domingo, 26 de abril de 2026

Desmistificando o pensamento torto do conservadorsimo neoliberal

A formação do caráter brasileiro perpassa por um conservadorismo tacanho que nasceu dos confins das regiões auríferas de Minas Gerais e estendeu-se às localidades produtoras de açucar no século XVIII. Essa maldição da família patriarcal ainda perdura nas mentes e lares brasileiros, sobretudo na classe média e nas elites. Contudo, ainda faz-se presente nas camadas mais pobres. Portanto, não vencemos ainda essas tais diferenças de gênero.Pelo contrário, mesmo com toda legislação o assunto parece ter se agravado. Certas literaturas tortas contribuem de sobremaneira para que a situação mantenha-se plenamente atual. Isso - claro - negativamente. Lembro-me de ter observado tais crenças e juízos de valor em um livro um tanto desconexo da realidade daquilo buscamos como sociedade. Porém, tais ideias pululam em parte do universo masculino e com alguma anuência das mulheres. Há alguns trechos dessa "obra" um  certo ar de machismo evidente por parte do autor, ao dizer que: "tem esposas que já ganham o que omarido ganha. O marido, que não é ciumento fica muito satisfeito". Visão típica de um conservadorismo mesquinho, em que a mulher se submete ao homem, como se fosse algo surpreendente as esposas ganaharem mais que os seus maridos. Pois, falta aqui o autor libertar-se dessas amarras conservadoras. No entanto, prefere ele afundar-se num modelo familiar patriarcal, próprio de um homem branco, rico e bastante comum  da região sul do Brasil.  Porém, não é só o machismo que apoderá-se dos impulsos mentais do autor. Os enganos dissonantes em relação a educação permeiam todo o livro e faz dele um obra dispensável, talvez uma inutilidade literária, principalmente ao parafrasear a citação de Lester Thurow (um desses guru de autoajuda) cuja frase: "Se educarmos um homem, teremos um homem educado. Se educarmos uma mulher, teremos uma família educada". Logo, esse trecho complementa a frase anterior, ao corroborar a visão conservadora e machista da dita família tradicional e patriarcal, onde podemos inferir o papel da mulher como submissa e do lar, apenas na função de educar os filhos e manter a ordem do lar. Um sentido bastante peculiar do capitalismo do século passado. Na esteira educacional, o autor comete imperdoáveis deslizes conceituais. Para ele a universidade - hoje - se resume a ter um celular e assistir aula de algum guru na tela. Aqui, o conceito guarda-se num limite raso e simplório de educação. Propaga-se a máxima de que a universidade presencial, estruturada destina-se apenas aos mais ricos, cabendo ao filho do trabalhador um ensino superior de má qualidade, a distância, e pior - através de plataformas via celular. Temos que entender que a univesidade deve ser pública e agregar todas as classes sociais, como um direito inalienável para qualquer cidadão. Pois, a univesidade pública tem que ser presencial, onde o ensino remoto seja apenas complemento. A verdadeira aprendizagem realiza-se na relação professor/aluno em sala de aula e com os colegas para que a nasça a crítica, a discussão e saber fazer. Então,deve-se quebrar esse preconceito de que a universidade foi criada somente para atender as classes mais abastadas. Se o jovem deseja ser médico, sua classe social jamais deveria ser um impeditivo. A medicina não se aprende em lives ou videoaulas, pois requer um corpo de mestres e doutores ali presentes cotidianamente para atender os alunos. Essa coisa de guru e influenciador demonstra o mais completo desconhecimento da realidade. Ainda no tortuoso caminho da educação, o autor comete mais enganos ao expressar sobre a universidade corporativa colocando-a como centro de treinamento para a vida real e acrescenta ele: "É uma filosofia de educação, onde os cursos são em cima de problemas reais". Tal afirmação está na busca de saída para os incontornáveis problemas educacionais, que jamais deveria repousar-se na superficialidade das estruturas privadas. em primeiro lugar, A universidade corporativa como centro de treinamento teria aqui sinônimo de uma formação única e excluisvamente para atender pontualmente as necessidades da empresa. Daí questionamos onde ficaria a visão crítica, o debate de ideias, o universo dos penamentos e o metódo científico. Então, universidade corporativa parece ser uma denominação errônea criada para justificar que as empresas estão de fato preocupadas com a educação? Trata-se de um assunto a se pensar, dado que as empresas buscam lucros. como já dissemos anteriormente, conhecimento não visa lucro e dinheiro - mas sim - resolver problemas e apresentar soluções factíveis, que até em certa medida poderia ser utilizada como justificativa para a lucratividade. Mas não é o objetivo central. Por isso, a saída paira sobre a superfcialidade que afirmamos momentos antes. Quando o autor tece infundadas críticas ao modelo tradicional de ensino, e assim diz: "A escola tradicional não acompanha as tendências de mercado e não supre tais carências, mais uma vez mostra desconhecer a realidade sob seus pés. Sabemos que essa não é a função da escola tradicional, o papel dela está na formação ampla, genérica, pautada numa cultura laica e plural. Um ensino transversal. A escola pública jamis deveria está a mercê de um ensino industrialista e servir aos interesses do capital. Todavia, o autor não admite uam postura crítica do capitalismo e nem nesmo o debate de ideias, muito menos pontos de vista contrastantes e opiniões diversas. Tão necessários à polarização de discursos. Na mentalidade um tanto equivocada apressa-se em reafirmar a invenção da guerra intelectual. Para desmitificar tal afirmação a respeito precisamos demonstrar que tal guerra intelectual que tanto se fala é um engodo. Bem, o modo de pensar são múltiplos, é não unívoco - como quer o autor. Sabemos que o intelectual é dotado por um pensar sistêmico e crítico. Portanto, guerra intelectual - sim - faz-se necessária para a construção do saber e requer olhares tanto divergentes, quanto convergentes para que possa trilhar numa esfera democrática. Diante disso, afirmamos que nenhuma guerra instelectual está m curso. O que há são debates,opiniões e discussões científicas e filosóficas no âmbito da universidade pública, algo que nenhum centro de treinamento poderá oferecer. Observamos até aqui um espetáculo de contradições postuladas por ideologias de cunho neoliberal e inversões de pensamentos. Nesse ritmo tenebroso o autor intercambia negativamente seus valores a respeito do feminino e da pauta educacional. Primeiro, o ensino jamais poderá ser projeto, dado ao seu caráter perene e constante. Quanto a sala de aula, é o ambiente de aprendizado e sempre será. É insubstituível, por ser espaço de trocas de conhecimento, debates e pensamento crítico. É na sala de aula que aluno, professor e colegas constroem o saber. Consequentemente, considerar a sala de aula como local menor de apenas tira-dúvidas, é não entender minimamente a função da escola e o papel da educação no mundo. em hipótese alguma, o ensino deve ser visto como projeto mercadológico, mas sim como política pública trilhada no longo prazo. Perante o ensino corporativo creditado nas palavras do autor, abre certo precendente para que ele possa corroborar que os talentos são profissionais independentes e tenham alto grau de empregabilidade, movendo-se numa velocidade tão grande quanto seu talento. Palavras do autor, não nossa Já estamos fartos de saber que a realidade mostra-se bem diferente. O que mais se vê são pessoas  talentosas e criativas nas filas de desempergados, a espera de uma oportunidade de trabalho e pagar as suas contas. Milhares de jovens capacitados, talentosos e criativos desperdiçados por falta de uma oportunidade. Alguns em trabalhos muito aquém de sua capacidade intelectual. Sejamos sinceros, a verdade é que o capitalismo criou uma massa de pessoas que estão cotidianamente em busca de uma recolocação no mercado de trabalho, no entanto não conseguem - não por falta de talento - mas o próprio sistema as impede. Na tentativa de justificar o sistema capitalista como modelo ideal para a transição em uam sociedade tecnológica e versada no conhcimento o autor procura argumentar sobre os meios de produção e alega que os donos desses meios serão aqueles que possuem o conhecimento, e que donos de terras , patrimônio e capital é coisa do passado. Ele por ser industrial, ou vive uma contradição, ou soa no mínmo como desonestidade intelectual. Mas vamos lá, por que a coisa não é bem assim, para começar os bens tangíveis ainda concentra-se nas mãos de uns poucos, famílias que ainda estão no poder e herdaram fortunas. Quiça, o que tenha mudado é a migração de capital físico e tangível para o mercado financeiro. O s novos donos do meios de produção são, ainda, em grande parte as velhas elites. A ideia é que o dinheiro passou a produzir dinheiro (equação de Marx elevada ao extremo, onde dinheiro gera dinheiro: D-D), ou seja, o capitalismo financeiro. As empresas tornará-se  S/A, comandadas pelos  CEOs (geralmente acionisas majortiários ou eleitos pelo Conselhos de Administração). Mas as velhas oligarquias continum no rentismo e lucrando milhões e milhões com dividendos e juros. Por isso, atribuir morte a era industrial, como faz o autor, consiste numa interpretação duvidosa. Ocorre que a indústria mudou seu foco e prioridades, passando para uma indústria pautada no financeiro, e cujo o produto (mercadoria) não tem mais aquele valor intrínseco. A indústria embrenhou-se na produção de papéis (títulos, derivativos, ações debêntures e créditos). Dado que não há mais a figura do dono (proprietário), enfim, são todos apenas acionistas e vivem do mercado financeiro. O capital mudou de mãos e agora concentra-se em títulos, ações e crédito.A mercadoria fica em segundo plano. Isso não que dizer que o modelo industrial acabou e foi decretado fim do capitalismo. O que de fato mudou foi a forma como a indústria se antecipou aos novos paradigmas do capital. Vendo assim, a oportunidade de maximizar sua acumulação num modelo mais enxuto e tecnológico.

ZINI, Claúdio. Começe errado, mas comece! 4.ed. Palmas, PR: Kayguangue, 2023. 231p. 

sábado, 11 de abril de 2026

A ciência no banco dos réus: o encontro entre Lacey e Novaes

No último artigo discorremos sobre os aspectos básicos que tornam a ciência mais humanitária e necessária ao desenvolvimento social, econômico e tecnológico do planeta. Dando sequência a esse assunto, ainda reforçaremos as ideias de Lacey e Novaes a respeito dos saberes científicos e sua relação com um mundo onde a inovação técnica frequentemente atropela a reflexão ética, duas obras fundamentais se encontram no centro de um debate urgente sobre o futuro da civilização: Valores e Atividade Científica 2, de Hugo Lacey, e a coletânea O Homem-Máquina, organizada por Adauto Novaes. Embora possuam pontos de partida distintos, a convergência entre eles desenha um mapa crítico sobre como a ciência moderna molda - e, por vezes, deforma - a nossa realidade. Abaixo, exploramos os pontos de intersecção onde o pensamento desses autores se funde em um alerta necessário.

O Fim do Mito da Neutralidade

A maior convergência entre as obras é o ataque frontal à ideia de que a ciência é "neutra". Para Lacey, a escolha de como pesquisar já carrega um valor. Ele argumenta que a ciência moderna prioriza "estratégias descontextualizadas", voltadas para o controle e a manipulação da natureza. Na visão de Novaes e seus colaboradores, essa mesma ciência "neutra" é a que permite a manipulação do corpo humano como se fosse apenas matéria bruta, ignorando as dimensões sociais e espirituais do ser. Ambos concordam: não existe ciência sem ideologia.

A Redução do Humano ao Objeto

Os dois livros denunciam um processo de objetificação:

·  Em Lacey: A natureza e os sistemas sociais são reduzidos a variáveis que podem ser controladas por leis matemáticas e físicas.

·   Em Novaes: O ser humano é reduzido a uma "máquina". No livro organizado por Novaes, discute-se como a biotecnologia e a genética tratam o corpo como um conjunto de peças substituíveis ou dados a serem otimizados.

A convergência aqui é clara: a ciência contemporânea tende a desconsiderar a "autonomia" - seja das sementes na agroecologia (tema caro a Lacey) ou da vontade própria do indivíduo sobre seu organismo (foco de Novaes).

O Império do Controle e do Mercado

Outro ponto de união é a identificação de quem realmente dita o ritmo do progresso. Lacey aponta que a pesquisa científica está hoje quase totalmente submetida aos valores do capital e do mercado, que buscam lucros rápidos através da inovação tecnológica.

Essa tese é amplificada em O Homem-Máquina, onde os autores mostram como a manipulação do corpo (seja através de fármacos, cirurgias ou implantes) transformou a vida humana em um produto. A ciência deixa de ser um instrumento de libertação para se tornar uma ferramenta de dominação biopolíticaDessa forma podemos sintentizar tais convergências às quais os autores proprõem numa tabela bastante didática e fácil de compreender, que segue logo abaixo:

Tema Central

Visão de Lacey

Visão de Novaes (Coletânea)

Poder

A ciência serve ao controle da natureza e ao lucro.

A ciência serve ao controle dos corpos e à produtividade.

Metodologia

Mecanicista e descontextualizada.

Fragmentada e tecnicista.

Ética

Deve ser reintroduzida no centro da prática científica.

Deve ser o limite contra a desumanização técnica.

A leitura cruzada de Lacey e Novaes não é um convite ao abandono da ciência, mas sim à sua redemocratização. O que exige uma nova postura científica. Pois, enquanto Lacey pede uma ciência plural que respeite os contextos sociais, os autores de Novaes pedem uma ciência que não "desmonte" o humano em busca de uma perfeição mecânica ilusória. A convergência final é um chamado à responsabilidade: o cientista não pode mais se esconder atrás de números; ele deve responder pelo mundo que sua técnica está criando.

No entanto a ciência ainda segue sob o tacão do capital e para não nos deixar mentir, as luzes convergentes de Lacey e Novaes refletem tal pensamento. Portanto, ao esmiurçarmos as obras destes autores surge uma convergência contundente surge que denúncia como a ciência moderna se tornou uma engrenagem fundamental do modelo capitalista. Então, para ambos, a ciência não é uma entidade isolada em uma torre de marfim, mas um instrumento moldado pela lógica da acumulação, do lucro e do controle social.

A Ciência como Força Produtiva

A primeira grande convergência reside na compreensão de que a ciência abandonou o ideal de "conhecimento pelo conhecimento" para se tornar uma ferramenta de produção.

·  Lacey demonstra que o modelo de "ciência moderna" privilegia quase exclusivamente pesquisas que geram tecnologias patenteáveis e controle sobre a natureza. Isso ocorre porque tais pesquisas atendem aos interesses das corporações que buscam lucros imediatos.

·    Novaes, através dos ensaios de sua coletânea, mostra como essa mesma lógica entra "pele adentro". O corpo humano deixa de ser uma entidade sagrada ou biopsicossocial para se tornar um capital biológico. A ciência que manipula o corpo (genética, farmacologia) serve para otimizar o trabalhador e o consumidor, tornando-os mais produtivos e dependentes do mercado.

 A Estratégia de Controle e a Mercantilização

Ambos os autores identificam que a aliança entre ciência e capitalismo gera uma obsessão pelo controle total.

·    No campo (Lacey): O autor cita o exemplo das sementes transgênicas. A ciência é usada para criar sementes que não se reproduzem ou que dependem de agrotóxicos específicos. Aqui, o conhecimento científico é usado para "aprisionar" a agricultura ao  mercado financeiro, destruindo práticas tradicionais.

·    No corpo (Novaes): A ciência médica e biotecnológica foca na fragmentação do corpo em partes comercializáveis. A saúde torna-se um produto de prateleira. A convergência com Lacey é clara: o objetivo não é a autonomia do sujeito (ou do agricultor), mas a dependência de um sistema técnico-capitalista.

 O Silenciamento de Alternativas

Lacey e Novaes convergem ao apontar que o modelo capitalista impõe um "pensamento único" na ciência:

  • Marginalização de Saberes: Lacey aponta que formas de ciência que não geram lucro (como a agroecologia) são desqualificadas como "não científicas" ou irrelevantes.

  • Desumanização: Novaes alerta que, ao focar apenas no que é tecnicamente possível e economicamente rentável, a ciência ignora as questões éticas e o sofrimento humano, tratando o indivíduo como uma máquina que precisa de manutenção constante.  

Podemos sintetizar essa relação entre ciência e capital num quadro em que os pontos convergentes podem ser estabelecidos em cinco aspectos distintos:   

Ponto de Convergência

O Impacto do Modelo Capitalista

Finalidade

A pesquisa é direcionada para o que gera lucro e patentes, não para o bem-estar social amplo.

Visão de Mundo

A natureza (Lacey) e o corpo (Novaes) são vistos como recursos exploráveis e máquinas a serem otimizadas.

Poder

O conhecimento concentra-se nas mãos de grandes corporações (agroindústria, farmacêuticas, tech).

Ética

A ética é substituída pela eficiência técnica e pela viabilidade econômica.

Assim podemos dizer que o desafio da emancipação da ciência perpassa pela convergência entre os dois autores; é nos fornece um diagnóstico sombrio, porém necessário: sob a égide do capitalismo, a ciência corre o risco de deixar de ser um caminho para a verdade e passar a ser um manual de instruções para a dominação.Enquanto Lacey propõe uma ciência plural que incorpore valores sociais e ecológicos, as reflexões de Novaes pedem um retorno ao humanismo, para que a técnica não acabe por devorar o seu criador. Em suma, ambos defendem que a ciência precisa ser resgatada das mãos do mercado para voltar a servir à vida em sua plenitude. O que esses dois livros nos dizem, em uníssono, é que a luta por uma ciência diferente é, essencialmente, a luta por um modelo de sociedade diferente.

LACEY, Hugo. Valores e atividade científica 2. São Paulo: Editora 34, 2010. 384 p. (Coleção Trans).

NOVAES, Adauto (Org.). O homem-máquina: a ciência manipula o corpo. São Paulo: Companhia das Letras, 2003. 488 p.

sábado, 4 de abril de 2026

Entre a ética e a técnica: o dilema da ciência contemporânea em Lacey e Novaes

A evolução da humanidade durante os milênios é a prova cabal de que o ser humano tornou-se capaz de contornar seus problemas, e com isso criar soluções inteligentes para resolver suas necessidades. A invenção da roda, do arado, a descoberta do fogo na pré-história até a inteligência artificial, a nanotecnologia, a biotecnologia em nossos dias atuais mostra a importância da ciência na evolução da sociedade. Por outro lado, quanto essa revolução científica de fato beneficiou nós, seres humanos. Portanto, cabe aqui neste artigo discutirmos pontos centrais a respeito da imparcialidade, da neutralidade e autonomia da ciência. Enfim, a quem serve o saber e o fazer científico. Pois, é isso que iremos debater neste artigo, sob os holofotes de Hugo Lacey junto a obra de Adauto Novaes - Homem máquina. 

No cenário atual, onde a biotecnologia e a inteligência artificial avançam em ritmo frenético, a pergunta que ecoa nos centros de pesquisa e na filosofia não é mais apenas "o que podemos fazer?", mas sim "o que devemos fazer?". Este embate ético é o fio condutor que une duas obras fundamentais para compreender a ciência moderna: Valores e Atividade Científica 2, de Hugo Lacey, e O Homem-Máquina: A Ciência Manipula o Corpo, organizado por Adauto Novaes.

Embora partam de perspectivas distintas, ambos os autores convergem para uma crítica necessária à suposta "neutralidade" do progresso técnico-científico.

A Ciência Além do Laboratório: Hugo Lacey

Em sua obra, o filósofo australiano Hugo Lacey desafia a ideia de que a ciência é uma busca pura e desinteressada pela verdade. Para Lacey, a atividade científica está intrinsecamente ligada a valores.

Os Três Tipos de Valores

Lacey argumenta que a ciência é influenciada por uma tríade de valores:

  • Cognitivos: Critérios de verdade, como consistência e poder preditivo.
  • Éticos: O impacto das descobertas na vida humana e no meio ambiente.
  • Sociais/Políticos: Quem financia a pesquisa e quais interesses (militares, de mercado ou sociais) ela serve.

O autor propõe a Pluralidade Metodológica, sugerindo que a ciência não deve focar apenas em estratégias descontextualizadas (que buscam o controle da natureza), mas também em estratégias que considerem o contexto social e ecológico, como a agroecologia.

O Corpo sob o Bisturi da Razão: Adauto Novaes

Se Lacey foca na estrutura da pesquisa, a coletânea organizada por Adauto Novaes, O Homem-Máquina, mergulha nas consequências antropológicas dessa ciência. O livro explora como a visão mecanicista — que vê o corpo humano como uma engrenagem ou um conjunto de dados — transformou nossa relação com a vida.

A Fragmentação do Humano

Os ensaios presentes na obra de Novaes alertam para o risco da manipulação extrema. Ao tratar o corpo como um objeto puramente biológico e técnico, a ciência corre o risco de:

  •  Anular a subjetividade e a história individual.
  • Transformar a saúde em um produto de consumo.
  •  Criar uma "eugenia moderna" através da edição genética e da protetização sem limites éticos claros.

"A ciência que manipula o corpo é a mesma que, muitas vezes, esquece a dignidade do homem que o habita."

O Ponto de Encontro: A Necessidade de Limites

O diálogo entre Lacey e as reflexões de Novaes revela uma urgência: a democratização do conhecimento científico.

Ponto de Comparação

Hugo Lacey

Adauto Novaes (Coletânea)

Foco Principal

Metodologia e Valores

Antropologia e Biopoder

Crítica Central

O predomínio da estratégia de controle

A visão do homem como máquina funcional

Solução Proposta

Ciência plural e socialmente responsável

Reflexão filosófica sobre os limites da técnica

Uma Ciência para Quem?

A leitura conjunta dessas obras sugere que a ciência não é um destino inevitável, mas uma escolha política e ética. Enquanto Lacey nos fornece as ferramentas teóricas para identificar quais valores guiam nossas pesquisas, os autores de Novaes nos mostram o que está em jogo: a nossa própria definição de humanidade.

Para o leitor contemporâneo, a mensagem é clara: o progresso técnico só terá valor se estiver a serviço da emancipação humana e do equilíbrio planetário, e não apenas da eficiência mecânica ou do lucro desenfreado.

LACEY, Hugo. Valores e atividade científica 2. São Paulo: Editora 34, 2010. 384 p. (Coleção Trans).

NOVAES, Adauto (Org.). O homem-máquina: a ciência manipula o corpo. São Paulo: Companhia das Letras, 2003. 488 p.

Natureza

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