sábado, 20 de dezembro de 2025

Pensamentos filosóficos: a vida social, os costumes e o sistema econômico de Mandeville, Russell e Osho.

 

Na pretensão de finalizarmos os estudos sobre os nossos autores, colocaremos neste último texto algumas considerações relevantes que irão pontuar melhor o nosso entendimento a respeito dos fatos históricos próprios de cada época. Além de permitir que façamos certas elucubrações filosóficas relacionadas aos modos de vida, os costumes e sistemas da qual viveram estes pensadores. Pois, os três autores -  Bernard Mandeville, Bertrand Russell e Osho - apresentam visões radicais e profundamente críticas sobre os modos de vida, costumes, sistemas econômicos e a vida social de suas respectivas épocas. O caminho convergente entre eles reside na defesa da liberação do indivíduo das restrições e hipocrisias impostas pela moralidade convencional e pelas estruturas sociais coercitivas, embora cada um chegue a essa conclusão por vias distintas. Para Mandeville (século XVIII), a vida social pauta-se pelo vício, cujo modo de vida e os costumes estão imbricados na dicotomia realidade versus aparência.  Mandeville sustenta que os costumes e a moralidade pública são uma fachada hipócrita. A vida privada é, inevitavelmente, dominada por paixões egoístas e vícios (luxúria, orgulho, inveja). Trata-se para o autor de uma virtude fictícia, ou seja, a virtude é vista como uma invenção política para controlar o comportamento e tornar o homem "dócil e útil", contrariando sua natureza. Os costumes sociais são, portanto, um conjunto de regras que buscam canalizar o egoísmo de forma socialmente aceitável. Já o sistema econômico é impulsionado pelo famoso paradoxo: "vícios privados, benefícios públicos." A busca individual por luxo e satisfação pessoal (os vícios) gera consumo, emprego, comércio e, em última análise, a prosperidade nacional. Portanto, o papel da sociedade nada mais é que um agregado de indivíduos buscando maximizar o próprio interesse. O bom funcionamento social depende da gestão astuta dos vícios, não da sua erradicação. O egoísmo é o motor natural e eficiente do sistema. Por outro lado, na visão de Russell (século XX), a vida social estende-se pela posse e pelo medo, daí sua crítica à moralidade e aos costumes que na verdade sufocam os impulsos criativos em favor dos impulsos de posse. A sociedade capitalista industrial do seu tempo valoriza a acumulação, a competição e o controle. A vida social e a política internacional são dominadas pelo medo, pela possessividade (desejo de propriedade, território, domínio) e pelo orgulho nacionalista, que são a raiz da guerra. Por isso, nos aspectos econômicos e sociais Russell busca defender vigorosamente a vida criativa (produção de beleza, conhecimento, amor) em detrimento da vida de posse (acumulação, competição). Assim, valoriza o trabalho construtivo e a cooperação, como o sindicalismo, em oposição ao capitalismo belicoso. Logo, a ameaça do Estado se faz presente nas indagações do autor. Dado que o Estado frequentemente está aliado ao nacionalismo e ao militarismo, impõe costumes e leis que reforçam a dominação e minam a liberdade individual e de pensamento, culminando na guerra. Sendo Osho um homem do nosso tempo, que despontou no pós-guerra fria, as suas postulações sobre os costumes sociais, a moralidade e a religião são entendidas como manifestações dotadas de um profundo medo da dúvida e da insegurança existencial. O modo de vida do homem comum é uma fuga constante da liberdade para a segurança da crença e do grupo. O homem social é um ser domesticado, reprimido pela moralidade externa (seja religiosa ou ideológica), o que o torna infeliz e incapaz de alcançar a plenitude. Quanto a vida social, os sistemas econômicos e políticos são construídos sobre ideologias rígidas (crenças) que dividem a humanidade em facções e geram fanatismo. O capitalismo pós-industrial é visto como um sistema que estimula o consumismo e a alienação, reforçando a busca externa (posse) em vez da transformação interna. Para Osho única forma de mudar a sociedade é através da revolução individual, onde o ser humano se liberta da necessidade de crença, abraça a dúvida e a meditação para atingir a consciência plena.

Dentro dessa perspectiva do pensamento econômico, cada um dos três autores tece suas próprias análises e conclusões. Isso abre um certo precedente para que possamos avaliar qual narrativa melhor nos cabe.  Talvez, Mandeville como o arauto do pensamento liberal econômico. Na obra - A Fábula das Abelhas (1714/1729) – Mandeville é frequentemente citado como um precursor seminal do liberalismo econômico clássico, notavelmente o de Adam Smith. Sua defesa paradoxal de que "Vícios Privados" geram "Benefícios Públicos" subverteu a moralidade tradicional e abriu caminho para a aceitação do auto-interesse como motor da prosperidade. A principal contribuição de Mandeville reside na legitimação do egoísmo e do auto-interesse como forças econômicas benéficas, o que viria a ser o alicerce teórico do capitalismo. Diante disso, temos:

·         A legitimação do auto interesse: Mandeville argumenta que a busca individual por luxo, conforto e prazeres pessoais (os "vícios") estimula o consumo. Este consumo, por sua vez, gera demanda por bens e serviços, impulsionando a produção, o comércio e a inovação. O dinheiro circula, e a nação se torna rica e poderosa. Exemplo: A vaidade de querer roupas caras (luxo/vício) sustenta tecelões, alfaiates, mercadores, e assim por diante.

·         A negação da virtude estática: ao demonstrar que uma sociedade de abelhas que se torna subitamente "virtuosa" (sem luxo, sem egoísmo) inevitavelmente empobrece e declina, ele ataca a noção de que a moderação e a abnegação moral são economicamente desejáveis. Ele sugere que a moralidade rígida é, na verdade, um obstáculo ao desenvolvimento econômico.

·         O mercado como força autônoma (implícita): embora Mandeville não tenha articulado a teoria da "mão invisível" como Adam Smith faria posteriormente, sua obra implica que a economia funciona melhor quando os indivíduos são livres para perseguir seus próprios fins (mesmo que moralmente duvidosos), e não quando são rigidamente controlados pela moralidade ou pelo Estado.

Embora Mandeville tenha fornecido a justificação para a liberdade de ação econômica, Russell e Osho, operando em contextos de capitalismo industrial e pós-industrial, criticam as consequências éticas e sociais da filosofia do auto-interesse irrestrito. Bem, a crítica de Bertrand Russell coloca-se nas consequências sociais e bélicas. Assim, ele concorda que o auto-interesse é um motor poderoso, mas ele distingue entre o que é criativo e o que é possessivo. A partir daí se faz as seguintes considerações:

·         O vício da posse: para Russell, o problema do capitalismo mandevilleano não é o auto-interesse em si, mas a sua manifestação como possessividade (o impulso de posse). A busca incessante por acumular propriedade, riqueza e poder — que Mandeville legitimou como "vício benéfico" — é, para Russell, a causa principal da guerra, do imperialismo e da miséria social no século XX.

·      Rejeição a utilidade dos vícios: Russell rejeita a ideia de que o vício (aqui, a possessividade) é útil. O capitalismo, ao basear-se na competição irrestrita e na possessividade, gera um ambiente de medo e insegurança que leva à violência internacional (guerra).

·         A Busca pelo criativo: a crítica de Russell é um apelo para transcender o mero auto-interesse possessivo (o vício mandevilleano) e focar nos impulsos criativos (ciência, arte, amor, conhecimento), que são construtivos e não competitivos, levando a um sistema social mais pacífico.

Por fim, as consequências existenciais e psicológicas colocadas por Osho permite criticar a sociedade capitalista pós-industrial por criar um ser humano profundamente infeliz e alienado. A análise de Osho imbrica em:

·         A armadilha do desejo externo: o vício e o luxo, que Mandeville via como benefícios econômicos, são, para Osho, meras distrações externas que impedem o indivíduo de confrontar sua própria consciência. A sociedade capitalista, ao legitimar a busca incessante por consumo, mantém o indivíduo em um estado de alienação e dependência de objetos externos.

·         O vício da crença: a busca por riqueza material é vista como análoga à busca por crenças rígidas: ambos são tentativas de preencher um vazio interior com algo externo. O foco no "vício" econômico cria um ciclo de insatisfação que Osho busca quebrar através da transformação interior.

·         Rejeição ao materialismo utilitário: Osho rejeita a métrica de Mandeville (prosperidade nacional como objetivo máximo). A prosperidade material que vem do vício não compensa a perda da liberdade interior e do despertar da consciência.

Conclusão

Mandeville desmantelou a moralidade tradicional para justificar o nascimento do sistema capitalista com base no auto-interesse. Russell e Osho, vivendo sob as consequências desse sistema, criticaram os resultados: Russell focou na destruição social e na guerra causada pela possessividade, enquanto Osho focou na destruição existencial e na alienação causada pela incessante busca por satisfação material.

MANDEVILLE, Bernard. A fábula das abelhas: ou vícios privados, benefícios públicos. São Paulo: Editora Unesp, 2017. 412 p.

OSHO. Crença, dúvida e fanatismo: é essencial ter algo em que acreditar? São Paulo: Planeta, 2015. 254 p.

RUSSELL, Bertrand. Por que os homens vão à guerra. São Paulo: Editora Unesp, 2014. 219 p. 

sábado, 13 de dezembro de 2025

Críticas às estratégias de dominação: análise em três épocas


Se naquele primeiro momento do texto anterior apresentamos os pontos convergentes entre os pensamentos de nossos três autores. Aqui iremos considerar os rumos distintos de cada um deles nos aspectos da economia e sociedade, da política, da religião, dos modos de vida e dos costumes. Tais distinções surgem na avaliação que cada um faz da natureza e da finalidade desses impulsos não-racionais, refletindo seus respectivos contextos históricos.  No que tange a economia e a sociedade precisamos observar o contexto histórico em que estes autores viveram. Daí podemos traçar a realidade de cada época. A perspectiva econômica e social de Mandeville jaz num contexto do século XVIII, cujos princípios estão sobrepostos na defesa implícita do laissez-faire antes de Adam Smith, e um momento da legitimação do luxo da nação hegemônica. Nesse caminho, Mandeville nos apresenta a ideia dos vícios como molas da prosperidade. Pois assim o luxo e o egoísmo são inevitáveis e cruciais para a riqueza nacional na Inglaterra pré-capitalista em ascensão. A moralidade tradicional é um elemento totalmente estéril. Ainda em Mandeville o aspecto da moralidade pública e a religião são, em parte, invenções de governantes e filósofos para domesticar o egoísmo, tornando-o socialmente útil e garantindo a ordem. Sendo a moralidade uma ferramenta ideológica utilizada pelos governos. Para Russell, que reside nas primeiras décadas do século XX em plena primeira guerra mundial, sua crítica pauta-se no imperialismo e no capitalismo industrial que motiva a guerra por recursos e mercados.  Portanto, a ênfase deste autor recaí no criativo versus o possesivo. Ou seja, a obsessão pela posse (propriedade, território) leva à guerra. Defende a autodeterminação e o engajamento coletivo (sindicalismo) para equilibrar o indivíduo e o Estado. A religião (e as Igrejas) na visão de Russell frequentemente é cooptada pelo nacionalismo para justificar a guerra, atuando como um impulso a mais para a beligerância. Defende a liberdade de pensamento e o pacifismo. O capitalismo pós-industrial dotado de crítica ao consumismo, à rigidez ideológica da guerra fria e às estruturas de poder organizadas em torno da crença torna-se o contexto ideal para que Osho possa colocar o dedo sobre a ferida. Por isso, sua análise crítica radical paira sobre o sistema de crença, onde o fanatismo impulsionado pela carência psicológica é a base de sistemas religiosos, políticos e econômicos coercitivos. Em sua visão, o foco está na transformação individual para além da crença. Osho pensa a religião estruturada como prisão, assim como a política ideológica, sendo sistemas de crença que sufocam a dúvida pura (que leva ao conhecimento) e criam o fanatismo, que é a raiz do ódio e da guerra. Busca a consciência individual. Resumidamente podemos dizer que Mandeville enxerga esses impulsos (vícios) como o motor indispensável da prosperidade da nação ascendente (otimismo utilitarista). Já Russell e Osho veem a exploração desses mesmos impulsos (possessividade, necessidade de crença) como a causa das maiores tragédias e limitações da humanidade (pessimismo ético-existencial). Portanto o ponto de distinção final é a solução: Mandeville aceita o vício como motor; Russell propõe a promoção de impulsos criativos e uma política mais justa; Osho clama por uma transformação radical da consciência individual (dúvida pura) que transcenda a necessidade de crença em primeiro lugar. Com a finalidade de compreender melhor as estratégias de poder para criar ambientes de dominação contra a sociedade, estes autores tecem críticas ácidas à religião - um instrumento de controle e dominação social.  Sendo um  ponto de convergência notável, embora com matizes distintas, nas obras de Bernard Mandeville, Bertrand Russell e Osho. Cada autor, em seu respectivo contexto histórico (séculos XVIII, XX e pós-Guerra Fria), desvela como a fé estruturada serve aos propósitos do poder político, social e até mesmo psicológico.

1. Mandeville (século XVIII): a religião como artifício político para a ordem

Na Inglaterra pré-capitalista do século XVIII, Mandeville, em A Fábula das Abelhas, não ataca a fé em si, mas questiona o papel da moralidade e da virtude (frequentemente impostas pela religião) na sociedade.

  • Dominação pela Virtude Artificial: Para Mandeville, a religião institucionalizada, juntamente com a filosofia moral, funciona como um artifício político criado por "governantes hábeis" para moldar o comportamento humano. O objetivo não é a salvação da alma, mas sim a pacificação social e o controle dos vícios privados que, em excesso, poderiam desestabilizar o Estado.
  • Controle do Egoísmo: a religião domina ao sugerir que o egoísmo desenfreado é pecaminoso, impondo o conceito de sacrifício e moderação. Isso permite que o Estado canalize os impulsos egoístas (vícios) da população de formas que são, paradoxalmente, economicamente produtivas (o luxo gera comércio), enquanto mantém a ordem pública pela promessa de recompensas ou medo de punições divinas.
  • Característica da Época: a crítica de Mandeville é cínica e utilitarista, refletindo o nascimento do liberalismo. A religião é vista como uma ferramenta pragmática de engenharia social para a manutenção da Pax Britannica e a ascensão econômica da nação.
  • Dominação pela Obediência e Justificação: Russell argumenta que as Igrejas e a moralidade religiosa são frequentemente cooptadas pelo nacionalismo para justificar a guerra. A religião não só prega a obediência cega (a Deus e, por extensão, ao Estado), mas também fornece uma sanção moral e divina para a violência. Ela transforma o assassinato em "sacrifício patriótico" e o ódio ao inimigo em uma "cruzada".
  • Supressão da Dúvida: ao exigir crença inabalável e lealdade a dogmas, a religião mina o impulso criativo e o juízo racional individual, que Russell considera essenciais para a paz. A dominação ocorre ao impor uma mentalidade de rebanho, onde a crítica é vista como heresia ou traição.
  • Característica da Época: a crítica de Russell é pacifista e humanista, focada na destruição causada pela união do poder religioso e do poder de Estado (militarismo). Ele critica especificamente como o clero de todas as nações beligerantes abençoava suas respectivas tropas, evidenciando a instrumentalização da fé para fins políticos e de guerra.
  • Dominação pela Necessidade de Crença: Para Osho, a religião domina ao capitalizar a insegurança fundamental do indivíduo diante da vida e da morte. O ser humano não suporta a dúvida pura (o estado de não-saber) e, por isso, busca refúgio em sistemas prontos de crença (dogmas, ideologias).
  • Criação do Fanatismo e da Exclusão: Este sistema de crença estabelece uma dicotomia "nós contra eles" (crentes vs. infiéis), gerando o fanatismo. A dominação se manifesta na coerção social e na violência moral imposta pelo grupo ao indivíduo que ousa duvidar. O indivíduo domina a si mesmo ao aceitar uma resposta fácil em vez da jornada incerta da consciência.
  • Característica da Época: A crítica de Osho é radical e anti-institucional. Ele critica a rigidez ideológica tanto da religião quanto da política de seu tempo (capitalismo vs. comunismo). Para ele, toda crença estruturada (seja religiosa ou ideológica) é um mecanismo de dominação que impede a liberdade interior e a iluminação.

2. Russell (século XX): a religião a serviço do nacionalismo e da guerra

Russell, escrevendo em 1915, no auge da Primeira Guerra Mundial (capitalismo industrial, nacionalismo exacerbado), concentra-se em como a religião apoia a ideologia bélica. Em Por que os Homens Vão à Guerra, ele vê a dominação religiosa fundindo-se com a dominação estatal, que tem como consequência supressão da razão e Justificação da Guerra, ou seja, a violência estatal e a obediência cega.

3. Osho (pós-guerra fria): a religião como fuga psicológica e raiz do fanatismo

Osho, atuando no capitalismo pós-industrial (pós-1968, Guerra Fria), aprofunda a crítica ao nível psicológico e existencial. Em Crença, Dúvida e Fanatismo, a dominação não é apenas política, mas reside na própria estrutura da crença humana. Criação do Fanatismo e da Infelicidade Interior são consequêcias da dominação religiosa, que capitaliza a aversão humana à dúvida e à insegurança.

Em suma, Mandeville vê a dominação religiosa como um mal necessário e útil para a prosperidade da nação. Russell a vê como uma força perigosa a serviço do militarismo e da guerra. Osho a vê como uma prisão psicológica e existencial que impede a realização do potencial humano. Os três concordam que, longe de ser apenas uma questão de fé individual, a religião é um poderoso mecanismo de poder e controle social.

MANDEVILLE, Bernard. A fábula das abelhas: ou vícios privados, benefícios públicos. São Paulo: Editora Unesp, 2017. 412 p.

OSHO. Crença, dúvida e fanatismo: é essencial ter algo em que acreditar? São Paulo: Planeta, 2015. 254 p.

RUSSELL, Bertrand. Por que os homens vão à guerra. São Paulo: Editora Unesp, 2014. 219 p. 


sábado, 6 de dezembro de 2025

Introdução ao Pensamento Filosófico de Mandeville, Russell e Osho: uma estrada convergente

   

Meus caros leitores, há alguns cuidados importantes que precisamos ter ao falar da evolução humana e sua relação intrínseca com os aspectos históricos e filosóficos que permeiam sociedade através dos séculos. Questões relevantes a respeito do comportamento econômico, social, político e até mesmo religioso são elementos determinantes de cada época; têm os seus próprios modos e especificidades. No entanto, apresentam um certo ciclo que acabam sendo um tanto semelhantes. Talvez, está fala ficou um tanto confusa, assim melhor explico: o passar dos séculos em algum momento se aproximam, sejam nos costumes e na moda, nas inovações, no avanço científico, no pensamento filosófico. Por exemplo, um método científico do século XII pode muito bem ser revisado e novamente adotado num tempo futuro por algum cientista que acredita que naquele momento seja a solução para um problema atual. Da mesma forma ocorre nas correntes filosóficas, nos dogmas de alguma religião, na economia política. O ser humano possui essa força interna de preservar as construções de seus antepassados, de criar vínculos entre passado e presente. Por isso, somos capazes de guardar, arquivar e preservar informações e conhecimentos em diferentes meios (pedras, papiros, pergaminhos, papéis, eletrônicos e outros). É justamente diante dessa pequena introdução que iremos transcorrer em nosso percurso filosófico. Nele vamos desbravar o pensamento de três grandes autores que viveram em épocas distintas, porém guardam certa convergência em seus ideais. Aqui, nós ingressamos nas mais profundas reflexões dos séculos XVIII e do século XX (em seu início e final).    Assim  o pensamento de Bernard Mandeville (Século XVIII), Bertrand Russell (Século XX) e Osho (Pós-Guerra Fria) oferece um panorama fascinante das mudanças na filosofia ocidental e oriental, abrangendo a moralidade, a razão, a política e a busca pelo sentido da vida. Embora separados por séculos e contextos culturais distintos, esses autores convergem na crítica mordaz às fundações hipócritas e coercitivas da sociedade estabelecida, desafiando a moralidade convencional e a racionalidade pura como motores da vida humana. Mandeville aponta o Cinismo Utilitário (Século XVIII), sendo ele um Filósofo, médico e satírico inglês; uma figura chave do Iluminismo Primitivo. Sua obra central, A Fábula das Abelhas: Ou Vícios Privados, Benefícios Públicos, é uma crítica radical à ética cristã e aos moralistas de sua época. Seu pensamento é profundamente cínico e utilitário, defendendo que a verdadeira prosperidade de uma nação (a grandeza, o comércio, o poder) é inseparável e dependente dos vícios privados dos indivíduos - o egoísmo, o luxo, o orgulho e a vaidade. Mandeville desmantela a noção de que a virtude e a moderação são o caminho para o sucesso coletivo, estabelecendo o auto-interesse como o motor inegável da economia, lançando assim as bases conceituais para o liberalismo econômico que surgiria plenamente com Adam Smith. Já Russell discorre sobre o racionalismo ético e o pacifismo (Início do século XX, 1ª guerra mundial). Como Matemático, lógico e filósofo, ele surge como uma das vozes mais influentes do racionalismo e do empirismo. Seu trabalho filosófico abrange desde a lógica formal até a filosofia política e social. Em obras como Por Que os Homens Vão à Guerra, Russell aplica o rigor da razão para analisar os impulsos irracionais que governam a política e a sociedade, identificando a possessividade (o impulso de posse) e o medo como as causas primárias do conflito global (guerra, nacionalismo, imperialismo). O pensamento de Russell é marcado pela defesa incansável da liberdade de pensamento, do pacifismo e de uma sociedade baseada na ciência e na razão, onde os impulsos destrutivos sejam substituídos pelos impulsos criativos e construtivos. Talvez uma das mais controversa figura de nossos tempos, porém brilhante em suas assertivas -  Osho (Pós-Guerra Fria) -  nos propõem uma revolução da consciência. Como místico e guru indiano cuja filosofia se desenvolveu na era pós-industrial. Sua abordagem é radicalmente anti-institucional e existencial. Em sua obra: Crença, Dúvida e Fanatismo, ele ataca todas as formas de crença organizada (religiosa, política, social) como mecanismos de dominação que oprimem a consciência individual. Para ele, o maior obstáculo para a realização humana não é o vício econômico ou a guerra, mas sim a necessidade psicológica de ter certeza, que gera o fanatismo e a infelicidade. O seu pensamento trata-se de um apelo à transformação interna, à meditação e à adoção da dúvida pura como o único caminho para a liberdade e a verdade. Apesar das diferenças temporais, esses três pensadores oferecem uma crítica tripartite à ordem social. Mandeville ataca a hipocrisia moral em nome da prosperidade; Russell critica o irracionalismo da posse em nome da paz; e Osho critica a tirania da crença em nome da consciência. Juntos, eles convidam à reflexão sobre o que realmente impulsiona a sociedade, se são as virtudes esperadas, as paixões camufladas ou a necessidade existencial de fugir da dúvida. Ao traçarmos um paralelo entre as obras desses eminentes autores revelam-se caminhos um tanto convergentes, mas também as distinções são bastante notáveis. Entre os aspectos análogos, observa-se uma severa crítica ao racionalismo e aos impulsos humanos. Na visão deles o comportamento humano, seja ele virtuoso, beligerante ou fanático, é impulsionado por forças que não são puramente racionais, mas sim por paixões, impulsos e necessidades psicológicas profundas. Mandeville - nas paixões e nos vícios - finca seus alicerces na tese de que os vícios privados (egoísmo, luxúria, orgulho) geram o benefício público (prosperidade econômica). O impulso do auto-interesse e das paixões é a mola propulsora da economia e da sociedade, e não a virtude moral. Nesta mesma estrada Russell - impulsos e posse -  traz o argumento de que a guerra é alimentada mais por impulsos irracionais e instintos, como a possessividade (desejos que giram em torno da posse) e o desejo de domínio, do que pela razão. Com isso, sugere que a política e a vida privada devem promover o que é criativo e diminuir os impulsos de posse. Na visão de Osho a crença  e a necessidade psicológica se cruzam fortemente. Dessa forma, Indentifica-se a crença (o consequente fanatismo) como uma manifestação da necessidade psicológica humana de ter algo em que acreditar e fazer parte de um grupo, fugindo da dúvida e da insegurança. Esta necessidade profunda está na raiz das forças religiosas, políticas e sociais que levam ao conflito. Portanto, em todos eles, a razão ou a virtude tradicional é insuficiente ou até mesmo um obstáculo para a realidade do desenvolvimento social ou para a paz e a liberdade individual. Enfim,  o que os aproximam está no reconhecimento de que as grandes forças que moldam o destino humano – prosperidade, guerra e fanatismo – não emanam da virtude racional ou do propósito consciente, mas de um substrato passional e psicológico profundo. Mesmo perante as divergências históricas  e propósitos (vício, guerra, crença), o principal eixo entre Mandeville, Russell e Osho reside na necessidade de desmascarar as fundações hipócritas e limitantes da vida social e moral estabelecida para liberar o indivíduo. Portanto, a verdadeira saúde da sociedade e a liberdade individual não residem na moralidade e nos costumes impostos, mas sim na aceitação ou superação de uma força motriz subjacente, seja ela o vício, a posse ou a crença.

  

MANDEVILLE, Bernard. A fábula das abelhas: ou vícios privados, benefícios públicos. São Paulo: Editora Unesp, 2017. 412 p.

OSHO. Crença, dúvida e fanatismo: é essencial ter algo em que acreditar? São Paulo: Planeta, 2015. 254 p.

RUSSELL, Bertrand. Por que os homens vão à guerra. São Paulo: Editora Unesp, 2014. 219 p.


Natureza

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