Diante da grandes repercursões políticas e econômicas que tomam conta da mídia nacional e abalam todo o país, não poderíamos deixar falar aqui a respeito do caso do Banco Master. Até mesmo por eu ter investido em um CDB deles que prometiam retorno de 120% do CDI, que com muito custo fui ressarcido pelo Fundo Garantidor de Crédito (FGC). Mas infelizmente, tem uma grande parcela de pessoas que investiram seja diretamente, ou via fundos de investimentos que não irão receber facilmente os valores. Sim, podem dizer que somos iludidos por altos retornos e ganhos fáceis, ou seja, visamos o lucro. Isso é perfeitamente normal dentro de uma economia capitalista. Principalmente no atual capitalismo financeiro, em que o dinheiro virou mercadoria - mercadoria intangível (números numa tela de computador). A era do dinheiro virtual, cujo juro é a forma de remuneração pelo empréstimo de valores monetários. Trara-se de um sistema baseado na confiança, daí o termo fiduciário (fé, crença, acreditar no outro). Interessante observar que tais palavras são fortemente presentes nos dogmas religiosos. Parece que dinheiro e religião entrelaçaram-se e comungam o mesmo objetivo. Alguns de meus leitores podem dizer: isso é paranoia, que é apenas mera coincidência e coisas do tipo. Se formos buscar nos fatos históricos, algumas religiões dissidentes do catolicismo eram bastante tolerantes a usura, nada mais que empréstimos a juros. Essas religiões preconizaram os ideais burgueses e capitalistas. Digo isso, pelo fato de que a história percorre ciclos e segue uma mesma lógica, no entanto o espaço e o tempo muitas vezes se diferem. Aonde quero chegar diante desse pensamento? bem, a resposta está justamente aqui, no Brasil, em pleno século XXI. Porém, precisamos fazer um esforço intelectual e pontuar alguns fatos anteriores para entender a realidade atual dos aconecimentos. A força capitalista propulsionada pelo motor da indústria, produção e o consumo de bens em meados do anos 70 do século XX incia sua derrocada.Ocorre o processo de desindustralização e modelo fordista perde força em quase todo o mundo. Os sindicatos, as associações e as lutas dos trabalhadores são minadas, assim como a grande indústria fabril. O capitalismo fordista de produção deixa de ser o modelo atraente e abre espaço para serviços e a financeirização. Os bancos tornam-se os imperadores do mercado. As finanças e o mercado financeiro determinam como será o jogo do poder. Não interessa mais produzir e vender da maneira antiga. O mote é inserir o consumidor no jogo do crédito e débito,ou seja, a mercadoria é só uma isca para atrair futuros devedores, e deles cobrar juros. A era do homem endividado. Aquele que não possui empréstimos e dívidas deixa de ser atraente ao mercado. Com tudo isso, a indústria ganha com a bancarização e emissão de títulos créditicios. Vejam bem, toda essa mudança atinge desde de indivíduos à países. Pois, grandes nações passam a contrair empréstimos à juros devido a desindustrailização e cairem na ideologia neoliberal, ficam então sujeitas aos ditâmes de países credores e grandes conglomerados financeiros. As consequências desse neoliberalismo foram avassalodoras, como as crises constantes e abalo na soberania de muitos países que impactarm diretamente na democracia. As privatizações e a austeridade nos gastos públicos marcam bem essa época no Brasil, no final dos anos 90 com o governo de Fernando Henrique Cardoso. A implementação do ideal neoliberal teve um custo enorme para o país, privatizações a toque de caixa, aumento do desempergo, mesmo com baixa inflação a pobreza extrema prevalecia. A distribuição da riqueza situava-se em níveis elevados. A elite ainda possuia grande parte da riqueza produzida em suas mãos. Nos bastidores da política e da economia a usura imperava e fazia com que as fortunas crescessem ainda mais. Os grandes bancos tinham lucros absurdos. Para captar mais dinheiro e ampliar as linhas de créditos ás famílias, às empresas e aos pequenos negócios entrava em cena a criatividade financeira do mercado. O mix de produtos financeiros - assim como a variabilidade de espécies de plantas e animais dentro da biologia - caminhavam numa diversidade assustadora. O bancos, corretoras, financeiras e gestoras de investimentos, além das casas de análises locupletavam-se numa pleiade de entes financeiras. Muitas delas sem qualquer real lastro de capital, no intuito apenas de captar dinheiro de investidores com a promessa de altos rendimentos. Muitos dos produtos financeiros lastreados por essas entidades eram compostos de títulos e ativos denominados podres, com muito pouco valor real e artificialmente valorizados. Um exemplo claro, são os subprimes norte-americano, divídas imobiliarias (hipotecas) que eram vendidos aos pequenos investidores sem qualquer clareza em relação ao risco de crédito e capacidade do devedor em honrar a dívida. É importante observamos com clareza, que o capitalismo ao buscar novas maneiras de acumular-se e crescer não se importa com o modelo econômico e nem mesmo com o seu detentor. Por isso o dinheiro perpassa por diferentes de mãos e determina quem o comandará. Na atualidade, o capital conforma-se no modelo do dinheiro produzindo mais dinheiro sem passa pelo crivo da mercadoria, tornou-se um fim em si mesmo. Daí nasce o capitalismo financeiro e com ele toda uma espécie de produtos para o gosto do freguês, da qual citamos logo acima. Pois, é nesse instante que poderemos analisar detidamente os casos mais absursos e bizarros de grupos ou indivíduos que fizeram desta vertente de capitalismo financeiro para gerar fortunas e se aproveitar do poder. Especificamente, o caso do Banco Master (claro que casos anteriores e outros futuros adentraram e adentrarão as páginas policiais e da mídia, assim como os meios políticos) mostra-se mais recente e gerou todo um burburinho nos corredores de Brasília. Não há nada demais em adquirir títulos de créditos privados como CDBs, LCIs, LCAs, FDICs e outros produtos financeiros. Tratam-se, a grosso modo, de compras de dívidas, em que empresas tomam empréstimos e assim pagam juros conforme o risco. Quanto maior o risco, maior os juros. Ai que entra a mágica do Banco Master, com seu truque de ilusionismo financeiro, ao emitir títulos de créditos privados com promessa de juros acima do 120% do CDI. O Banco captou dos investidores bilhões em reais, mas sem condições reais honrar com os credores. A verdadeira questão é que o Master não possuia se quer patrimônio e muito menos capital sufcientes para arcar com prejuízos. Enquanto isso, o seu dono vivia uma vida luxuosa e de aparências, gastando o dinheiro dos investidores. Bem próximo ao esquema das pirâmides, só que com aval político. O mais interessante dessa história toda é o que há por trás de tudo. O dono do Banco Master tem ligações com a igreja a qual pertence um deputado da direita e o seu pastor está ligado diretamente ao banqueiro (laços familiares). Uma forte rede que interliga poliítica, igreja e capital financeiro. O Banco Master, assim como outros negócios bilionários demonstra a incapacidade de grandes empeendimentos de andarem sozinhos, e dependem fortemente de aportes do Estado e subsídios estatais. O mais intrigante é saber que uma boa parcela da população enxerga isso de maneira tão natural e até defende tal atitude. Como se a corrupção por parte das empresas nem se quer exista e condenam apenas o governo. Houve por parte do empresário claras tentativas de aproximar-se de pessoas do Estado para obter vantagens e ganhos. Mais uma vez os vícios privados tentam alinhar do vícios públicos.
sábado, 7 de fevereiro de 2026
sábado, 24 de janeiro de 2026
Entre periferias e prensas: como a mídia costura a narrativa da violência em duas épocas e espaços.
Os
romances-reportagem e ensaios sobre criminalidade costumam dizer tanto sobre os
lugares que descrevem quanto sobre os instrumentos que os representam. Lidos
lado a lado, Cabeça de Porco, de Celso Athayde e MV Bill, e A tinta e o sangue,
de Dominique Kalifa, oferecem uma vigília comparativa: um mapeamento
espaço-temporal sobre como a violência e o crime são narrados, vendidos e
instrumentalizados pela mídia — e como essas narrativas moldam políticas,
estigmas e práticas cotidianas de controle social.
Dois mundos, um mesmo mecanismo:
A obra
de Kalifa recupera os mecanismos do sensacionalismo policial na França do
século XIX: a emergência da imprensa popular — jornais baratos, reportagens
melodramáticas, ilustrações e “casos” que prendiam leitores — criou uma
indústria de notícias criminais que transformava crimes em espetáculos. A pena
e a gravura compunham imagens fortes sobre marginalidade, monstro e perigo
urbanizados, deslocando debates sobre desigualdade para as páginas de
entretenimento e alimentando pânico moral.
Cabeça
de Porco, situado nas periferias urbanas brasileiras contemporâneas, traz o
contraponto em um contexto tecnológico e sócio-histórico diferente: a violência
é filmada, viralizada, transmitida por telejornais e redes sociais; as favelas
são simultaneamente território real e produto midiático. Athayde e MV Bill
mostram como a imagem da “boca de fumo”, do “traficante” e do “criminoso” se
incorpora no discurso público e termina por orientar políticas de segurança,
coopta narrativas locais e desincentiva leituras estruturais da pobreza.
Espaço:
periferia vs. centro e a geografia das representações:
Kalifa
descreve um centro urbano em plena transformação industrial, onde a
criminalidade ganha foco porque perturba a ordem burguesa e porque vende jornais.
O “espaço” aqui é a cidade em expansão: a vitrine do capitalismo nascente que
precisa explicar (e conter) a desigualdade. Em contraste, Cabeça de Porco
mostra periferias que a mídia contemporânea insiste em manter como “fora” do
centro — zonas de exceção onde a violência é tratada como fenômeno cultural ou
patológico, mais que como resultado de exclusão socioeconômica. A imprensa e as
câmeras reconstroem esses territórios como ameaças permanentes, demarcando
fronteiras simbólicas entre “nós” e “eles”.
Temporalidade: do papel à tela:
A
passagem do século XIX ao século XXI acompanha uma transformação técnica
decisiva. No modelo de Kalifa, o jornal impresso, a notícia e fixa a imagem do
criminoso num ciclo relativamente previsível: rumor — reportagem — ilustração —
julgamento simbólico. No Brasil contemporâneo, as televisões, os portais
noticiosos e as redes sociais aceleram e fragmentam esse ciclo: imagens em
vídeo, áudios, transmissões ao vivo e comentários em tempo real potencializam a
circulação, mas também pulverizam a responsabilidade editorial. A velocidade
amplia a visibilidade do conflito, transforma indivíduos em virais e
intensifica decisões políticas e operações policiais em reação a manchetes,
trending topics e cliques.
A construção do inimigo e seus efeitos
práticos:
Ambos
os livros mostram que a mídia não é apenas observadora; ela ativa mecanismos
legais, econômicos e simbólicos. Kalifa demonstra como a imprensa do século XIX
contribuiu para criar um tipo de figura criminosa que justificava câmaras
inquisitoriais e leis novas; Athayde e MV Bill expõem como a cobertura
contemporânea das favelas legitima operações de polícia militar, projetos de
encarceramento e estigmatização institucional — e como essas intervenções
retroalimentam a violência que elas dizem combater.
Importância
dos atores locais e das vozes subalternas:
Uma
diferença crucial é a presença (em Cabeça de Porco) de atores locais que
resistem à única narrativa: lideranças comunitárias, educadores, artistas e
ex-detentos que tentam redescrever a periferia. Já na análise de Kalifa, a
imprensa massiva raramente incorpora vozes da periferia operária do século XIX
— o “outro” é narrado por quem detém a caneta. Hoje, embora as mídias sociais
possam dar voz direta a moradores, essas vozes competem num ambiente saturado
onde imagens sensacionais continuam dominando a agenda.
Mídia como mercado e como máquina de
moralidade:
Ambos
os contextos confirmam uma constatação: notícias sobre crime são mercadoria. No
século XIX, vender jornais exigia casos chocantes; hoje, cliques e audiência
ditam manchetes. Essa relação mercado-moralidade transforma crime em espetáculo
e simplifica causas complexas — o resultado é uma opinião pública inclinada a
respostas punitivas imediatas, políticas de exceção e universalização do medo.
Narrativas que precisam ser desconstruídas:
A
correlação entre Cabeça de Porco e A tinta e o sangue mostram que, apesar das
diferenças de época e tecnologia, o núcleo do problema é semelhante: a mídia
contribui decisivamente para definir quem é considerado criminoso e que
respostas a sociedade adota. Ler os dois em diálogo permite perceber padrões - produção
do pânico, mercantilização do sofrimento, invisibilização de estruturas - e
pressiona por uma imprensa que contextualize, pluralize vozes e recuse a
simplificação sensacionalista. Para além do diagnóstico, resta um convite:
transformar a agenda pública, criando espaços midiáticos e políticos que
privilegiem explicações estruturais, reparação social e políticas de segurança
orientadas por direitos, e não apenas por imagens que vendem.
A Violência Midiatizada: Da Paris do
Século XIX às Favelas Cariocas do Século XXI
A
violência sempre existiu; a forma como a contamos, porém, nunca foi neutra.
Entre Paris e Rio, entre o século XIX e o XXI, a mídia permanece como
protagonista nessa história - para o bem ou para o mal.
Como a
construção narrativa do crime atravessa séculos e fronteiras, revelando padrões
midiáticos que transformam a violência em espetáculo
Separados
por mais de um século e um oceano, dois livros aparentemente distintos revelam
uma inquietante continuidade histórica: a relação simbiótica entre violência,
criminalidade e mídia. "A Tinta e o Sangue", do historiador francês
Dominique Kalifa, e "Cabeça de Porco", da dupla brasileira Celso
Athayde e MV Bill, expõem, cada um à sua maneira, como a narrativa midiática
sobre o crime não apenas documenta a violência, mas a constrói, a
espetaculariza e a transforma em mercadoria cultural.
O Nascimento do Crime como Espetáculo:
Em
"A Tinta e o Sangue", Kalifa mergulha na Paris do século XIX para
desvendar o momento fundacional da cultura de massa em torno do crime. A
capital francesa, então epicentro da modernidade, testemunhou o nascimento de
uma nova forma de consumir violência: através da imprensa sensacionalista, dos
romances policiais e dos fait divers - aquelas pequenas narrativas de crimes
cotidianos que fascinavam (e ainda fascinam) o público.
O
historiador demonstra que a tinta dos jornais e a tinta da literatura beberam
do sangue real das ruas parisienses para criar um imaginário do crime que
ultrapassava em muito a realidade estatística. A violência, filtrada pelas
lentes da mídia oitocentista, tornava-se produto de entretenimento, instrumento
de controle social e ferramenta de construção de identidades urbanas.
Das Apaches Parisienses aos Comandos
Cariocas:
Avançando
no espaço e no tempo, chegamos ao Rio de Janeiro do início do século XXI.
"Cabeça de Porco", lançado em 2005, leva o leitor para dentro do
Complexo de favelas da Penha, oferecendo um relato visceral da violência urbana
brasileira. MV Bill, rapper nascido e criado na Cidade de Deus, e Celso
Athayde, produtor cultural e ativista, constroem uma narrativa que é
simultaneamente denúncia, testemunho e obra jornalística.
A
correlação temporal é reveladora: assim como as gangues das "Apaches"
aterrorizavam o imaginário parisiense do fin-de-siècle - frequentemente de
forma exagerada pela imprensa -, os "comandos" e facções das favelas
cariocas ocupam, no século XXI, um espaço desmedido no noticiário brasileiro. A
diferença crucial, porém, está no lugar de fala: enquanto Kalifa analisa como a
elite letrada francesa construiu narrativas sobre as classes perigosas, Athayde
e MV Bill falam de dentro, desmontando estereótipos midiáticos com a autoridade
de quem viveu a realidade retratada.
A Mídia como Mediadora e Criadora da
Violência:
Ambos
os livros, cada um em seu registro, evidenciam o papel central da mídia não
como mero espelho da violência, mas como agente ativo em sua configuração
social. No século XIX francês, a imprensa popular criou arquétipos do criminoso
que permanecem até hoje: o apache violento, a prostituta vítima, o burguês
devasso. Esses tipos, mais do que descrever a realidade, moldavam a percepção
pública e influenciavam políticas de segurança.
No
Brasil contemporâneo, "Cabeça de Porco" denuncia operação semelhante.
A favela midiatizada é quase sempre sinônimo de violência, seus moradores
eternamente suspeitos, suas crianças condenadas de antemão. MV Bill e Athayde
mostram como essa narrativa hegemônica invisibiliza a complexidade social das
comunidades, reduzindo-as a cenários de guerra onde apenas traficantes e
policiais existem.
O Sangue que Vende Jornais - Ontem e Hoje:
"Se
há sangue, há primeira página" - o velho adágio jornalístico que Kalifa
identifica no século XIX permanece assustadoramente atual. A economia da atenção,
que começou com os jornais populares franceses vendidos a um centavo, atinge
seu paroxismo nas redes sociais e na cobertura televisiva contemporânea. A
chacina, o tiroteio, a operação policial: tudo vira espetáculo instantâneo,
consumido vorazmente por uma audiência simultaneamente horrorizada e fascinada.
A
diferença talvez esteja na velocidade. Enquanto os leitores parisienses
esperavam a edição vespertina para saber dos crimes matinais, hoje o sangue é
transmitido ao vivo, em tempo real, com helicópteros sobrevoando favelas e
cinegrafistas documentando cada disparo. A tinta se tornou pixel, mas o sangue
continua sendo o mesmo.
Geografias da Exclusão:
Há
também uma perturbadora continuidade geográfica na forma como a violência é
espacializada. Kalifa mostra como certos bairros parisienses - Belleville, La
Chapelle, zonas operárias - eram construídos discursivamente como territórios
do perigo, zonas morais onde a lei vacilava. Essa cartografia do medo
legitimava tanto o sensacionalismo midiático quanto as incursões policiais mais
violentas.
"Cabeça
de Porco" revela mecanismo idêntico operando nas favelas cariocas. O
morro, na geografia imaginária da cidade, é o espaço do Outro, do perigo, da
desordem - o que autoriza tanto a cobertura espetacularizada quanto a violência
estatal sistemática. Em ambos os casos, a estigmatização midiática de
territórios inteiros reforça ciclos de marginalização e violência.
Resistências Narrativas:
Contudo,
se Kalifa documenta como os subalternos foram representados pela elite
midiática do século XIX, "Cabeça de Porco" representa algo
radicalmente novo: a tomada da palavra. MV Bill e Athayde não são acadêmicos
externos analisando a favela, mas vozes emergentes de dentro dela, disputando o
monopólio narrativo sobre suas próprias vidas.
Essa
ruptura é fundamental. O livro brasileiro não apenas denuncia a midiatização da
violência, mas oferece uma contra-narrativa, complexificando o que a mídia
tradicional simplifica, humanizando quem ela desumaniza, contextualizando o que
ela espetaculariza. É a diferença entre ser objeto e sujeito da história.
Um Século de Continuidades:
Colocados
em diálogo, "A Tinta e o Sangue" e "Cabeça de Porco"
revelam que a relação entre mídia, violência e criminalidade possui raízes
históricas profundas. Da Paris de Balzac e Zola ao Rio de Janeiro de MV Bill,
permanece a tentação de transformar o sofrimento real em entretenimento, de
simplificar complexidades sociais em narrativas maniqueístas, de estigmatizar
territórios e populações inteiras.
Mas os
livros também apontam caminhos. Se Kalifa nos ajuda a entender historicamente
como chegamos aqui - como a cultura de massa sobre o crime se consolidou -,
"Cabeça de Porco" demonstra que outras narrativas são possíveis
quando aqueles que vivem a violência tomam a caneta (ou o microfone) das mãos
de quem apenas a observa de longe.
A
tinta continua se alimentando do sangue, mas agora algumas mãos antes
silenciadas começam a escrever suas próprias histórias. E isso, talvez, seja o
início de uma mudança que nem Kalifa poderia ter previsto ao estudar a Paris do
século XIX: o momento em que os objetos da narrativa criminal se tornam seus sujeitos,
desafiando um século e meio de representações que os desumanizaram.
O Espetáculo do Medo: Da Paris da Belle
Époque às Favelas do Rio de Janeiro:
Uma
análise comparativa entre "A Tinta e o Sangue", de Dominique Kalifa,
e "Cabeça de Porco", de MV Bill, Celso Athayde e Luiz Eduardo Soares,
revela como a mídia molda, há séculos, a nossa percepção da violência.
Separados
por um oceano e por um século de história, dois cenários aparentemente
distintos se encontram na intersecção entre a tinta dos jornais e o sangue das
ruas. De um lado, a Paris do final do século XIX, iluminada pelos lampiões a
gás e aterrorizada pelas manchetes sensacionalistas. Do outro, o Rio de Janeiro
do início do século XXI, marcado pelos becos das favelas e pela guerra do
tráfico televisionada.
Ao
colocarmos lado a lado o estudo histórico:
A Tinta e o Sangue, do historiador francês Dominique Kalifa, e a
reportagem antropológica Cabeça de Porco, de Celso Athayde, MV Bill e Luiz
Eduardo Soares, emerge uma linha contínua e perturbadora: a construção
midiática do "criminoso" e a transformação da violência em produto de
consumo de massa.
A Invenção do "Fait Divers" e a
Realidade da Favela:
Dominique
Kalifa nos transporta para a França da Belle Époque, momento em que a imprensa
de massa explodia. É ali que nasce o fascínio moderno pelo crime. Kalifa
demonstra como os jornais da época, o chamado Petit Journal, não apenas
relatavam crimes, mas criavam uma narrativa de terror urbano. O
"apache" parisiense — o jovem delinquente dos subúrbios — tornava-se
uma figura mítica, um monstro necessário para vender jornais e justificar
políticas de repressão higienista.
Saltamos
então para o Brasil contemporâneo de Cabeça de Porco. O cenário muda, mas a
dinâmica de estigmatização permanece assustadoramente similar. Se em Paris a
tinta do jornal criava o monstro, no Rio de Janeiro, as câmeras de TV e as
manchetes policiais ajudaram a consolidar a imagem do jovem negro e favelado
como o "inimigo público número um".
Athayde,
Bill e Soares mergulham na realidade crua que a mídia raramente mostra.
Enquanto a imprensa tradicional foca no corpo estendido no chão e na apreensão
de armas (o espetáculo), Cabeça de Porco busca a biografia por trás do gatilho.
O livro revela a humanidade complexa dos "soldados do tráfico",
desmontando a caricatura simplista que a sociedade consome no jantar.
O Medo Como Moeda de Troca:
A
correlação espaço-temporal entre as obras evidencia que o medo é uma moeda
histórica valiosa.
Em
Kalifa, em pleno século XIX/XX o medo do crime serviu para vender tiragens
recordes e consolidar a indústria cultural nascente. A violência era estética,
um folhetim sangrento para entreter a burguesia segura em seus salões. Já para
Athayde/Bill - século XXI - esse medo
justifica a militarização da segurança pública e a ausência do Estado nas
favelas. A mídia, muitas vezes, atua como porta-voz oficial das operações
policiais, perpetuando uma visão de "nós contra eles", onde a favela
é o território do "outro", o bárbaro moderno.
A Voz dos Silenciados:
A
grande diferença — e talvez o ponto de virada — está na autoria e na
perspectiva. Kalifa faz uma arqueologia do discurso midiático; ele analisa como
os outros falaram sobre o crime. Já Cabeça de Porco é uma ruptura nesse padrão
histórico. Pela primeira vez, a narrativa não é apenas sobre o território
vulnerável, mas parte dele. MV Bill e Celso Athayde, oriundos da CUFA (Central
Única das Favelas), tomam para si a "tinta" para descrever o próprio
"sangue".
Enquanto
a imprensa francesa descrita por Kalifa lucrava com a distância entre o leitor
e o criminoso, os autores brasileiros encurtam essa distância. Eles nos forçam
a olhar nos olhos dos jovens que, sem opções de Estado ou mercado, encontram no
tráfico uma identidade e um pertencimento — uma tragédia social que a manchete
sensacionalista ignora deliberadamente.
A Mídia no Banco dos Réus:
Ler A
Tinta e o Sangue à luz de Cabeça de Porco é perceber que a "crônica
policial" nunca é neutra. De Paris ao Rio, a narrativa da violência é
seletiva.
Kalifa
nos ensina que a sociedade de massa precisa do crime como espetáculo para
definir suas fronteiras morais. Athayde e Bill nos mostram o custo humano dessa
necessidade. A junção das obras serve como um alerta atemporal: enquanto
consumirmos a violência como entretenimento ou estatística fria, continuaremos
a alimentar a engrenagem que mancha de sangue as ruas e de tinta (ou pixels) as
nossas consciências.
A
criminalidade muda de rosto, de arma e de sotaque ao longo dos séculos. Mas a
lente de aumento da mídia, que distorce para vender e segregar, permanece,
infelizmente, a mesma.
KALIFA,
Dominique. A tinta e o sangue: narrativas sobre crimes e sociedade na Belle
Époque. Tradução de Luiz Antônio Oliveira de Araújo. São Paulo: Editora da
Unesp, 2019. 519 p.
SOARES, Luiz Eduardo; MV BILL; ATHAYDE, Celso. Cabeça de porco. Rio de Janeiro: Objetiva, 2005. 295 p.
sábado, 10 de janeiro de 2026
Do papel ao asfalto: A tinta que mancha e o sangue que escorre.
O fenômeno da violência não é um fato isolado, mas
uma construção narrativa que atravessa séculos e oceanos. Ao aproximarmos as
obras "A Tinta e o Sangue", do historiador francês Dominique
Kalifa, e "Cabeça de Porco", de Celso Athayde e MV Bill,
emerge um paralelo perturbador: como o crime, ao ser mediado pela tinta dos
jornais ou pelas lentes dos documentários, molda o imaginário coletivo e define
quem é o "inimigo público" da vez.
No texto anterior, exploramos essa correlação espaço-temporal entre a Paris da Belle Époque e o Rio de Janeiro contemporâneo. Aqui daremos continuidade a essa questão da volência e da criminalidade por se tratar de uma assunto real e atemporal, que aflige o mundo.
Portanto, a correlação espaço-temporal entre a Paris da Belle
Époque e o Rio de Janeiro contemporâneo estabelece-se na maneira como o
desenvolvimento urbano e a modernização das metrópoles geraram
"territórios de exclusão" que a mídia passou a monitorar e
estigmatizar. Enquanto a Paris do final do século XIX passava pelas reformas de
Haussmann, que empurravam a pobreza para os subúrbios e submundos (bas-fonds),
o Rio de Janeiro do século XXI consolida a favela como esse espaço limiar,
muitas vezes invisível ao Estado, exceto pela via repressiva. Em ambos os
contextos, o tempo histórico parece se repetir no que diz respeito à gestão do
medo: a distância cronológica de um século é anulada pela permanência de uma
estrutura social que necessita de um "lugar do perigo" para reafirmar
a ordem e o progresso das áreas centrais e nobres.
Sob a perspectiva temporal, as obras de Kalifa e de
Athayde/Bill mostram que a construção do imaginário da violência é um processo
contínuo que migra da página impressa para a tela digital. Na Paris de 1900, a
"tinta" dos jornais de massa, como o Le Petit Journal, criava
um cronômetro de pânico cotidiano através dos crimes relatados, moldando a
percepção de tempo da população como uma era de insegurança iminente. De forma
análoga, no Rio de Janeiro contemporâneo, a velocidade das notícias e o impacto
visual do documentário e das redes sociais em Cabeça de Porco atualizam
essa sensação de cerco. O "espaço" deixa de ser apenas geográfico e
torna-se um campo de batalha narrativo, onde a mídia dita o ritmo da percepção
pública, transformando o jovem periférico de hoje no herdeiro direto do estigma
que outrora pertenceu aos marginalizados da Paris finissecular (Uma virada
de século carregada de tensões sociais, inovações tecnológicas e uma nova forma
de consumir notícias sobre violência).
A
Espetacularização do Medo: Da Paris de 1900 ao Rio de 2000
Dominique Kalifa analisa como a imprensa parisiense
do final do século XIX transformou os faits divers (notícias de crimes
cotidianos) em um combustível para o consumo de massa. A violência deixava de
ser um evento privado para se tornar um produto cultural.
No Brasil, "Cabeça de Porco"
(2005) surge em um cenário onde a televisão e o jornalismo policial já haviam
consolidado o "espetáculo da violência". Enquanto Kalifa foca na
"tinta" que ensanguenta o papel, Athayde e Bill mostram o
"sangue" que escorre no asfalto carioca, muitas vezes higienizado ou
distorcido pela narrativa hegemônica para justificar políticas de exclusão.
O quadro comparativo, abaixo, estabelece uma ponte
entre dois contextos que, embora distantes no tempo e no espaço, operam sob uma
mesma lógica de controle social através da informação. No primeiro eixo, a Paris
da Belle Époque e o Rio de Janeiro contemporâneo são apresentados
como palcos de uma modernização excludente: enquanto a reforma de Haussmann
empurrava as "classes perigosas" para as margens parisienses, a
urbanização brasileira consolidou a favela como o território da exceção. A
mídia, em ambos os casos, atua como o arquiteto desse abismo, utilizando o fait
divers (o crime banal) em Paris ou o jornalismo policial de massa no Brasil
para rotular esses espaços como zonas de guerra, transformando o medo em um
produto de alto consumo e eficácia política.
No segundo eixo, a análise foca na construção da
identidade do criminoso como uma ameaça civilizatória. A transição da
figura do "Apache" para a do "Falcão" revela uma estratégia
midiática de desumanização: o jovem é despido de sua subjetividade e revestido
de uma estética do perigo — seja pelas gírias e tatuagens dos submundos
franceses ou pelo fuzil e o rádio comunicador nas favelas cariocas. A diferença
fundamental apontada pelo quadro é a origem do discurso. Enquanto a obra
de Kalifa analisa como a tinta dos jornais silenciava o acusado para criar um
mito literário-policial, Cabeça de Porco rompe essa tradição ao dar voz
direta aos protagonistas, transformando o "objeto" de estudo em
"sujeito" que narra sua própria realidade e denuncia o viés
estigmatizante das câmeras
Quadro Comparativo
Histórico-Midiático
|
Aspecto |
A Tinta e o Sangue (Paris, séc. XIX/XX) |
Cabeça de Porco (Rio de Janeiro, séc. XXI) |
|
O
Cenário |
A Paris
em modernização (Haussmann) e seus submundos (bas-fonds). |
As
favelas brasileiras e o asfalto em conflito permanente. |
|
O
Protagonista |
O
criminoso "fantástico", o Apache ou o anarquista terrorista. |
O jovem
de periferia, invisível até se tornar o "falcão" do tráfico. |
|
Papel
da Mídia |
Criar
um imaginário de insegurança para vender jornais. |
Estigmatizar
territórios e reforçar o racismo estrutural. |
|
A
"Invisibilidade" |
O crime
torna visível a classe perigosa sob uma ótica burguesa. |
O livro
tenta dar voz ao "invisível" para romper o estereótipo midiático. |
A Construção do Inimigo: O "Apache" e o "Bandido"
Kalifa descreve a obsessão da mídia francesa com os
"Apaches" — gangues de jovens delinquentes que aterrorizavam
Paris. A imprensa da época construiu uma identidade visual e comportamental
para esses jovens, transformando-os em uma ameaça civilizatória.
Em "Cabeça de Porco", vemos o
reflexo moderno dessa construção. MV Bill e Celso Athayde denunciam como o
jovem negro da periferia é o alvo prioritário da "lente" social. A
mídia não apenas relata a violência, mas cria um perfil de suspeição que
precede o crime. A diferença fundamental é que, enquanto em Paris a mídia era o
agente externo, em "Cabeça de Porco", os autores usam o próprio
suporte mediático (livro e documentário) para retomar a narrativa,
passando de objeto de estudo a sujeitos do discurso.
Apaches e Falcões: A
Personificação do "Perigo Público"
A
correlação mais fascinante entre as obras de Dominique Kalifa e a de Celso
Athayde e MV Bill reside na criação de figuras místicas que personificam o
crime urbano. Embora separados por um século, o Apache e o Falcão
ocupam o mesmo lugar no imaginário social: o de uma juventude desviante que
desafia o Estado.
O Apache: O
"Selvagem" da Metrópole
Em A Tinta e o Sangue, Kalifa descreve como a imprensa francesa rotulou gangues de jovens como "Apaches". O nome não era acidental; buscava traçar um paralelo com os povos indígenas da América do Norte, pintando esses jovens como "selvagens" infiltrados no coração da civilização europeia. O Apache era caracterizado por:
- Estilo próprio: Roupas específicas, gírias e tatuagens que a mídia expunha para tornar o criminoso "reconhecível".
- Territorialidade: Dominavam os bairros periféricos de Paris, criando zonas de exclusão que a burguesia temia atravessar.
O Falcão: O "Vigia"
da Exclusão
Em Cabeça de Porco, o "Falcão" é o jovem que vigia a favela para o tráfico, mas, sob a lente de Athayde e Bill, ele deixa de ser apenas um dado estatístico para se tornar um sintoma. Enquanto a mídia brasileira trata o Falcão como um exército inimigo a ser abatido, o livro humaniza essa figura, revelando:
- A lógica de sobrevivência: O "voo" do falcão é limitado pela falta de oportunidades, transformando o crime na única carreira disponível.
- A espetacularização do fuzil: Assim como a faca do Apache aterrorizava a Paris de 1900, o fuzil nas mãos do Falcão é a imagem exaustivamente repetida nos telejornais para justificar o estado de exceção nas periferias.
A Lente que Distorce
A
relação é simétrica: a "tinta" da Belle Époque criou o Apache para
vender jornais e exigir repressão policial, enquanto o "sangue"
relatado em Cabeça de Porco é frequentemente usado pelo jornalismo
sensacionalista brasileiro para ratificar o medo e manter o status quo.
Em ambos os casos, a mídia não apenas noticia; ela estigmatiza, fixando no
jovem pobre a imagem definitiva do medo social.
O Crime como Espelho Social
A correlação entre Kalifa e a dupla brasileira
revela que a violência é um subproduto da desigualdade urbana e da gestão do
medo. Se em Paris a "tinta" da imprensa ajudou a consolidar a ordem
burguesa, no Brasil contemporâneo, a obra de Athayde e Bill atua como um contra-discurso,
expondo as entranhas de um sistema que produz o crime para depois
espetacularizá-lo.
Ambas as obras confirmam: a história da
criminalidade é, antes de tudo, uma história das representações que fazemos
dela.
Para
aprofundar essa conexão, vamos inserir no próximo texto fatos que focam especificamente nessa construção social desses dois personagens: o Apache
parisiense e o Falcão brasileiro, e assim demonstrar como a mídia utiliza
arquétipos semelhantes em épocas diferentes.
KALIFA, Dominique. A tinta e o sangue: narrativas sobre crimes e sociedade na Belle Époque. Tradução de Luiz Antônio Oliveira de Araújo. São Paulo: Editora da Unesp, 2019. 519 p.
SOARES, Luiz Eduardo; MV
BILL; ATHAYDE, Celso. Cabeça de porco. Rio de Janeiro:
Objetiva, 2005. 295 p.
sábado, 3 de janeiro de 2026
A tinta, o sangue e a favela: uma viagem histórica pela anatomia do crime
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KALIFA, Domenique. A tinta e o sangue: narrtaivas sobre crime e sociedade na Belle èpoque. Tradução de: Luiz Oliveira de Aráujo. São Paulo: UNESP, 2019. 517p.
SOARES, Luiz Eduardo; MV BILL; ATHAYDE, Celso. Cabeça de Porco. Rio de Janeiro: Objetiva, 2005. 295 p.
sábado, 20 de dezembro de 2025
Pensamentos filosóficos: a vida social, os costumes e o sistema econômico de Mandeville, Russell e Osho.
Na
pretensão de finalizarmos os estudos sobre os nossos autores, colocaremos neste
último texto algumas considerações relevantes que irão pontuar melhor o nosso
entendimento a respeito dos fatos históricos próprios de cada época. Além de
permitir que façamos certas elucubrações filosóficas relacionadas aos modos de
vida, os costumes e sistemas da qual viveram estes pensadores. Pois, os três
autores - Bernard Mandeville, Bertrand
Russell e Osho -
apresentam visões radicais e profundamente críticas sobre os modos de vida,
costumes, sistemas econômicos e a vida social de suas respectivas épocas. O
caminho convergente entre eles reside na defesa da liberação do indivíduo das restrições e hipocrisias impostas pela
moralidade convencional e pelas estruturas sociais coercitivas, embora cada um
chegue a essa conclusão por vias distintas. Para Mandeville (século XVIII), a
vida social pauta-se pelo vício, cujo modo de vida e os costumes estão
imbricados na dicotomia realidade versus aparência. Mandeville
sustenta que os costumes e a moralidade pública são uma fachada hipócrita. A vida privada é, inevitavelmente, dominada por
paixões egoístas e vícios (luxúria, orgulho, inveja).
Trata-se para o autor de uma virtude fictícia, ou seja, a virtude é vista como
uma invenção política para controlar o comportamento e tornar o homem
"dócil e útil", contrariando sua natureza. Os costumes sociais são,
portanto, um conjunto de regras que buscam canalizar o egoísmo de forma
socialmente aceitável. Já o sistema econômico é impulsionado pelo famoso
paradoxo: "vícios privados, benefícios públicos." A busca individual por luxo e satisfação pessoal
(os vícios) gera consumo, emprego, comércio e, em última análise, a prosperidade nacional. Portanto, o
papel da sociedade nada mais é que
um agregado de indivíduos buscando maximizar o próprio interesse. O bom
funcionamento social depende da gestão
astuta dos vícios, não da sua erradicação. O egoísmo é o motor natural e
eficiente do sistema. Por outro lado, na visão de Russell (século XX), a vida social
estende-se pela posse e pelo medo, daí sua crítica à moralidade e aos costumes
que na verdade sufocam os impulsos
criativos em favor dos impulsos
de posse. A sociedade capitalista industrial do seu tempo valoriza a
acumulação, a competição e o controle. A vida social e a política internacional
são dominadas pelo medo, pela possessividade (desejo de propriedade,
território, domínio) e pelo orgulho
nacionalista, que são a raiz da guerra. Por isso, nos aspectos
econômicos e sociais Russell busca defender vigorosamente a vida criativa (produção de beleza,
conhecimento, amor) em detrimento da vida
de posse (acumulação, competição). Assim, valoriza o trabalho construtivo e a cooperação,
como o sindicalismo, em oposição ao capitalismo belicoso. Logo, a ameaça do Estado
se faz presente nas indagações do autor. Dado que o Estado frequentemente está
aliado ao nacionalismo e ao militarismo, impõe costumes e leis que reforçam a
dominação e minam a liberdade individual e de pensamento, culminando na guerra.
Sendo Osho um homem do nosso tempo, que despontou no pós-guerra fria, as suas postulações
sobre os costumes sociais, a moralidade e a religião são entendidas como
manifestações dotadas de um profundo medo da dúvida e da insegurança existencial.
O modo de vida do homem comum é uma fuga constante da liberdade para a segurança da crença e do grupo. O
homem social é um ser domesticado,
reprimido pela moralidade externa (seja religiosa ou ideológica), o que o torna
infeliz e incapaz de alcançar a plenitude. Quanto a vida social, os sistemas
econômicos e políticos são construídos sobre ideologias rígidas (crenças) que dividem a humanidade em facções e
geram fanatismo. O capitalismo
pós-industrial é visto como um sistema que estimula o consumismo e a alienação,
reforçando a busca externa (posse) em vez da transformação interna. Para Osho única
forma de mudar a sociedade é através da revolução
individual, onde o ser humano se liberta da necessidade de crença,
abraça a dúvida e a meditação para atingir a consciência
plena.
Dentro
dessa perspectiva do pensamento econômico, cada um dos três autores tece suas
próprias análises e conclusões. Isso abre um certo precedente para que possamos
avaliar qual narrativa melhor nos cabe. Talvez,
Mandeville como o arauto do pensamento liberal econômico. Na obra - A Fábula
das Abelhas (1714/1729) – Mandeville é frequentemente citado como um precursor seminal do liberalismo
econômico clássico, notavelmente o de Adam Smith. Sua defesa paradoxal de que
"Vícios Privados" geram "Benefícios Públicos" subverteu a
moralidade tradicional e abriu caminho para a aceitação do auto-interesse como
motor da prosperidade. A principal contribuição de Mandeville reside na
legitimação do egoísmo e do auto-interesse como forças econômicas
benéficas, o que viria a ser o alicerce teórico do capitalismo. Diante disso,
temos:
·
A legitimação do auto interesse: Mandeville argumenta que a busca
individual por luxo, conforto e prazeres pessoais (os "vícios")
estimula o consumo. Este consumo, por sua vez, gera demanda por bens e
serviços, impulsionando a produção, o comércio e a inovação. O dinheiro
circula, e a nação se torna rica e poderosa. Exemplo: A vaidade de querer roupas caras (luxo/vício)
sustenta tecelões, alfaiates, mercadores, e assim por diante.
·
A negação da virtude estática: ao demonstrar que uma sociedade de
abelhas que se torna subitamente "virtuosa" (sem luxo, sem egoísmo)
inevitavelmente empobrece e declina, ele ataca a noção de que a moderação e a
abnegação moral são economicamente desejáveis. Ele sugere que a moralidade
rígida é, na verdade, um obstáculo ao desenvolvimento econômico.
·
O mercado como força autônoma (implícita): embora Mandeville não tenha articulado
a teoria da "mão invisível" como Adam Smith faria posteriormente, sua
obra implica que a economia funciona melhor quando os indivíduos são livres
para perseguir seus próprios fins (mesmo que moralmente duvidosos), e não
quando são rigidamente controlados pela moralidade ou pelo Estado.
Embora
Mandeville tenha fornecido a justificação para a liberdade de ação econômica,
Russell e Osho, operando em contextos de capitalismo industrial e
pós-industrial, criticam as consequências
éticas e sociais da filosofia do auto-interesse irrestrito. Bem, a
crítica de Bertrand Russell coloca-se nas consequências sociais e bélicas.
Assim, ele concorda que o auto-interesse é um motor poderoso, mas ele distingue
entre o que é criativo e o que é
possessivo. A partir daí se faz
as seguintes considerações:
·
O vício da posse: para Russell, o problema do capitalismo mandevilleano não
é o auto-interesse em si, mas a sua manifestação como possessividade (o impulso de posse). A busca incessante por
acumular propriedade, riqueza e poder — que Mandeville legitimou como
"vício benéfico" — é, para Russell, a causa principal da guerra, do imperialismo e da miséria social no
século XX.
· Rejeição a utilidade dos vícios: Russell rejeita a ideia de que o vício
(aqui, a possessividade) é útil. O capitalismo, ao basear-se na competição
irrestrita e na possessividade, gera um ambiente de medo e insegurança que leva
à violência internacional (guerra).
·
A Busca pelo criativo: a crítica de Russell é um apelo para transcender o mero
auto-interesse possessivo (o vício mandevilleano) e focar nos impulsos criativos (ciência, arte,
amor, conhecimento), que são construtivos e não competitivos, levando a um
sistema social mais pacífico.
Por
fim, as consequências existenciais e psicológicas colocadas por Osho permite
criticar a sociedade capitalista pós-industrial por criar um ser humano
profundamente infeliz e alienado. A análise de Osho imbrica em:
·
A armadilha do desejo externo: o vício e o luxo, que Mandeville via
como benefícios econômicos, são, para Osho, meras distrações externas que impedem o indivíduo de confrontar sua
própria consciência. A sociedade capitalista, ao legitimar a busca incessante
por consumo, mantém o indivíduo em um estado de alienação e dependência de objetos externos.
·
O vício da crença: a busca por riqueza material é vista como análoga à busca
por crenças rígidas: ambos são tentativas de preencher um vazio interior com
algo externo. O foco no "vício" econômico cria um ciclo de
insatisfação que Osho busca quebrar através da transformação interior.
·
Rejeição ao materialismo utilitário: Osho rejeita a métrica de Mandeville
(prosperidade nacional como objetivo máximo). A prosperidade material que vem
do vício não compensa a perda da liberdade
interior e do despertar da
consciência.
Conclusão
Mandeville
desmantelou a moralidade tradicional para justificar o nascimento do sistema capitalista com base no
auto-interesse. Russell e Osho, vivendo sob as consequências desse sistema,
criticaram os resultados: Russell focou na destruição social e na guerra causada pela possessividade,
enquanto Osho focou na destruição
existencial e na alienação causada pela incessante busca por satisfação
material.
MANDEVILLE,
Bernard. A fábula das abelhas: ou vícios privados, benefícios públicos. São
Paulo: Editora Unesp, 2017. 412 p.
OSHO.
Crença, dúvida e fanatismo: é essencial ter algo em que acreditar? São Paulo: Planeta,
2015. 254 p.
RUSSELL,
Bertrand. Por que os homens vão à guerra. São Paulo: Editora Unesp, 2014. 219
p.
sábado, 13 de dezembro de 2025
Críticas às estratégias de dominação: análise em três épocas
Se naquele primeiro momento do texto anterior apresentamos os pontos convergentes entre os pensamentos de nossos três autores. Aqui iremos considerar os rumos distintos de cada um deles nos aspectos da economia e sociedade, da política, da religião, dos modos de vida e dos costumes. Tais distinções surgem na avaliação que cada um faz da natureza e da finalidade desses impulsos não-racionais, refletindo seus respectivos contextos históricos. No que tange a economia e a sociedade precisamos observar o contexto histórico em que estes autores viveram. Daí podemos traçar a realidade de cada época. A perspectiva econômica e social de Mandeville jaz num contexto do século XVIII, cujos princípios estão sobrepostos na defesa implícita do laissez-faire antes de Adam Smith, e um momento da legitimação do luxo da nação hegemônica. Nesse caminho, Mandeville nos apresenta a ideia dos vícios como molas da prosperidade. Pois assim o luxo e o egoísmo são inevitáveis e cruciais para a riqueza nacional na Inglaterra pré-capitalista em ascensão. A moralidade tradicional é um elemento totalmente estéril. Ainda em Mandeville o aspecto da moralidade pública e a religião são, em parte, invenções de governantes e filósofos para domesticar o egoísmo, tornando-o socialmente útil e garantindo a ordem. Sendo a moralidade uma ferramenta ideológica utilizada pelos governos. Para Russell, que reside nas primeiras décadas do século XX em plena primeira guerra mundial, sua crítica pauta-se no imperialismo e no capitalismo industrial que motiva a guerra por recursos e mercados. Portanto, a ênfase deste autor recaí no criativo versus o possesivo. Ou seja, a obsessão pela posse (propriedade, território) leva à guerra. Defende a autodeterminação e o engajamento coletivo (sindicalismo) para equilibrar o indivíduo e o Estado. A religião (e as Igrejas) na visão de Russell frequentemente é cooptada pelo nacionalismo para justificar a guerra, atuando como um impulso a mais para a beligerância. Defende a liberdade de pensamento e o pacifismo. O capitalismo pós-industrial dotado de crítica ao consumismo, à rigidez ideológica da guerra fria e às estruturas de poder organizadas em torno da crença torna-se o contexto ideal para que Osho possa colocar o dedo sobre a ferida. Por isso, sua análise crítica radical paira sobre o sistema de crença, onde o fanatismo impulsionado pela carência psicológica é a base de sistemas religiosos, políticos e econômicos coercitivos. Em sua visão, o foco está na transformação individual para além da crença. Osho pensa a religião estruturada como prisão, assim como a política ideológica, sendo sistemas de crença que sufocam a dúvida pura (que leva ao conhecimento) e criam o fanatismo, que é a raiz do ódio e da guerra. Busca a consciência individual. Resumidamente podemos dizer que Mandeville enxerga esses impulsos (vícios) como o motor indispensável da prosperidade da nação ascendente (otimismo utilitarista). Já Russell e Osho veem a exploração desses mesmos impulsos (possessividade, necessidade de crença) como a causa das maiores tragédias e limitações da humanidade (pessimismo ético-existencial). Portanto o ponto de distinção final é a solução: Mandeville aceita o vício como motor; Russell propõe a promoção de impulsos criativos e uma política mais justa; Osho clama por uma transformação radical da consciência individual (dúvida pura) que transcenda a necessidade de crença em primeiro lugar. Com a finalidade de compreender melhor as estratégias de poder para criar ambientes de dominação contra a sociedade, estes autores tecem críticas ácidas à religião - um instrumento de controle e dominação social. Sendo um ponto de convergência notável, embora com matizes distintas, nas obras de Bernard Mandeville, Bertrand Russell e Osho. Cada autor, em seu respectivo contexto histórico (séculos XVIII, XX e pós-Guerra Fria), desvela como a fé estruturada serve aos propósitos do poder político, social e até mesmo psicológico.
1. Mandeville (século XVIII): a religião como artifício político para a ordem
Na Inglaterra
pré-capitalista do século XVIII, Mandeville, em A Fábula das Abelhas,
não ataca a fé em si, mas questiona o papel da moralidade e da virtude
(frequentemente impostas pela religião) na sociedade.
- Dominação pela Virtude Artificial: Para Mandeville, a religião institucionalizada, juntamente com a filosofia moral, funciona como um artifício político criado por "governantes hábeis" para moldar o comportamento humano. O objetivo não é a salvação da alma, mas sim a pacificação social e o controle dos vícios privados que, em excesso, poderiam desestabilizar o Estado.
- Controle do Egoísmo: a religião domina ao sugerir que o egoísmo desenfreado é pecaminoso, impondo o conceito de sacrifício e moderação. Isso permite que o Estado canalize os impulsos egoístas (vícios) da população de formas que são, paradoxalmente, economicamente produtivas (o luxo gera comércio), enquanto mantém a ordem pública pela promessa de recompensas ou medo de punições divinas.
- Característica da Época: a crítica de Mandeville é cínica e utilitarista, refletindo o nascimento do liberalismo. A religião é vista como uma ferramenta pragmática de engenharia social para a manutenção da Pax Britannica e a ascensão econômica da nação.
- Dominação pela Obediência e Justificação: Russell argumenta que as Igrejas e a moralidade religiosa são frequentemente cooptadas pelo nacionalismo para justificar a guerra. A religião não só prega a obediência cega (a Deus e, por extensão, ao Estado), mas também fornece uma sanção moral e divina para a violência. Ela transforma o assassinato em "sacrifício patriótico" e o ódio ao inimigo em uma "cruzada".
- Supressão da Dúvida: ao exigir crença inabalável e lealdade a dogmas, a religião mina o impulso criativo e o juízo racional individual, que Russell considera essenciais para a paz. A dominação ocorre ao impor uma mentalidade de rebanho, onde a crítica é vista como heresia ou traição.
- Característica da Época: a crítica de Russell é pacifista e humanista, focada na destruição causada pela união do poder religioso e do poder de Estado (militarismo). Ele critica especificamente como o clero de todas as nações beligerantes abençoava suas respectivas tropas, evidenciando a instrumentalização da fé para fins políticos e de guerra.
- Dominação pela Necessidade de Crença: Para Osho, a religião domina ao capitalizar a insegurança fundamental do indivíduo diante da vida e da morte. O ser humano não suporta a dúvida pura (o estado de não-saber) e, por isso, busca refúgio em sistemas prontos de crença (dogmas, ideologias).
- Criação do Fanatismo e da Exclusão: Este sistema de crença estabelece uma dicotomia "nós contra eles" (crentes vs. infiéis), gerando o fanatismo. A dominação se manifesta na coerção social e na violência moral imposta pelo grupo ao indivíduo que ousa duvidar. O indivíduo domina a si mesmo ao aceitar uma resposta fácil em vez da jornada incerta da consciência.
- Característica da Época: A crítica de Osho é radical e anti-institucional. Ele critica a rigidez ideológica tanto da religião quanto da política de seu tempo (capitalismo vs. comunismo). Para ele, toda crença estruturada (seja religiosa ou ideológica) é um mecanismo de dominação que impede a liberdade interior e a iluminação.
2. Russell (século XX): a religião a serviço do nacionalismo e da guerra
Russell, escrevendo em 1915, no auge da Primeira Guerra Mundial (capitalismo industrial, nacionalismo exacerbado), concentra-se em como a religião apoia a ideologia bélica. Em Por que os Homens Vão à Guerra, ele vê a dominação religiosa fundindo-se com a dominação estatal, que tem como consequência supressão da razão e Justificação da Guerra, ou seja, a violência estatal e a obediência cega.
3. Osho (pós-guerra fria): a religião como fuga psicológica e raiz do fanatismo
Osho, atuando no capitalismo pós-industrial (pós-1968, Guerra Fria), aprofunda a crítica ao nível psicológico e existencial. Em Crença, Dúvida e Fanatismo, a dominação não é apenas política, mas reside na própria estrutura da crença humana. Criação do Fanatismo e da Infelicidade Interior são consequêcias da dominação religiosa, que capitaliza a aversão humana à dúvida e à insegurança.
Em suma,
Mandeville vê a dominação religiosa como um mal necessário e útil para a
prosperidade da nação. Russell a vê como uma força perigosa a serviço do
militarismo e da guerra. Osho a vê como uma prisão psicológica e existencial
que impede a realização do potencial humano. Os três concordam que, longe de
ser apenas uma questão de fé individual, a religião é um poderoso mecanismo
de poder e controle social.
MANDEVILLE,
Bernard. A fábula das abelhas: ou vícios privados, benefícios públicos. São
Paulo: Editora Unesp, 2017. 412 p.
OSHO. Crença,
dúvida e fanatismo: é essencial ter algo em que acreditar? São Paulo: Planeta,
2015. 254 p.
RUSSELL,
Bertrand. Por que os homens vão à guerra. São Paulo: Editora Unesp, 2014. 219
p.
Natureza


