terça-feira, 24 de dezembro de 2024

O homem de Dostoiévski - uma narrativa sobre a alma

Dostoiévski como nenhum outro autor de seu tempo conseguiu descrever tão bem o que viria a ser o homem moderno. Tanto que suas obras serviram para referendar e fundar o que seria mais tarde a psicanálise. Base pare os pensamentos freudianos, lacanianos e para filosofia existencialista do século XX. Dostoiévski abriu precedentes em sua literatura para as ditas doenças da alma, em seu texto a psique humana (a alma e a aura do homem está de certa forma exposta) torna-se por completo desnudada. Esse homem descrito pelo autor transita pelo subterranêno, pelo submundo e individualiza-se ao extremo, locupleta-se com toda mesquinhez que lhe for possível. Particularmente, na obra memórias do subsolo, o personagem não tem se quer nome (é inominavel) no sentido de representar todo e qualquer homem (mortal) em sua singularidade. Ao mesmo tempo, um ser sem nome, sem rosto dotado apenas de memórias não tão agradáveis - pelo contrário - em sua maioria terríveis, solitárias. Um ser invisibilizado, tal como um fantasma que assombra apenas a si prórprio.. Personagem este que vive nu estado de quase mséria, e não só a miséria econômica e social, mas sim principalmente uma miserabilidade humana - talvez da alma. Há nele a mais completa falta de controle de sua própia vida, segue apenas o derradeiro fluxo do existir.  Esse pobre homem dostoiévskiano acometido por uma febre renitente e contínua, cuja causa não perpassa pelo seu corpo e sim atravessa sua alma. Consequência direta de um ressentimento e ódio  pretérito e indomável que o atormenta e o leva a arroubos de histéria e melancolia. Fator que o incapacita de conviver harmoniosamente e na plenitude de uma vida comum. De outro lado, tal personagem demonstra em sua narrativa uma incapacidade de compreender a si mesmo. A sua própria presença lhe é insustentável. Ele não suporta a si mesmo. Dessa forma, esconde-se em uma máscara e isso o aflige. Já não é mais capaz de amar, sendo o amor uma grande farsa. Assim acredita. Os amigos, não são amigos de ninguém e servem apenas para compar a trama. Então, prefere ele ser humilhado, espizinhado e jogado a lata de lixo para ver se lhe resta algum traço de humano. Nesse homem não há virtudes ou qualidade que o qualifique de ser honrado. Julga-se o mais abjeto e repugnante entre os homens normais. Jamais deixará qualquer descendência, para que o mal não possa proliferar. Sequer busca a rendenção ou qualquer outra providência divina para se redimir. Pois, sabe que sua alma não o pertence e seu corpo está entregue às desventuras, às angústias e os desvarios do mundo. O homem de Dostoiévski é um ser urbano, cujo cenário desenha-se na cidade fria e sombria e dos odores fétidos das ruas. Nela (a cidade) a solidão é elemento característico do indivíduo e propício para o adoecimento da alma, que se espalha como vírus e o transforma de maneira irreconhecível. O cénário da narrativa do homem dostoiévskiano não permite cores, apenas o acinzentado, e o branco e preto de um filme noir. Ambiente ideal para que o personagem sem nome mostre suas pervesões. Porém, não uma pervesão autêntica e digna de vilões sanguinários e cruéis existentes nos filmes de terror. E sim, uma pervesão pueril, infantilizada de crianças que brincam no playground, que beira ao jocoso e ao ridículo. Talvez, o típico comportamento do sujeito centrado no "eu" egóico: que a todo momento persiste em torno si e é incapaz de se revelar ao outro por puro medo. Pobre homem de Dostoiévski, jamais saberá a respeito da simplicidade da vida, do amor e do convivío coletivo. Nunca conhecerá a verdade, por estar preso em sua desilusão  Justamente essa maldita desilusão que consome o seu espírito e o torna um ser repleto de ressentimento e ódio. Com isso, a sua psiquê (sua alma) vai sendo cada vez mais consumida pelo atmosfera nociva dessa cidade subaterrânea. Então, esse homem torna-se apenas mais uma peça invisível sufocado pelos os próprios delírios. Quase a beira da loucura e a eterna solidão. Não há salvação para o homem moderno, pois ele mesmo se julga o mais patético, abjeto e mesquinho dos seres. De resto, um completo doente, mas rejeita qualquer tratamento. Ah!!! esse maldito medo de perder a sua essência.  

terça-feira, 10 de dezembro de 2024

Psicanálise e política: raizes da indiferença e do conflito do mundo conectado

Ressentimento, discurso de ódio, guerra de narrativas, fake news são elementos próprios de nossa contemporaneidade. Estamos numa era em que o sofrimento estrutura-se no âmbito da linguagem, em que buscamos interpretar e codificar as nossas vivências de maneira teatralizada e histriônica. Digo que nossos gestos, ações e até o sofrimento são hiperbólicos, dotados de exageros. Nada diferente de uma criança de quatro ou cinco anos que faz birra para conseguir a atenção dos pais. Essa espetacularização do indivíduo torna-se mais latente com as novas tecnologias, pois as redes sociais e as mídias amplificam o show histriônico. E aquele que mais se destacam em suas bizzarices são os eleitos, os escolhidos e assim subirem ao pódio. Todos querem abrir suas entranhas e colocar para fora as vísceras de seu sofrimento. Onde o sofrer do Eu é o sofrimento do Outro. Mas na atualidade não é bem assim, sendo que estamos num momento cujo individualismo é o imperativo, Já o Outro é invisível pela indiferença. Com isso vive-se a angústia e o medo dos nossos tempos, em grande parte inexplicáveis. Deixamos de lado o mínimo convívio para geramos ambientes hostis que se voltam contra nós mesmos. Neste mundo bélico estamos sempre prontos para os confrontos e vence a batalha aquele que mais berram aos quatro ventos suas desventuras. Mergulhamos num fundo poço e não há saída, os mais variados medos nos fragilizam. Medo da morte, da traição se agravam com a modernidade e o neoliberalismo. Não há para onde correr ou se esconder. Temos a falsa impressão de que somos violados em todos os sentidos, seja física, mental ou moralmente. O medo floresce o sentimento do òdio. Se temos medo o ódio brota. Em grande parte não o ódio pelo Outro e sim pela situação, pelo sofrimento. No entanto, esse ódio pode nascer dos excessos ou mesmo advir da falta, deum mal estar, um sofrimento guardado a sete chaves que rompe com o real e passa a criar turbilhão calcado no imaginário. No mesmo caminho atravessa o ressentimento, parente próximo do ódio. O ressentido trata-se de um indivíduo que na maior parte de sua vida encontra-se isolado, porém com as tecnologias não está separado dos seus iguais. O mundo das mercadorias -  característico do capitalismo financeiro - pautado no binômio produção e consumo será o mote gerador da recusa do Outro. Talvez podemos afrmar que o modelo capitalista seja essa máquina propulsora do ressentimento e do ódio, principalmente nessa versão neoliberal. E junto as tecnologias e os seus excessos originam isolamento. Daí o motivo das redes sociais substituir o real. As consequências de tal isolamento estremecem as relações intímas, que deixam de existir. Há então um maior apreço pelos ideários conservadores nos costumes. Perde-se os entrelaçamentos com os outros e tudo torna-se mais superficial. Então, os laços de amizade e familiares deixam de ser um refugio. Todo esse sentimento de ódio e ressentimento não nasceu do nada, do vazio. Possivelmente, fruto do processo civilizatório e do avanço marginal do capitalismo que junto aos Estados e muito de suas políticas segregatórias promoveram enormes diferenças sociais e econômicas. A política de maneira geral tem como função a unidade do discurso, do coletivo. A partir do momento que ela torna-se uma força discriminatória e exlusiva de poucos perde-se a razão de sua existência. Um jardim proprício para o florescimento dos sentimentos de ódio. Cabe nos dizer que as raízes da indiferença também perpetua-se na forma como as políticas geralmente são administradas. Resolver os conflitos entre as questões políticas e os egos feridos por ela estão cada vez mais distantes. Talvez a psicanálise possa oferecer um alguma instrumentalização para compreender esses conflitos.  A psicanálise, tradicionalmente associada à compreensão da subjetividade individual, oferece uma lente poderosa para analisar os complexos desafios da sociedade contemporânea. Ao investigar os processos inconscientes que moldam nossos pensamentos, sentimentos e comportamentos, a psicanálise nos ajuda a desvendar as raízes psicológicas de problemas sociais profundos, como desigualdades de gênero, racismo e homofobia.  As desigualdades de gênero, racismo e homofobia não são fenômenos isolados, mas se entrelaçam de forma complexa, criando sistemas de opressão interconectados e sujeitos aos desafetos. A psicanálise nos ajuda a compreender como esses sistemas operam no nível individual e coletivo, afetando a autoestima, as relações sociais e a saúde mental.  Ao investigar os processos inconscientes que moldam nossos pensamentos, sentimentos e comportamentos, a psicanálise nos permite compreender as raízes psicológicas das desigualdades e discriminações, além de oferecer insights sobre como promover a mudança social. No entanto, é fundamental utilizar a psicanálise como uma ferramenta complementar a outras abordagens, reconhecendo as complexidades dos fenômenos sociais e os desafios da mudança social.

Natureza

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