A discussão sobre a moralidade pública, o
comportamento individual e o papel regulador do Estado ganhou contornos
dramáticos na contemporaneidade. Em uma era hiperconectada, marcada pelo
consumo desenfreado, pela ascensão do capitalismo digital e por crises
geopolíticas globais, a antiga questão sobre se as instituições governamentais
devem moldar a virtude dos cidadãos ou apenas gerenciar suas falhas tornou-se
urgente. Fenômenos modernos como as redes sociais, estruturadas sob a vaidade e
o desejo de aprovação, e o mercado financeiro, movido pela ambição, demonstram
que as engrenagens econômicas e sociais do século XXI ainda dependem
profundamente de impulsos egoístas. Analisar como diferentes correntes
filosóficas enxergam essa dinâmica — seja como combustível para o progresso,
como ameaça à sobrevivência coletiva ou como um mecanismo de opressão
psicológica — permite compreender os limites e as responsabilidades do poder
estatal na gestão do comportamento humano contemporâneo.
Nesse cenário, as ideias de Bernard Mandeville,
formuladas ainda no século XVIII, apresentam uma visão eminentemente pragmática
e utilitarista, defendendo que o Estado deve atuar como um engenheiro social
cujo papel é gerenciar, e não erradicar, os vícios para garantir a prosperidade
nacional. Para o autor, o egoísmo inerente aos indivíduos funciona como a
matéria-prima do benefício coletivo, de modo que o vício privado pode ser
estrategicamente transformado em virtude pública. Em termos práticos,
Mandeville sugere uma função estatal baseada na canalização e na legislação
indireta. A primeira impede a imposição de uma virtude rígida e prefere
incentivar o consumo de luxo, a vaidade e o orgulho pelas suas consequências
econômicas positivas na criação de empregos e na circulação de riquezas.
Paralelamente, a legislação serve para estabelecer leis eficazes que garantam a
segurança e a ordem, mantendo o auto-interesse dentro de limites que evitem a
desintegração social. Desse modo, os políticos hábeis utilizam as normas e a
moralidade como ferramentas para domesticar o lado destrutivo do egoísmo e
priorizar o poder material do país, agindo sobre as paixões humanas em vez de
tentar modificar a natureza do homem.
Em contrapartida a essa abordagem pragmática,
Bertrand Russell oferece, no século XX, uma perspectiva focada na contenção
desses mesmos impulsos, enxergando o Estado como um mediador essencial para a
preservação da paz. Escrevendo em um período de guerras globais, Russell
formula uma crítica direta à gestão proposta por Mandeville, pois argumenta que
a busca possessiva por riqueza e domínio — celebrada no modelo mandevilleano —
constitui a raiz da competição imperialista e dos conflitos armados. Portanto,
em vez de estimular o consumo e o acúmulo material, o Estado ideal concebido
por Russell deve promover a vida criativa por meio da ciência, da arte e da
educação, alterando as estruturas sociais e econômicas para que o auto-interesse
seja canalizado em formas cooperativas. Adicionalmente, para neutralizar a
manifestação máxima desse vício da possessividade em escala coletiva, o
filósofo defende a necessidade de um governo internacional capaz de controlar o
poder dos Estados-nação, redirecionando o papel das instituições governamentais
da mera busca por opulência para a gestão ativa da paz mundial.
Avançando para uma crítica ainda mais radical, o
místico Osho rompe com ambas as tradições ao adotar uma visão profundamente
negativa do Estado e da sociedade organizada, classificando-os como sistemas
puramente coercitivos. Enquanto Mandeville busca instrumentalizar o vício e
Russell tenta contê-lo por vias institucionais, Osho rejeita terminantemente a
premissa de que o aparato estatal possa gerenciar qualquer impulso para o bem,
visto que a política, a religião e o Estado formam uma engrenagem conjunta de
dominação e repressão. Na ótica do capitalismo pós-industrial sob a qual sua
filosofia se insere, o Estado atua reprimindo a dúvida e impondo ideologias que
fixam o indivíduo em uma mentalidade de rebanho e no fanatismo, perpetuando o
vício real da humanidade, que é a inconsciência. Por conseguinte, a verdadeira
prosperidade e a liberdade não decorrem de intervenções políticas, mas sim da
ausência do Estado como força impositiva e da consequente transformação
existencial de cada pessoa, que deve abandonar toda crença externa para
alcançar a emancipação.
O paralelo analítico entre os três pensadores
revela um profundo dissenso sobre o propósito e a legitimidade do gerenciamento
governamental. Mandeville aborda o vício como uma força inevitável da natureza
que o Estado precisa domar e utilizar em prol do crescimento econômico. Em uma
posição intermediária quanto à necessidade de controle, Russell reconhece o
vício como um perigo social iminente que exige a intervenção de um superestado
ou de uma estrutura coletiva forte para evitar a autodestruição humana através
da violência. Por fim, Osho subverte essa lógica ao demonstrar que o vício é
apenas o sintoma de uma cegueira espiritual interna que o próprio indivíduo
deve resolver por conta própria, tornando qualquer tentativa de tutela estatal
um obstáculo ao amadurecimento humano. Assim, enquanto os dois primeiros
autores debatem as melhores técnicas de governança coletiva, o terceiro desloca
o eixo do debate para a autonomia absoluta do sujeito.
Em conclusão, o embate conceitual entre a utilidade
econômica de Mandeville, o pacifismo estrutural de Russell e o anarquismo
espiritual de Osho escancara as contradições intrínsecas ao desenho do Estado
contemporâneo. Diante de uma realidade em que a engrenagem econômica global
valida a premissa mandevilleana ao prosperar sobre a vaidade mercantilizada e o
consumo supérfluo, as consequências colaterais desse modelo — como as
desigualdades extremas e a degradação ambiental — resgatam a advertência
urgente de Russell sobre a necessidade de limitar a possessividade material em
prol da sobrevivência coletiva. No entanto, a crescente burocratização da vida
moderna e a vigilância digital também dão razão aos temores de Osho,
evidenciando que o controle institucional frequentemente sufoca a subjetividade
e padroniza o pensamento. Diante disso, a reflexão crítica indica que a
superação desse impasse não reside na aceitação cega do egoísmo como motor do
progresso, nem no autoritarismo estatal disfarçado de virtude, mas sim no
desenvolvimento de uma consciência ética individual capaz de transformar a
busca por riqueza em responsabilidade social e criatividade compartilhada.
MANDEVILLE,
Bernard. A fábula das abelhas: ou vícios privados, benefícios públicos. São
Paulo: Editora Unesp, 2017. 412 p.
OSHO.
Crença, dúvida e fanatismo: é essencial ter algo em que acreditar? São Paulo:
Planeta, 2015. 254 p.
RUSSELL,
Bertrand. Por que os homens vão à guerra. São Paulo: Editora Unesp, 2014. 219
p.
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