sábado, 3 de janeiro de 2026

A tinta, o sangue e a favela: uma viagem histórica pela anatomia do crime


A violência, a criminalidade, a corrupção são mercadorias de nossa sociedade, que se fixou muito bem no modelo capitalista e ganhou enorme projeção nos meios de comunicação. Pois, nessa era contemporânea o desejo da juventude de estar na moda, de consumir o tênis de marca, o celular mais tecnológico, roupas finas, relógios e joias caras e o carro de luxo atiça  o desejo do jovem e com a meninada da periferia não é diferente. Está tudo ali nas mídias - o tempo todo: compre, consuma, seja único e descolado. Uma sociedade mercadorizada, cujo ser humano também transformou-se em mercadoria. Todos esses excessos mexem com a cabeça do menino pobre das comunidades. Pois, ele também que ser parte desse circo capitalista, nem que para isso recorra aos metódos mais vis e perigosos e junto aos cruéis requintes de violência. Hoje, no Brasil, o tráfico de drogas tornou-se  ocaminho mais próximo dessa ilusão propogada pelos meio de comunicação. O tráfico de drogas como um meio de vida para alcançar tais desejos. Soma-se a isso o falso poder das armas, que na própria fala das meninas é uma forma de consquistar os garotos. Esse vai ser o mote do livro Cabeça de porco, um relato a respeito desse Brasil do século XXI apresentado pelo autores Luiz Eduardo Soares, MV Bill e Celso Athayde. Pois, o ano é 2005, o crime e a violência mostra-se latente nas vielas sujas dos morros das grandes cidades, junto a corrupção policial, tráfico de drogas e armas, milícias. Onde o medo, a frustração e o sentimento de impotência são impostos aos seus habitantes. Cabeça de porco trás à público justamente esse conjunto de relatos e entrevistas fornecendo um pequeno panorama do cotidiano  desses meninos e meninas que convivem diariamente com a criminalidade. Acrescenta-se a tudo isso as condições sociais e econômicas de um país totalmente desigual. A falta de condições mínimas de saúde, o desemprego, a baixa escolaridade, a necessidade de trabahar na infância para obter o sustento da família, a moradia precária e a miséria é a realidade em grande parte do país. Portanto, impera a desestrutura familiar, o vício nas drogas, o alcoolismo dos pais que adentram essas moradias precárias e assim afetam diretamente as crianças e jovens das comunidades carentes. Adiciona-se a estes fatores a violência cometida pelos pais e parentes junto a truculência do aparelho estatal na figura da polícia, que utiliza-se da força bruta contra a população que vivem nesses locais. Para ampliar esse preconceito contra o povo mais pobre,na sua maioria pretos e pobres, mulheres - mães solo, homossexuais a mídia, através da TV, rádios e Internet realizam o trabalho de quarto poder, ou seja, julga e condena as ações e fatos ocorridos nestas comunidades. A mídia estampa fortemente os fatos, em busca de audiência, muitas vezes apenas nas presunções e opiniões. Basta vermos os noticiários apresentados nos programas policiais de TV. Verdadeiros banho de sangue e que em nada ajuda nas investigações - ao contrário - criam mais desconfiança e problemas. Fazem apenas sensacionalismo e terror. Agora, se voltarmos no tempo - precisamente na França do fim do século XIX e início do século XX, teremos da mesma forma um padrão semelhante. Nessa época, a criminalidade e a violência em parte da Europa era visível e tornava-se comum. As cidades europeias estavam deixandopara trás o modelo bucólico, uma sociedade agrária e adentrando o mundo moderno do capitalismo industrial. As capitais de certos países europeus como: Londres, Paris, Roma, Berlim destacavam-se pela urbanização. As indústrias deram lugar ao trabalho camponês. O comércio e serviços floresciam e com eles vieram todo tipo de pessosas. Dessa forma, dava-se lugar a criminalidade e todo tipo de violencia. Aumento nos números de roubos e futos, assassinatos, estupros, invasão de domicílios, brigas de bares e ruas, feminicídios e crimes de golpes, além da atuação de guangues de ruas. Assim como no século XXI - especificamente no Brasil - tivemos o crescimento assustador da violência. A Europa teve seu surto de criminalidade. Se a mídia dos nossos tempos soube tirar vantagem desses ocorridos, não foi diferente na Europa do final do século XIX e início do século XX. Por meio dos jornais, além do cinema que se introduzira não apenas como canal de diversão e lazer, mas também como veículo de comunicação e informação - bem, jornalistas, repórteres e cineastas estavam atentos aos fatos criminais deste tempo. Cotidianamente os principais jornais da época traziam os famosos fait-divers (fatos diversos) do crime: assassinatos, homicídios, estupros e outros eram relatados detalhadamente nesses jornais. Digamos - era tinta e sangue se misturando numa composição perigosa, porém lucrativa para os meios de comunicação. Domenique Kalifa soube muito bem traduzir estes fatos em sua obra: A tinta e o sangue. Com isso, podemos pensar que a violência indiferentemente do tempo e do espaço tem lugar garantido na leitura, ou melhor na visão da sociedade. Os gêneros literários que abordam crimes e atos de violência tornam-se campeões de audiência entre as pessoas, sendo facilmente vendável e lucrativo. Por outro lado, as críticas feitas à justiça e a polícia não são poupadas e às vezes bastante severas por parte das midias na resolução de casos violentos e que geram comoção nacional em qualquer parte do planeta. Somos obrigados a concordar que a violência queira ou não possui forte ligação com as mazelas sociais e econõmicas. Pois, fato comprovado tanto na obra "Cabeça de porco" (em que os jovens são submetidos ao tráfico de drogas e armas) quanto no livro "A tinta e o sangue de Domenique Kalifa (cujos jovens desescolarizados, vindos de uma pobreza extrema cometem crimes bárbaros). Em ambas as obras, a midia protagonizam os casos, destacam os infratores (bandidos) e expoêm as vítimas  num espetáculo de horrores. Sempre aplaudida por uma plateia sedenta, não por justiça, mas que valotiza o consumo. A desgraça alheia vende, e vende muito bem. Seja um homem ou uma mulher do século XXI  consumidores de redes sociais, vídeos em plataformas da internet, ou então aquele senhor do início do século XX que compra um jornal impresso para ver as ilustrações de um crime cometido por um jovem rapaz - um apache. Há neles um certo fetiche pela mercadoria violência. De Abel e Caim  no antigo testamento da bíblia ao lendário Jack Estripador na Inglaterra e por fim passando aos cárteis de drogas na Ámerica do sul as práticas criminosas e a violência extrema foram quase sempre temas  recorrentes e destaque na sociedade. Objeto de estudos acadêmicos, preocupação por parte do Estado - apesar da letargia e omissão de governos, e destaque midiático a criminalidade gera aos mesmo tempo fascinío e medo na população. Sentimentos contraditórios que ampliam-se cada vez mais por causa de sintomas mal resolvidos pela inércia do Estado somada pela exploração do capital agora dominados em parte por grupos criminosos e organizados que se aproveitam da fragilidade da sociedade. Foi assim nos passado com as gangues novaiorquinas; a máfia italiana; os cárteis de drogas nas cidades colombianas e hoje o tráfico de drogas nos morros cariocas. O custo da violência é alto demais, e que paga é a  população, seja através altos impostos, ou com o sacríficio própria vida. Ninguém sai ileso desta guerra. 

KALIFA, Domenique. A tinta e o sangue: narrtaivas sobre crime e sociedade na Belle èpoque. Tradução de: Luiz Oliveira de Aráujo. São Paulo: UNESP, 2019. 517p. 

SOARES, Luiz Eduardo; MV BILL;  ATHAYDE, Celso. Cabeça de Porco. Rio de Janeiro: Objetiva, 2005. 295 p.

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