francês, a imprensa popular criou arquétipos do criminoso que permanecem até hoje: o apache violento, a prostituta vítima, o burguês devasso. Esses tipos, mais do que descrever a realidade, moldavam a percepção pública e influenciavam políticas de segurança.

No Brasil contemporâneo, "Cabeça de Porco" denuncia operação semelhante. A favela midiatizada é quase sempre sinônimo de violência, seus moradores eternamente suspeitos, suas crianças condenadas de antemão. MV Bill e Athayde mostram como essa narrativa hegemônica invisibiliza a complexidade social das comunidades, reduzindo-as a cenários de guerra onde apenas traficantes e policiais existem.

O Sangue que Vende Jornais - Ontem e Hoje:

"Se há sangue, há primeira página" - o velho adágio jornalístico que Kalifa identifica no século XIX permanece assustadoramente atual. A economia da atenção, que começou com os jornais populares franceses vendidos a um centavo, atinge seu paroxismo nas redes sociais e na cobertura televisiva contemporânea. A chacina, o tiroteio, a operação policial: tudo vira espetáculo instantâneo, consumido vorazmente por uma audiência simultaneamente horrorizada e fascinada.

A diferença talvez esteja na velocidade. Enquanto os leitores parisienses esperavam a edição vespertina para saber dos crimes matinais, hoje o sangue é transmitido ao vivo, em tempo real, com helicópteros sobrevoando favelas e cinegrafistas documentando cada disparo. A tinta se tornou pixel, mas o sangue continua sendo o mesmo.

Geografias da Exclusão:

Há também uma perturbadora continuidade geográfica na forma como a violência é espacializada. Kalifa mostra como certos bairros parisienses - Belleville, La Chapelle, zonas operárias - eram construídos discursivamente como territórios do perigo, zonas morais onde a lei vacilava. Essa cartografia do medo legitimava tanto o sensacionalismo midiático quanto as incursões policiais mais violentas.

"Cabeça de Porco" revela mecanismo idêntico operando nas favelas cariocas. O morro, na geografia imaginária da cidade, é o espaço do Outro, do perigo, da desordem - o que autoriza tanto a cobertura espetacularizada quanto a violência estatal sistemática. Em ambos os casos, a estigmatização midiática de territórios inteiros reforça ciclos de marginalização e violência.

Resistências Narrativas:

Contudo, se Kalifa documenta como os subalternos foram representados pela elite midiática do século XIX, "Cabeça de Porco" representa algo radicalmente novo: a tomada da palavra. MV Bill e Athayde não são acadêmicos externos analisando a favela, mas vozes emergentes de dentro dela, disputando o monopólio narrativo sobre suas próprias vidas.

Essa ruptura é fundamental. O livro brasileiro não apenas denuncia a midiatização da violência, mas oferece uma contra-narrativa, complexificando o que a mídia tradicional simplifica, humanizando quem ela desumaniza, contextualizando o que ela espetaculariza. É a diferença entre ser objeto e sujeito da história.

Um Século de Continuidades:

Colocados em diálogo, "A Tinta e o Sangue" e "Cabeça de Porco" revelam que a relação entre mídia, violência e criminalidade possui raízes históricas profundas. Da Paris de Balzac e Zola ao Rio de Janeiro de MV Bill, permanece a tentação de transformar o sofrimento real em entretenimento, de simplificar complexidades sociais em narrativas maniqueístas, de estigmatizar territórios e populações inteiras.

Mas os livros também apontam caminhos. Se Kalifa nos ajuda a entender historicamente como chegamos aqui - como a cultura de massa sobre o crime se consolidou -, "Cabeça de Porco" demonstra que outras narrativas são possíveis quando aqueles que vivem a violência tomam a caneta (ou o microfone) das mãos de quem apenas a observa de longe.

A tinta continua se alimentando do sangue, mas agora algumas mãos antes silenciadas começam a escrever suas próprias histórias. E isso, talvez, seja o início de uma mudança que nem Kalifa poderia ter previsto ao estudar a Paris do século XIX: o momento em que os objetos da narrativa criminal se tornam seus sujeitos, desafiando um século e meio de representações que os desumanizaram.

O Espetáculo do Medo: Da Paris da Belle Époque às Favelas do Rio de Janeiro:

Uma análise comparativa entre "A Tinta e o Sangue", de Dominique Kalifa, e "Cabeça de Porco", de MV Bill, Celso Athayde e Luiz Eduardo Soares, revela como a mídia molda, há séculos, a nossa percepção da violência.

Separados por um oceano e por um século de história, dois cenários aparentemente distintos se encontram na intersecção entre a tinta dos jornais e o sangue das ruas. De um lado, a Paris do final do século XIX, iluminada pelos lampiões a gás e aterrorizada pelas manchetes sensacionalistas. Do outro, o Rio de Janeiro do início do século XXI, marcado pelos becos das favelas e pela guerra do tráfico televisionada.

Ao colocarmos lado a lado o estudo histórico:  A Tinta e o Sangue, do historiador francês Dominique Kalifa, e a reportagem antropológica Cabeça de Porco, de Celso Athayde, MV Bill e Luiz Eduardo Soares, emerge uma linha contínua e perturbadora: a construção midiática do "criminoso" e a transformação da violência em produto de consumo de massa.

A Invenção do "Fait Divers" e a Realidade da Favela:

Dominique Kalifa nos transporta para a França da Belle Époque, momento em que a imprensa de massa explodia. É ali que nasce o fascínio moderno pelo crime. Kalifa demonstra como os jornais da época, o chamado Petit Journal, não apenas relatavam crimes, mas criavam uma narrativa de terror urbano. O "apache" parisiense — o jovem delinquente dos subúrbios — tornava-se uma figura mítica, um monstro necessário para vender jornais e justificar políticas de repressão higienista.

Saltamos então para o Brasil contemporâneo de Cabeça de Porco. O cenário muda, mas a dinâmica de estigmatização permanece assustadoramente similar. Se em Paris a tinta do jornal criava o monstro, no Rio de Janeiro, as câmeras de TV e as manchetes policiais ajudaram a consolidar a imagem do jovem negro e favelado como o "inimigo público número um".

Athayde, Bill e Soares mergulham na realidade crua que a mídia raramente mostra. Enquanto a imprensa tradicional foca no corpo estendido no chão e na apreensão de armas (o espetáculo), Cabeça de Porco busca a biografia por trás do gatilho. O livro revela a humanidade complexa dos "soldados do tráfico", desmontando a caricatura simplista que a sociedade consome no jantar.

O Medo Como Moeda de Troca:

A correlação espaço-temporal entre as obras evidencia que o medo é uma moeda histórica valiosa.

Em Kalifa, em pleno século XIX/XX o medo do crime serviu para vender tiragens recordes e consolidar a indústria cultural nascente. A violência era estética, um folhetim sangrento para entreter a burguesia segura em seus salões. Já para Athayde/Bill - século XXI -  esse medo justifica a militarização da segurança pública e a ausência do Estado nas favelas. A mídia, muitas vezes, atua como porta-voz oficial das operações policiais, perpetuando uma visão de "nós contra eles", onde a favela é o território do "outro", o bárbaro moderno.

A Voz dos Silenciados:

A grande diferença — e talvez o ponto de virada — está na autoria e na perspectiva. Kalifa faz uma arqueologia do discurso midiático; ele analisa como os outros falaram sobre o crime. Já Cabeça de Porco é uma ruptura nesse padrão histórico. Pela primeira vez, a narrativa não é apenas sobre o território vulnerável, mas parte dele. MV Bill e Celso Athayde, oriundos da CUFA (Central Única das Favelas), tomam para si a "tinta" para descrever o próprio "sangue".

Enquanto a imprensa francesa descrita por Kalifa lucrava com a distância entre o leitor e o criminoso, os autores brasileiros encurtam essa distância. Eles nos forçam a olhar nos olhos dos jovens que, sem opções de Estado ou mercado, encontram no tráfico uma identidade e um pertencimento — uma tragédia social que a manchete sensacionalista ignora deliberadamente.

A Mídia no Banco dos Réus:

Ler A Tinta e o Sangue à luz de Cabeça de Porco é perceber que a "crônica policial" nunca é neutra. De Paris ao Rio, a narrativa da violência é seletiva.

Kalifa nos ensina que a sociedade de massa precisa do crime como espetáculo para definir suas fronteiras morais. Athayde e Bill nos mostram o custo humano dessa necessidade. A junção das obras serve como um alerta atemporal: enquanto consumirmos a violência como entretenimento ou estatística fria, continuaremos a alimentar a engrenagem que mancha de sangue as ruas e de tinta (ou pixels) as nossas consciências.

A criminalidade muda de rosto, de arma e de sotaque ao longo dos séculos. Mas a lente de aumento da mídia, que distorce para vender e segregar, permanece, infelizmente, a mesma.

KALIFA, Dominique. A tinta e o sangue: narrativas sobre crimes e sociedade na Belle Époque. Tradução de Luiz Antônio Oliveira de Araújo. São Paulo: Editora da Unesp, 2019. 519 p.

SOARES, Luiz Eduardo; MV BILL; ATHAYDE, Celso. Cabeça de porco. Rio de Janeiro: Objetiva, 2005. 295 p.

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