domingo, 8 de março de 2026

A ideologia torta do capital: contradições e erros

A contemporaneidade exige de nós uma compreensão mais aprofundada das mudanças do mundo, portanto entender a dinâmica do capital torna-se essencial para que de fato possamos alinhar pensamentos e construir críticas minimamente factíveis. Não cabe mais na atualidade considerações pueris - digamos infatilizadas - que nós levam a decisões erradas e a mera opinião. É preciso enxergar no macrocosmo as paulatinas transformações sociais,  políticas e econômicas nesse pequeno intervalo do fim do século XX e o início do século XXI. Do ponto de vista histórico as grandes transições foram bastante perceptivas, ao apontar-se para o desenvolvimento e inovações tecnológicas, principalmente no âmbito da computação quãntica, Inteligência Artificial, computação em nuvem e Big Data. Trata-se de uma nova revolução industrial, ou seja - a indústria sem o operariado - cuja a máquina torna-se o elemento central. No entanto, há um preço muito alto a se pagar, valor intagível, que atinge diretamente toda sociedade. Dada a  consequência nefasta ao meio ambiente e consumo energético. Além de alterar a subjetividade humana por completo. Assim, somos jogados para dentro um sistema maquinal, em que o ego é triturado e nossa personalidade fica reduzida à pó. Somos apenas engrenagens e submetidos à vontade da maquinaria, verdadeiros homem-máquina. Não nos cabe aqui falar mais em produção e mercadoria. Agora, o humano é o produto da vontade da máquina. Entretanto, há aqueles que erroneamente insistem em afirmar que a velha indústria prevalece, pensam acreditar num capital produtivo de mercadorias e num amplo mercado consumidor. Talvez, por convições, valores ou mera ingenuidade (sendo bem menos improvável) essas pessoas - em sua maioria burgueses sem burgo - ainda pregam o mote da meritocracia, do nascer do nada, do trabalhar duro e atingir a riqueza. Elas simplesmente distorcem a realidade, criam esperanças em uopias. Enfim, qual o porquê deste assunto? qual a relevância dele neste texto? Bem, meus caros leitores, precisamos entender que não estamos mais dentro de um cenário dos anos 70, cujo a estabilidade política e econômica fazia-se presente no modelo da social-democracia. Os tempos são outros, nada mais tem a solidez de antes. Quem detém o poder é o mercado financeiro, onde dinheiro se traduz em mais dinheiro. Produtos e mercadorias são secundários. As empresas não tem mais um rosto, apenas acionistas e são administrada por um CEO. Por isso, viemos aqui tecer algumas críticas aos que ainda procuram referências históricas não mais cabíveis na atualidade. Com tais mudanças, pode-se dizer que a produção intelectual não está mais atrelada às atividades e tarefas rotineiras. Isso é um fato, dado que o capitalismo cognitivo exige de todos nós a condição de trabalhadores intelectuais subservientes às plataformas das Big Techs, daí retiram o mais valor social. Afinal, foi o que Marx previu como "general intelect". Pois qualquer afirmação generalizada da sociedade em relação a proteção daqueles ditos vagabundos (os não trabalhadores) soa como pura hipocrisia. Assim, deixo em tom de pergunta:proteger os mais carentes, moradores de rua, pessoas em situação de miséria é alimentar vagabundos? Há um grande equívoco nesse sentido, sendo qua a função do Estado é proteger quem mais precisa, portanto, as políticas sociais e de renda miníma precisam ser colocadas nas agendas em favor dos mais vulneráveis. 

Um outro erro está na afirmação de que a desigualdade financeira deve-se à desigualdade de educação. Existe aí um desconhecimento da realidade social e econômica, nem sempre ou rara vezes a educação vem como um elemento base para a desigualdade social. A discrepância está pontuada na diferença de renda entre ricos e pobres. A educação em si, ou,  a falta dela não é causa dessa desigualdade. A real causa perpetua-se na má distribuição e na concetração da riqueza nas mãos de poucos. Elevar o nível educacional contribui e mutio para que haja oportunidades de melhores empregos e salários, mas não define a desigualdade financeira. Criou-se a ilusão que para gerar lucro basta adquirir conhecimento e estar conectado a uma boa rede de relacionamento. Isto é desconsiderar a diferença entre lucro e conhecimento, trata-se de uma visão simplista e rasa. Bem, o lucro vem do mais-valor e da produção do trabalho, isso na exegese do capitalismo produtivo fordista. Ao colocarmos em termos atuais, da qual impera o capitalismo financeiro, o lucro está nos produtos do mercado de papéis (ações, títulos derivativos). É a acumulação de capital por meio do dinheiro produzindo mais dinheiro, e sem o elemento mercadoria tangível. Logo, assumir que o lucro vincula-se à aquisição de conhecimento e conexões numa rede de relacionamento, é não entender a essência do nosso capitalismo atual. Da mesma forma, quando julga-se que grande parte do ensino e aprendizagem hoje está no ambiente corporativo. Temos aí um erro crasso ou a pura desonestidade intelectual cometida por esses defensores do capitalismo. Em primeiro lugar, as empresas transformaram-se em não-lugares e sim em ambientes produtores de pápeis intangíveis, um lugar sem rosto. Com já diziamos antes, as empresas em sua maioria não tem mais donos-  apenas acionistas. Elas vivem de compra e venda de títulos, ações, debentures e dívidas. Por issosão incapazes de dar conta de uma educação formal ou profissional adequada e voltada para sociedade. Assim, acrescentamos que o ensino vem da escola e da educação regular. As pessoas adquirem formação e conhecimento solído no ambiente físico da sala de aula,com a presença de professores bem formados e capacitados, num ambiente crítico e de debates de ideias. Querer mercantilizar o ensino no âmbito organizacional trata-se de uma estratégia para alienar o trabalhador e colocá-lo numa posição de passividade diante das lutas trabalhistas. Esses mesmos donos dos meios de produção apontam o ensino corporativo  uma maneira de baratear a educação. Fala-se de uma escola barata. Aí devemos sim refletir e criticar tal solução. Para começar, a escola nunca foi barata e jamais poderia ser. Afinal, educação não tem preço e por isso deve ser pública. Pois, não existem recursos financeiros que possam oferecerum ensino de qualidade. Então, a melhor escola é aquela oferecida ao público de forma gratuita (melhor, proveniente dos impostos), cujo ensino seja laico e pautada na ciência. 

Ainda tentam justificar os lucros de qualquer modo. Dizem eles: "nada no mundo funciona sem lucro, sem lucro estamos fadados a bancarrota e sem lucro não há empresa". Tudo se resolve apenas atravês do capitalismo. Será? Há um enorme equívoco nisso tudo, já sabe-se que o capitalismo não resolveu o problema da desigualdade social e econômica,ao contrário, gerou um abismo ainda maior entre ricos e pobres. No momento, em que escrevo tais palavras, não apareceu nenhum outro sistema que viesse de fato a substituí-lo. Outros modelos como socialsmo e suas variadas matizes apresentaram sua derroccada, transformando-se em regimes totalitários e ditatoriais. Não resolvendo a questão da pobreza. Todavia, os ideários do regime capitalista nem de perto foi capaz de debelar as grandes diferenças sociais e econômicas, cada vez mais gritantes. Talvez, a volta de uma social-democracia; onde o Estado junto a iniciativa privada; possa mitigar tais problemas. Não há como fugir, o pensamento neoliberal instaurou-se em quase todo planeta decretando qualquer possibilidade de um Estado de bem-estar social. O neoliberalismo apresentou-se na contemporaneidade com uma força descomunal e suas premissas pairam sobre as mentes fazendo-nos crer na capacidade da remuneração variável, meritocracia, onde todos nós nos tornamos empreendedores, capitalistas, mesmo trabalhadores. Criou-se avisão míope de que todos possuem as mesmas chances, pura ilusão daqueles que não enxergam o capitalismo. Sejamos claro e objetivo: o trabalhador vende para o capitalista sua força de trabalho, em troca de um salário. Na outra ponta, tem-se o dono dos meio de produção. Este detêm parte do capital e do lucro (mas-valia em cima do trabalhador). Na atualidade do capital cognitivo o discurso faz-se em torno da meritocracia para corroborar a desigualdade social e econômica. A meritocracia esconde-se num discurso que busca antigir objetivos e metas de vida, fazendo transparecer que todos gazam da mesmas opostunidades. Está exposta a grande mentira que inventaram. Uma falácia proposta pelos donos dos meios de produção  para justificar as desigualdades vigentes. 

Dentro dessa perspectiva meritocrática fala-se em justiça, porém com um certo viés de que deve-se tratar as pessoas de forma desigual, ao passo que a injustiça teria que tratá-las de maneira igual. A princípio fica aquela ar estranho, um tanto confuso. Mas a intenção está justamente em gerar caos e confusão. Diríamos numa tentativa de despolitizar a sociedade. Trata-se do mais puro senso-comum e assim subverter conceitos. A ideia correta pauta-se na equidade, ou seja, reconhecer que todos deve ser respeitados em suas diferenças. A justiça tem função niveladora em que todos são iguais perante a lei e sem qualquer distinção. Até aí tudo certo. No entanto, a equidade vem oferecer equilíbrio no entorno das diferenças. Mais uma vez tentam deturpar os conceitos, e o fazem por meio de frases de efeito. Tais frases são jogadas ao vento, podem parecer inofensivas e não deletérias. Mas, existe por trás disso tudo um objetivo, que é ganhar a atenção e a mente das pessoas. Quando se coloca uma frase como: "o que produz dinheiro é conhecimento, pessoas mais educadas são mais produtivas". Percebe-se uma confusão conceitual proposital daquilo que é realmente o conhecimento, a produção, o dinheiro e a educação. Para começar, o conhecimento não tem o objetivo de produzir dinheiro, e nem de perto as pessoas mais educadas são as mais produtivas. O papel da educação está no aprendizado, na cultura e na aquisição de conhecimento, e não na produção de dinheiro. O conhecimento serve de instrumento para que possamos compreender nosso mundo, realizar ações en torno de nossa comunidade. O conhecimeto tem valor quando coletivo para beneficiar a ciência, a cultura e transformar a sociedade. A relação dinheiro-conhecimento é bastante superficial e não explica a profundidade do aprender. Vemos o quanto frases feitas ou soltas ao vento não nos permitem aprofundar na diversidade do pensamento. Por isso, a leitura crítica, o pensar consciente e descontruir ideias são práticas politizadoras e nos fazem caminhar por trilhas estreitas que jamais consideramos atravessar. O filosófo Plutarco numa era remota disse a seguinte frase: "O descanso é doce tempero do trabalho". Enfim, o contexto da frase nos dias atuais nem de longe tem o mesmo valor. Assim como, os símbolos, totens e objetos de outras eras podem assumir nos dias hoje outro signiifcado. Portanto, o perigo de frases soltas, sem contexto não gera qualquer conhecimento ou aprendizado e muito menos oferece sabedoria. São apenas palavras ditas sem profundidade e qualquer interpretação torna-se enganosa. Uma frase só adquire valor intríseco num contexto dentro de paragráfos ou numa obra lida. 

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