sábado, 10 de janeiro de 2026

Do papel ao asfalto: A tinta que mancha e o sangue que escorre.

 

O fenômeno da violência não é um fato isolado, mas uma construção narrativa que atravessa séculos e oceanos. Ao aproximarmos as obras "A Tinta e o Sangue", do historiador francês Dominique Kalifa, e "Cabeça de Porco", de Celso Athayde e MV Bill, emerge um paralelo perturbador: como o crime, ao ser mediado pela tinta dos jornais ou pelas lentes dos documentários, molda o imaginário coletivo e define quem é o "inimigo público" da vez.



No texto anterior, exploramos essa correlação espaço-temporal entre a Paris da Belle Époque e o Rio de Janeiro contemporâneo. Aqui daremos continuidade a essa questão da volência e da criminalidade por se tratar de uma assunto real e atemporal, que aflige o mundo. 

Portanto, a correlação espaço-temporal entre a Paris da Belle Époque e o Rio de Janeiro contemporâneo estabelece-se na maneira como o desenvolvimento urbano e a modernização das metrópoles geraram "territórios de exclusão" que a mídia passou a monitorar e estigmatizar. Enquanto a Paris do final do século XIX passava pelas reformas de Haussmann, que empurravam a pobreza para os subúrbios e submundos (bas-fonds), o Rio de Janeiro do século XXI consolida a favela como esse espaço limiar, muitas vezes invisível ao Estado, exceto pela via repressiva. Em ambos os contextos, o tempo histórico parece se repetir no que diz respeito à gestão do medo: a distância cronológica de um século é anulada pela permanência de uma estrutura social que necessita de um "lugar do perigo" para reafirmar a ordem e o progresso das áreas centrais e nobres.

Sob a perspectiva temporal, as obras de Kalifa e de Athayde/Bill mostram que a construção do imaginário da violência é um processo contínuo que migra da página impressa para a tela digital. Na Paris de 1900, a "tinta" dos jornais de massa, como o Le Petit Journal, criava um cronômetro de pânico cotidiano através dos crimes relatados, moldando a percepção de tempo da população como uma era de insegurança iminente. De forma análoga, no Rio de Janeiro contemporâneo, a velocidade das notícias e o impacto visual do documentário e das redes sociais em Cabeça de Porco atualizam essa sensação de cerco. O "espaço" deixa de ser apenas geográfico e torna-se um campo de batalha narrativo, onde a mídia dita o ritmo da percepção pública, transformando o jovem periférico de hoje no herdeiro direto do estigma que outrora pertenceu aos marginalizados da Paris finissecular (Uma virada de século carregada de tensões sociais, inovações tecnológicas e uma nova forma de consumir notícias sobre violência).

A Espetacularização do Medo: Da Paris de 1900 ao Rio de 2000

Dominique Kalifa analisa como a imprensa parisiense do final do século XIX transformou os faits divers (notícias de crimes cotidianos) em um combustível para o consumo de massa. A violência deixava de ser um evento privado para se tornar um produto cultural.

No Brasil, "Cabeça de Porco" (2005) surge em um cenário onde a televisão e o jornalismo policial já haviam consolidado o "espetáculo da violência". Enquanto Kalifa foca na "tinta" que ensanguenta o papel, Athayde e Bill mostram o "sangue" que escorre no asfalto carioca, muitas vezes higienizado ou distorcido pela narrativa hegemônica para justificar políticas de exclusão.

O quadro comparativo, abaixo, estabelece uma ponte entre dois contextos que, embora distantes no tempo e no espaço, operam sob uma mesma lógica de controle social através da informação. No primeiro eixo, a Paris da Belle Époque e o Rio de Janeiro contemporâneo são apresentados como palcos de uma modernização excludente: enquanto a reforma de Haussmann empurrava as "classes perigosas" para as margens parisienses, a urbanização brasileira consolidou a favela como o território da exceção. A mídia, em ambos os casos, atua como o arquiteto desse abismo, utilizando o fait divers (o crime banal) em Paris ou o jornalismo policial de massa no Brasil para rotular esses espaços como zonas de guerra, transformando o medo em um produto de alto consumo e eficácia política.

No segundo eixo, a análise foca na construção da identidade do criminoso como uma ameaça civilizatória. A transição da figura do "Apache" para a do "Falcão" revela uma estratégia midiática de desumanização: o jovem é despido de sua subjetividade e revestido de uma estética do perigo — seja pelas gírias e tatuagens dos submundos franceses ou pelo fuzil e o rádio comunicador nas favelas cariocas. A diferença fundamental apontada pelo quadro é a origem do discurso. Enquanto a obra de Kalifa analisa como a tinta dos jornais silenciava o acusado para criar um mito literário-policial, Cabeça de Porco rompe essa tradição ao dar voz direta aos protagonistas, transformando o "objeto" de estudo em "sujeito" que narra sua própria realidade e denuncia o viés estigmatizante das câmeras

Quadro Comparativo Histórico-Midiático

Aspecto

A Tinta e o Sangue (Paris, séc. XIX/XX)

Cabeça de Porco (Rio de Janeiro, séc. XXI)

O Cenário

A Paris em modernização (Haussmann) e seus submundos (bas-fonds).

As favelas brasileiras e o asfalto em conflito permanente.

O Protagonista

O criminoso "fantástico", o Apache ou o anarquista terrorista.

O jovem de periferia, invisível até se tornar o "falcão" do tráfico.

Papel da Mídia

Criar um imaginário de insegurança para vender jornais.

Estigmatizar territórios e reforçar o racismo estrutural.

A "Invisibilidade"

O crime torna visível a classe perigosa sob uma ótica burguesa.

O livro tenta dar voz ao "invisível" para romper o estereótipo midiático.

A Construção do Inimigo: O "Apache" e o "Bandido"

Kalifa descreve a obsessão da mídia francesa com os "Apaches" — gangues de jovens delinquentes que aterrorizavam Paris. A imprensa da época construiu uma identidade visual e comportamental para esses jovens, transformando-os em uma ameaça civilizatória.

Em "Cabeça de Porco", vemos o reflexo moderno dessa construção. MV Bill e Celso Athayde denunciam como o jovem negro da periferia é o alvo prioritário da "lente" social. A mídia não apenas relata a violência, mas cria um perfil de suspeição que precede o crime. A diferença fundamental é que, enquanto em Paris a mídia era o agente externo, em "Cabeça de Porco", os autores usam o próprio suporte mediático (livro e documentário) para retomar a narrativa, passando de objeto de estudo a sujeitos do discurso.

Apaches e Falcões: A Personificação do "Perigo Público"

A correlação mais fascinante entre as obras de Dominique Kalifa e a de Celso Athayde e MV Bill reside na criação de figuras místicas que personificam o crime urbano. Embora separados por um século, o Apache e o Falcão ocupam o mesmo lugar no imaginário social: o de uma juventude desviante que desafia o Estado.

O Apache: O "Selvagem" da Metrópole

Em A Tinta e o Sangue, Kalifa descreve como a imprensa francesa rotulou gangues de jovens como "Apaches". O nome não era acidental; buscava traçar um paralelo com os povos indígenas da América do Norte, pintando esses jovens como "selvagens" infiltrados no coração da civilização europeia. O Apache era caracterizado por:

  • Estilo próprio: Roupas específicas, gírias e tatuagens que a mídia expunha para tornar o criminoso "reconhecível".
  • Territorialidade: Dominavam os bairros periféricos de Paris, criando zonas de exclusão que a burguesia temia atravessar.

O Falcão: O "Vigia" da Exclusão

Em Cabeça de Porco, o "Falcão" é o jovem que vigia a favela para o tráfico, mas, sob a lente de Athayde e Bill, ele deixa de ser apenas um dado estatístico para se tornar um sintoma. Enquanto a mídia brasileira trata o Falcão como um exército inimigo a ser abatido, o livro humaniza essa figura, revelando:

  •  A lógica de sobrevivência: O "voo" do falcão é limitado pela falta de oportunidades, transformando o crime na única carreira disponível.
  • A espetacularização do fuzil: Assim como a faca do Apache aterrorizava a Paris de 1900, o fuzil nas mãos do Falcão é a imagem exaustivamente repetida nos telejornais para justificar o estado de exceção nas periferias.

A Lente que Distorce

A relação é simétrica: a "tinta" da Belle Époque criou o Apache para vender jornais e exigir repressão policial, enquanto o "sangue" relatado em Cabeça de Porco é frequentemente usado pelo jornalismo sensacionalista brasileiro para ratificar o medo e manter o status quo. Em ambos os casos, a mídia não apenas noticia; ela estigmatiza, fixando no jovem pobre a imagem definitiva do medo social.

O Crime como Espelho Social

A correlação entre Kalifa e a dupla brasileira revela que a violência é um subproduto da desigualdade urbana e da gestão do medo. Se em Paris a "tinta" da imprensa ajudou a consolidar a ordem burguesa, no Brasil contemporâneo, a obra de Athayde e Bill atua como um contra-discurso, expondo as entranhas de um sistema que produz o crime para depois espetacularizá-lo.

Ambas as obras confirmam: a história da criminalidade é, antes de tudo, uma história das representações que fazemos dela.

Para aprofundar essa conexão, vamos inserir no próximo texto fatos que focam especificamente nessa construção social desses dois personagens: o Apache parisiense e o Falcão brasileiro, e assim demonstrar como a mídia utiliza arquétipos semelhantes em épocas diferentes.

KALIFA, Dominique. A tinta e o sangue: narrativas sobre crimes e sociedade na Belle Époque. Tradução de Luiz Antônio Oliveira de Araújo. São Paulo: Editora da Unesp, 2019. 519 p.

SOARES, Luiz Eduardo; MV BILL; ATHAYDE, Celso. Cabeça de porco. Rio de Janeiro: Objetiva, 2005. 295 p.

 


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