Uma análise histórica e sociológica rigorosa revela que o avanço autocrático raramente se sustenta apenas com promessas de eficiência econômica ou segurança. A engenharia do poder absoluto necessita, de forma orgânica, da eleição de bodes expiatórios. É por essa razão que as estruturas autocráticas historicamente se alimentam — e amplificam — preconceitos estruturais profundos: o preconceito racial, a misoginia, a xenofobia e a homofobia. Esses vetores de ódio não são subprodutos acidentais do regime, mas sim peças fundamentais de sua sustentação política. Ao dividir a sociedade civil entre o "nós" (o grupo virtuoso que apoia o regime) e o "eles" (os elementos rotulados como desviantes, perigosos ou inferiores), o autocrata aniquila a possibilidade de uma solidariedade coletiva que pudesse fazer frente à sua tirania. Nessa dinâmica, o preconceito racial e a xenofobia funcionam como ferramentas de purismo nacionalista. O "estrangeiro" (o imigrante) e as minorias étnicas locais são retratadas pela máquina de propaganda como parasitas econômicos ou ameaças à identidade cultural e à segurança interna, justificando políticas de segregação, encarceramento em massa e desumanização legal. Paralelamente, a misoginia manifesta-se no esforço estatal de controlar os corpos femininos e restaurar uma ordem patriarcal arcaica. Para a autocracia, o feminismo e a emancipação das mulheres são lidos como ameaças à "família tradicional", célula que o regime deseja submissa e funcional para a reprodução de seus valores. Sob a mesma lógica, a homofobia (e a transfobia) é institucionalizada. A população LGBTI+ é frequentemente pintada pela retórica autocrática como o ápice da "decadência moral" do Ocidente ou das democracias liberais. Ao criminalizar essas identidades e proibir a sua expressão pública sob o manto da proteção à infância ou à moralidade, o poder autocrático oferece às massas frustradas um alvo seguro para canalizar sua raiva, convertendo o preconceito em uma ferramenta barata e altamente eficaz de coesão social autoritária.
Espelhos
da realidade: literatura, cinema e teoria
A
simbiose entre as ferramentas de opressão autocrática, a sofisticação
tecnológica das Big Techs e a exploração deliberada dos preconceitos
estruturais não passou despercebida pelos grandes observadores da condição
humana. É na intersecção entre a sensibilidade artística e o rigor analítico
que encontramos os alertas mais profundos sobre os caminhos que a sociedade
trilha quando abdica de sua autonomia jurídica e psicológica. Ao traduzirem o
horror abstrato da tirania em narrativas palpáveis, a literatura, o cinema e a
teoria política funcionam como espelhos retrovisores e projetores do futuro,
revelando que os mecanismos contemporâneos de captura mental e exclusão de
minorias já haviam sido mapeados por mentes que decifraram a anatomia do poder
absoluto muito antes da criação do primeiro algoritmo. Na literatura e no
cinema temos exemplos claros dessa relação, tais como: o livro, e depois o
filme “1984”, em que George Orwell criou a figura do Ministério
da Verdade, o órgão de propaganda responsável por reescrever a história e
disseminar mentiras institucionalizadas. Ou “O Conto da Aia”, em
que Margaret Atwood demonstra de forma crua como a misoginia extrema e a
homofobia de Estado são institucionalizadas para justificar um golpe teocrático
e a escravização das mulheres. No campo teórico, Hannah Arendt na obra - “As
Origens do Totalitarismo” - disseca como o racismo científico e a
propaganda foram os instrumentos indispensáveis para arregimentar as massas
isoladas e integrá-las ao movimento destrutivo do nazi-fascismo. Outro exemplo
é o filme alemão “A Onda” (2008) que ilustra a facilidade com que dinâmicas ditatoriais e o uso de
slogans, símbolos e propaganda de grupo podem seduzir indivíduos e criar
exclusão social violenta em pouco tempo. Já o clássico “Fahrenheit 451”
(1966) mostra um Estado autocrático que queima livros para substituir o
pensamento crítico por uma propaganda alienante. No campo documental, “O
Dilema das Redes (2020)” expõe
a versão digital dessa engrenagem que potencializa discursos de ódio.
A
Vigilância Democrática na Era do Algoritmo
A trajetória da autocracia, desde os despotismos da Antiguidade até as democracias sitiadas do século XXI, revela que o autoritarismo não é uma anomalia histórica do passado, mas uma sombra permanente que caminha ao lado da liberdade humana. As dinâmicas modernas de poder demonstraram que os tanques e as baionetas foram sutilmente substituídos por curtidas, compartilhamentos e uma engenharia de dados invisível que coloniza as mentes antes mesmo de subjugar os corpos. Ao instrumentalizar o preconceito racial, a misoginia, a xenofobia e a homofobia, as novas autocracias e as máquinas de propaganda das Big Techs encontraram uma fórmula altamente lucrativa e politicamente devastadora: transformar a angústia existencial do indivíduo em um ódio tribal coordenado. Diante desse cenário, a preservação da democracia exige muito mais do que a realização periódica de rituais eleitorais. Requer uma alfabetização digital crítica e a coragem política de regulamentar as forças transnacionais que hoje controlam o fluxo da verdade factual. Se a tecnologia digital descentralizou a informação, ela também automatizou o monólogo do Leviatã, tornando urgente a reconstrução de espaços públicos baseados na alteridade e no diálogo real. A ficção e a história nos alertam que o colapso das liberdades começa quando o silêncio e a apatia se tornam confortáveis. Portanto, o antídoto contra a sedução do discurso autocrático reside na recusa coletiva em aceitar a desumanização do outro como preço pela segurança. Romper o espelho partido da autocracia contemporânea significa resgatar a empatia como ferramenta política e blindar as instituições democráticas contra os engenheiros do ressentimento. Afinal, como a história exaustivamente nos ensina, a liberdade nunca é um território conquistado em definitivo, mas uma prática diária que exige vigilância constante contra os tiranos de plantão — estejam eles nos palácios de governo ou por trás das telas de nossos dispositivos.
Referências
Bibliográficas
ARENDT, Hannah. As Origens do Totalitarismo.
São Paulo: Companhia das Letras, 2012.
ATWOOD, Margaret. O Conto da Aia. Rio de
Janeiro: Rocco, 2006.
FAHRENHEIT 451. Direção: François Truffaut. Reino
Unido: Universal Pictures, 1966. Filme ficcional (112 min).
HOBBES, Thomas. Leviatã ou Matéria, Forma e
Poder de um Estado Eclesiástico e Civil. São Paulo: Martins Fontes, 2003.
O DILEMA das Redes (The Social Dilemma). Direção:
Jeff Orlowski. Estados Unidos: Netflix, 2020. Documentário (94 min).
A ONDA (Die Welle). Direção: Dennis Gansel.
Alemanha: Constantin Film, 2008. Filme ficcional (107 min).
ORWELL, George. 1984. São Paulo: Companhia
das Letras, 2009.