domingo, 26 de abril de 2026
Desmistificando o pensamento torto do conservadorsimo neoliberal
sábado, 11 de abril de 2026
A ciência no banco dos réus: o encontro entre Lacey e Novaes
No último artigo discorremos sobre os aspectos básicos que tornam a ciência mais humanitária e necessária ao desenvolvimento social, econômico e tecnológico do planeta. Dando sequência a esse assunto, ainda reforçaremos as ideias de Lacey e Novaes a respeito dos saberes científicos e sua relação com um mundo onde a inovação técnica frequentemente atropela a reflexão ética, duas obras fundamentais se encontram no centro de um debate urgente sobre o futuro da civilização: Valores e Atividade Científica 2, de Hugo Lacey, e a coletânea O Homem-Máquina, organizada por Adauto Novaes. Embora possuam pontos de partida distintos, a convergência entre eles desenha um mapa crítico sobre como a ciência moderna molda - e, por vezes, deforma - a nossa realidade. Abaixo, exploramos os pontos de intersecção onde o pensamento desses autores se funde em um alerta necessário.
O Fim do
Mito da Neutralidade
A maior convergência entre as obras é o ataque frontal à ideia de que a ciência é "neutra". Para Lacey, a escolha de como pesquisar já carrega um valor. Ele argumenta que a ciência moderna prioriza "estratégias descontextualizadas", voltadas para o controle e a manipulação da natureza. Na visão de Novaes e seus colaboradores, essa mesma ciência "neutra" é a que permite a manipulação do corpo humano como se fosse apenas matéria bruta, ignorando as dimensões sociais e espirituais do ser. Ambos concordam: não existe ciência sem ideologia.
A Redução
do Humano ao Objeto
Os
dois livros denunciam um processo de objetificação:
· Em
Lacey: A natureza e os
sistemas sociais são reduzidos a variáveis que podem ser controladas por leis
matemáticas e físicas.
· Em
Novaes: O ser humano é
reduzido a uma "máquina". No livro organizado por Novaes, discute-se
como a biotecnologia e a genética tratam o corpo como um conjunto de peças
substituíveis ou dados a serem otimizados.
A
convergência aqui é clara: a ciência contemporânea tende a desconsiderar a
"autonomia" - seja das sementes na agroecologia (tema caro a Lacey)
ou da vontade própria do indivíduo sobre seu organismo (foco de Novaes).
O Império
do Controle e do Mercado
Outro
ponto de união é a identificação de quem realmente dita o ritmo do progresso.
Lacey aponta que a pesquisa científica está hoje quase totalmente submetida aos
valores do capital e do mercado, que buscam lucros rápidos através da
inovação tecnológica.
Essa tese é amplificada em O Homem-Máquina, onde os autores mostram como a manipulação do corpo (seja através de fármacos, cirurgias ou implantes) transformou a vida humana em um produto. A ciência deixa de ser um instrumento de libertação para se tornar uma ferramenta de dominação biopolítica. Dessa forma podemos sintentizar tais convergências às quais os autores proprõem numa tabela bastante didática e fácil de compreender, que segue logo abaixo:
|
Tema Central |
Visão de Lacey |
Visão de Novaes (Coletânea) |
|
Poder |
A ciência serve ao controle da natureza e ao lucro. |
A ciência serve ao controle dos corpos e à produtividade. |
|
Metodologia |
Mecanicista e descontextualizada. |
Fragmentada e tecnicista. |
|
Ética |
Deve ser reintroduzida no centro da prática científica. |
Deve ser o limite contra a desumanização técnica. |
A leitura cruzada de Lacey e Novaes não é um convite ao abandono da ciência, mas sim à sua redemocratização. O que exige uma nova postura científica. Pois, enquanto Lacey pede uma ciência plural que respeite os contextos sociais, os autores de Novaes pedem uma ciência que não "desmonte" o humano em busca de uma perfeição mecânica ilusória. A convergência final é um chamado à responsabilidade: o cientista não pode mais se esconder atrás de números; ele deve responder pelo mundo que sua técnica está criando.
No entanto a ciência ainda segue sob o tacão do capital e para não nos deixar mentir, as luzes convergentes de Lacey e Novaes refletem tal pensamento. Portanto, ao esmiurçarmos as obras destes autores surge uma convergência contundente surge que denúncia como a ciência moderna se tornou uma engrenagem fundamental do modelo capitalista. Então, para ambos, a ciência não é uma entidade isolada em uma torre de marfim, mas um instrumento moldado pela lógica da acumulação, do lucro e do controle social.
A Ciência
como Força Produtiva
A
primeira grande convergência reside na compreensão de que a ciência abandonou o
ideal de "conhecimento pelo conhecimento" para se tornar uma ferramenta
de produção.
· Lacey demonstra que o modelo de "ciência
moderna" privilegia quase exclusivamente pesquisas que geram tecnologias
patenteáveis e controle sobre a natureza. Isso ocorre porque tais pesquisas
atendem aos interesses das corporações que buscam lucros imediatos.
· Novaes, através dos ensaios de sua coletânea,
mostra como essa mesma lógica entra "pele adentro". O corpo humano
deixa de ser uma entidade sagrada ou biopsicossocial para se tornar um capital
biológico. A ciência que manipula o corpo (genética, farmacologia) serve
para otimizar o trabalhador e o consumidor, tornando-os mais produtivos e
dependentes do mercado.
A
Estratégia de Controle e a Mercantilização
Ambos
os autores identificam que a aliança entre ciência e capitalismo gera uma
obsessão pelo controle total.
· No
campo (Lacey): O autor
cita o exemplo das sementes transgênicas. A ciência é usada para criar sementes
que não se reproduzem ou que dependem de agrotóxicos específicos. Aqui, o
conhecimento científico é usado para "aprisionar" a agricultura ao mercado financeiro, destruindo práticas tradicionais.
· No
corpo (Novaes): A
ciência médica e biotecnológica foca na fragmentação do corpo em partes
comercializáveis. A saúde torna-se um produto de prateleira. A convergência com
Lacey é clara: o objetivo não é a autonomia do sujeito (ou do agricultor), mas
a dependência de um sistema técnico-capitalista.
O
Silenciamento de Alternativas
Lacey e Novaes convergem ao apontar que o modelo capitalista impõe um "pensamento único" na ciência:
- Marginalização de Saberes: Lacey
aponta que formas de ciência que não geram lucro (como a agroecologia) são
desqualificadas como "não científicas" ou irrelevantes.
- Desumanização: Novaes alerta que, ao focar apenas no que é tecnicamente possível e economicamente rentável, a ciência ignora as questões éticas e o sofrimento humano, tratando o indivíduo como uma máquina que precisa de manutenção constante.
Podemos sintetizar essa relação entre ciência e capital num quadro em que os pontos convergentes podem ser estabelecidos em cinco aspectos distintos:
|
Ponto de Convergência |
O Impacto do Modelo Capitalista |
|
Finalidade |
A pesquisa é direcionada para o que gera lucro e
patentes, não para o bem-estar social amplo. |
|
Visão de Mundo |
A natureza (Lacey) e o corpo (Novaes) são vistos como recursos
exploráveis e máquinas a serem otimizadas. |
|
Poder |
O conhecimento concentra-se nas mãos de grandes
corporações (agroindústria, farmacêuticas, tech). |
|
Ética |
A ética é substituída pela eficiência técnica e
pela viabilidade econômica. |
Assim podemos dizer que o desafio da emancipação da ciência perpassa pela convergência entre os dois autores; é nos fornece um diagnóstico sombrio, porém necessário: sob a égide do capitalismo, a ciência corre o risco de deixar de ser um caminho para a verdade e passar a ser um manual de instruções para a dominação.Enquanto Lacey propõe uma ciência plural que incorpore valores sociais e ecológicos, as reflexões de Novaes pedem um retorno ao humanismo, para que a técnica não acabe por devorar o seu criador. Em suma, ambos defendem que a ciência precisa ser resgatada das mãos do mercado para voltar a servir à vida em sua plenitude. O que esses dois livros nos dizem, em uníssono, é que a luta por uma ciência diferente é, essencialmente, a luta por um modelo de sociedade diferente.
sábado, 4 de abril de 2026
Entre a ética e a técnica: o dilema da ciência contemporânea em Lacey e Novaes
A evolução da humanidade durante os milênios é a prova cabal de
que o ser humano tornou-se capaz de contornar seus problemas, e com isso criar
soluções inteligentes para resolver suas necessidades. A invenção da roda,
do arado, a descoberta do fogo na pré-história até a inteligência artificial, a
nanotecnologia, a biotecnologia em nossos dias atuais mostra a importância da ciência na
evolução da sociedade. Por outro lado, quanto essa revolução científica de fato
beneficiou nós, seres humanos. Portanto, cabe aqui neste artigo discutirmos
pontos centrais a respeito da imparcialidade, da neutralidade e autonomia da
ciência. Enfim, a quem serve o saber e o fazer científico. Pois, é isso que
iremos debater neste artigo, sob os holofotes de Hugo Lacey junto a obra de
Adauto Novaes - Homem máquina.
No cenário atual, onde a biotecnologia e a
inteligência artificial avançam em ritmo frenético, a pergunta que ecoa nos
centros de pesquisa e na filosofia não é mais apenas "o que podemos
fazer?", mas sim "o que devemos fazer?". Este embate
ético é o fio condutor que une duas obras fundamentais para compreender a
ciência moderna: Valores e Atividade Científica 2, de Hugo Lacey,
e O Homem-Máquina: A Ciência Manipula o Corpo, organizado por Adauto
Novaes.
Embora partam de perspectivas distintas, ambos os
autores convergem para uma crítica necessária à suposta
"neutralidade" do progresso técnico-científico.
A Ciência
Além do Laboratório: Hugo Lacey
Em
sua obra, o filósofo australiano Hugo Lacey desafia a ideia de que a ciência é
uma busca pura e desinteressada pela verdade. Para Lacey, a atividade
científica está intrinsecamente ligada a valores.
Os Três Tipos de Valores
Lacey
argumenta que a ciência é influenciada por uma tríade de valores:
- Cognitivos: Critérios de verdade, como consistência e poder preditivo.
- Éticos: O impacto das descobertas na vida humana e no meio ambiente.
- Sociais/Políticos: Quem financia a pesquisa e quais interesses (militares, de mercado ou sociais) ela serve.
O autor propõe a Pluralidade Metodológica, sugerindo que a ciência não deve focar apenas em estratégias descontextualizadas (que buscam o controle da natureza), mas também em estratégias que considerem o contexto social e ecológico, como a agroecologia.
O Corpo sob o
Bisturi da Razão: Adauto Novaes
Se
Lacey foca na estrutura da pesquisa, a coletânea organizada por Adauto Novaes, O
Homem-Máquina, mergulha nas consequências antropológicas dessa ciência. O
livro explora como a visão mecanicista — que vê o corpo humano como uma
engrenagem ou um conjunto de dados — transformou nossa relação com a vida.
A Fragmentação do Humano
Os
ensaios presentes na obra de Novaes alertam para o risco da manipulação
extrema. Ao tratar o corpo como um objeto puramente biológico e técnico, a
ciência corre o risco de:
- Anular a subjetividade e a história individual.
- Transformar a saúde em um produto de consumo.
- Criar uma "eugenia moderna" através da edição genética e da protetização sem limites éticos claros.
"A
ciência que manipula o corpo é a mesma que, muitas vezes, esquece a dignidade
do homem que o habita."
O Ponto de
Encontro: A Necessidade de Limites
O
diálogo entre Lacey e as reflexões de Novaes revela uma urgência: a
democratização do conhecimento científico.
|
Ponto de Comparação |
Hugo Lacey |
Adauto Novaes (Coletânea) |
|
Foco
Principal |
Metodologia
e Valores |
Antropologia
e Biopoder |
|
Crítica
Central |
O
predomínio da estratégia de controle |
A
visão do homem como máquina funcional |
|
Solução
Proposta |
Ciência
plural e socialmente responsável |
Reflexão
filosófica sobre os limites da técnica |
Uma Ciência
para Quem?
A
leitura conjunta dessas obras sugere que a ciência não é um destino inevitável,
mas uma escolha política e ética. Enquanto Lacey nos fornece as
ferramentas teóricas para identificar quais valores guiam nossas pesquisas, os
autores de Novaes nos mostram o que está em jogo: a nossa própria definição de
humanidade.
Para
o leitor contemporâneo, a mensagem é clara: o progresso técnico só terá valor
se estiver a serviço da emancipação humana e do equilíbrio planetário, e não
apenas da eficiência mecânica ou do lucro desenfreado.
domingo, 8 de março de 2026
A ideologia torta do capital: contradições e erros
A contemporaneidade exige de nós uma compreensão mais aprofundada das mudanças do mundo, portanto entender a dinâmica do capital torna-se essencial para que de fato possamos alinhar pensamentos e construir críticas minimamente factíveis. Não cabe mais na atualidade considerações pueris - digamos infatilizadas - que nós levam a decisões erradas e a mera opinião. É preciso enxergar no macrocosmo as paulatinas transformações sociais, políticas e econômicas nesse pequeno intervalo do fim do século XX e o início do século XXI. Do ponto de vista histórico as grandes transições foram bastante perceptivas, ao apontar-se para o desenvolvimento e inovações tecnológicas, principalmente no âmbito da computação quãntica, Inteligência Artificial, computação em nuvem e Big Data. Trata-se de uma nova revolução industrial, ou seja - a indústria sem o operariado - cuja a máquina torna-se o elemento central. No entanto, há um preço muito alto a se pagar, valor intagível, que atinge diretamente toda sociedade. Dada a consequência nefasta ao meio ambiente e consumo energético. Além de alterar a subjetividade humana por completo. Assim, somos jogados para dentro um sistema maquinal, em que o ego é triturado e nossa personalidade fica reduzida à pó. Somos apenas engrenagens e submetidos à vontade da maquinaria, verdadeiros homem-máquina. Não nos cabe aqui falar mais em produção e mercadoria. Agora, o humano é o produto da vontade da máquina. Entretanto, há aqueles que erroneamente insistem em afirmar que a velha indústria prevalece, pensam acreditar num capital produtivo de mercadorias e num amplo mercado consumidor. Talvez, por convições, valores ou mera ingenuidade (sendo bem menos improvável) essas pessoas - em sua maioria burgueses sem burgo - ainda pregam o mote da meritocracia, do nascer do nada, do trabalhar duro e atingir a riqueza. Elas simplesmente distorcem a realidade, criam esperanças em uopias. Enfim, qual o porquê deste assunto? qual a relevância dele neste texto? Bem, meus caros leitores, precisamos entender que não estamos mais dentro de um cenário dos anos 70, cujo a estabilidade política e econômica fazia-se presente no modelo da social-democracia. Os tempos são outros, nada mais tem a solidez de antes. Quem detém o poder é o mercado financeiro, onde dinheiro se traduz em mais dinheiro. Produtos e mercadorias são secundários. As empresas não tem mais um rosto, apenas acionistas e são administrada por um CEO. Por isso, viemos aqui tecer algumas críticas aos que ainda procuram referências históricas não mais cabíveis na atualidade. Com tais mudanças, pode-se dizer que a produção intelectual não está mais atrelada às atividades e tarefas rotineiras. Isso é um fato, dado que o capitalismo cognitivo exige de todos nós a condição de trabalhadores intelectuais subservientes às plataformas das Big Techs, daí retiram o mais valor social. Afinal, foi o que Marx previu como "general intelect". Pois qualquer afirmação generalizada da sociedade em relação a proteção daqueles ditos vagabundos (os não trabalhadores) soa como pura hipocrisia. Assim, deixo em tom de pergunta:proteger os mais carentes, moradores de rua, pessoas em situação de miséria é alimentar vagabundos? Há um grande equívoco nesse sentido, sendo qua a função do Estado é proteger quem mais precisa, portanto, as políticas sociais e de renda miníma precisam ser colocadas nas agendas em favor dos mais vulneráveis.
Um outro erro está na afirmação de que a desigualdade financeira deve-se à desigualdade de educação. Existe aí um desconhecimento da realidade social e econômica, nem sempre ou rara vezes a educação vem como um elemento base para a desigualdade social. A discrepância está pontuada na diferença de renda entre ricos e pobres. A educação em si, ou, a falta dela não é causa dessa desigualdade. A real causa perpetua-se na má distribuição e na concetração da riqueza nas mãos de poucos. Elevar o nível educacional contribui e mutio para que haja oportunidades de melhores empregos e salários, mas não define a desigualdade financeira. Criou-se a ilusão que para gerar lucro basta adquirir conhecimento e estar conectado a uma boa rede de relacionamento. Isto é desconsiderar a diferença entre lucro e conhecimento, trata-se de uma visão simplista e rasa. Bem, o lucro vem do mais-valor e da produção do trabalho, isso na exegese do capitalismo produtivo fordista. Ao colocarmos em termos atuais, da qual impera o capitalismo financeiro, o lucro está nos produtos do mercado de papéis (ações, títulos derivativos). É a acumulação de capital por meio do dinheiro produzindo mais dinheiro, e sem o elemento mercadoria tangível. Logo, assumir que o lucro vincula-se à aquisição de conhecimento e conexões numa rede de relacionamento, é não entender a essência do nosso capitalismo atual. Da mesma forma, quando julga-se que grande parte do ensino e aprendizagem hoje está no ambiente corporativo. Temos aí um erro crasso ou a pura desonestidade intelectual cometida por esses defensores do capitalismo. Em primeiro lugar, as empresas transformaram-se em não-lugares e sim em ambientes produtores de pápeis intangíveis, um lugar sem rosto. Com já diziamos antes, as empresas em sua maioria não tem mais donos- apenas acionistas. Elas vivem de compra e venda de títulos, ações, debentures e dívidas. Por issosão incapazes de dar conta de uma educação formal ou profissional adequada e voltada para sociedade. Assim, acrescentamos que o ensino vem da escola e da educação regular. As pessoas adquirem formação e conhecimento solído no ambiente físico da sala de aula,com a presença de professores bem formados e capacitados, num ambiente crítico e de debates de ideias. Querer mercantilizar o ensino no âmbito organizacional trata-se de uma estratégia para alienar o trabalhador e colocá-lo numa posição de passividade diante das lutas trabalhistas. Esses mesmos donos dos meios de produção apontam o ensino corporativo uma maneira de baratear a educação. Fala-se de uma escola barata. Aí devemos sim refletir e criticar tal solução. Para começar, a escola nunca foi barata e jamais poderia ser. Afinal, educação não tem preço e por isso deve ser pública. Pois, não existem recursos financeiros que possam oferecerum ensino de qualidade. Então, a melhor escola é aquela oferecida ao público de forma gratuita (melhor, proveniente dos impostos), cujo ensino seja laico e pautada na ciência.
Ainda tentam justificar os lucros de qualquer modo. Dizem eles: "nada no mundo funciona sem lucro, sem lucro estamos fadados a bancarrota e sem lucro não há empresa". Tudo se resolve apenas atravês do capitalismo. Será? Há um enorme equívoco nisso tudo, já sabe-se que o capitalismo não resolveu o problema da desigualdade social e econômica,ao contrário, gerou um abismo ainda maior entre ricos e pobres. No momento, em que escrevo tais palavras, não apareceu nenhum outro sistema que viesse de fato a substituí-lo. Outros modelos como socialsmo e suas variadas matizes apresentaram sua derroccada, transformando-se em regimes totalitários e ditatoriais. Não resolvendo a questão da pobreza. Todavia, os ideários do regime capitalista nem de perto foi capaz de debelar as grandes diferenças sociais e econômicas, cada vez mais gritantes. Talvez, a volta de uma social-democracia; onde o Estado junto a iniciativa privada; possa mitigar tais problemas. Não há como fugir, o pensamento neoliberal instaurou-se em quase todo planeta decretando qualquer possibilidade de um Estado de bem-estar social. O neoliberalismo apresentou-se na contemporaneidade com uma força descomunal e suas premissas pairam sobre as mentes fazendo-nos crer na capacidade da remuneração variável, meritocracia, onde todos nós nos tornamos empreendedores, capitalistas, mesmo trabalhadores. Criou-se avisão míope de que todos possuem as mesmas chances, pura ilusão daqueles que não enxergam o capitalismo. Sejamos claro e objetivo: o trabalhador vende para o capitalista sua força de trabalho, em troca de um salário. Na outra ponta, tem-se o dono dos meio de produção. Este detêm parte do capital e do lucro (mas-valia em cima do trabalhador). Na atualidade do capital cognitivo o discurso faz-se em torno da meritocracia para corroborar a desigualdade social e econômica. A meritocracia esconde-se num discurso que busca antigir objetivos e metas de vida, fazendo transparecer que todos gazam da mesmas opostunidades. Está exposta a grande mentira que inventaram. Uma falácia proposta pelos donos dos meios de produção para justificar as desigualdades vigentes.
Dentro dessa perspectiva meritocrática fala-se em justiça, porém com um certo viés de que deve-se tratar as pessoas de forma desigual, ao passo que a injustiça teria que tratá-las de maneira igual. A princípio fica aquela ar estranho, um tanto confuso. Mas a intenção está justamente em gerar caos e confusão. Diríamos numa tentativa de despolitizar a sociedade. Trata-se do mais puro senso-comum e assim subverter conceitos. A ideia correta pauta-se na equidade, ou seja, reconhecer que todos deve ser respeitados em suas diferenças. A justiça tem função niveladora em que todos são iguais perante a lei e sem qualquer distinção. Até aí tudo certo. No entanto, a equidade vem oferecer equilíbrio no entorno das diferenças. Mais uma vez tentam deturpar os conceitos, e o fazem por meio de frases de efeito. Tais frases são jogadas ao vento, podem parecer inofensivas e não deletérias. Mas, existe por trás disso tudo um objetivo, que é ganhar a atenção e a mente das pessoas. Quando se coloca uma frase como: "o que produz dinheiro é conhecimento, pessoas mais educadas são mais produtivas". Percebe-se uma confusão conceitual proposital daquilo que é realmente o conhecimento, a produção, o dinheiro e a educação. Para começar, o conhecimento não tem o objetivo de produzir dinheiro, e nem de perto as pessoas mais educadas são as mais produtivas. O papel da educação está no aprendizado, na cultura e na aquisição de conhecimento, e não na produção de dinheiro. O conhecimento serve de instrumento para que possamos compreender nosso mundo, realizar ações en torno de nossa comunidade. O conhecimeto tem valor quando coletivo para beneficiar a ciência, a cultura e transformar a sociedade. A relação dinheiro-conhecimento é bastante superficial e não explica a profundidade do aprender. Vemos o quanto frases feitas ou soltas ao vento não nos permitem aprofundar na diversidade do pensamento. Por isso, a leitura crítica, o pensar consciente e descontruir ideias são práticas politizadoras e nos fazem caminhar por trilhas estreitas que jamais consideramos atravessar. O filosófo Plutarco numa era remota disse a seguinte frase: "O descanso é doce tempero do trabalho". Enfim, o contexto da frase nos dias atuais nem de longe tem o mesmo valor. Assim como, os símbolos, totens e objetos de outras eras podem assumir nos dias hoje outro signiifcado. Portanto, o perigo de frases soltas, sem contexto não gera qualquer conhecimento ou aprendizado e muito menos oferece sabedoria. São apenas palavras ditas sem profundidade e qualquer interpretação torna-se enganosa. Uma frase só adquire valor intríseco num contexto dentro de paragráfos ou numa obra lida.
sábado, 7 de fevereiro de 2026
A farsa do mercado - a corrupção do capitalismo financeiro
Diante das grandes repercussões políticas e econômicas que tomam conta da mídia nacional e abalam todo o país, não poderíamos deixar falar aqui a respeito do caso do Banco Master. Até mesmo por eu ter investido em um CDB deles que prometiam retorno de 120% do CDI, que com muito custo fui ressarcido pelo Fundo Garantidor de Crédito (FGC). Mas infelizmente, tem uma grande parcela de pessoas que investiram seja diretamente, ou via fundos de investimentos que não irão receber facilmente os valores. Sim, podem dizer que somos iludidos por altos retornos e ganhos fáceis, ou seja, visamos o lucro. Isso é perfeitamente normal dentro de uma economia capitalista. Principalmente no atual capitalismo financeiro, em que o dinheiro virou mercadoria - mercadoria intangível (números numa tela de computador). A era do dinheiro virtual, cujo juro é a forma de remuneração pelo empréstimo de valores monetários. Trara-se de um sistema baseado na confiança, daí o termo fiduciário (fé, crença, acreditar no outro). Interessante observar que tais palavras são fortemente presentes nos dogmas religiosos. Parece que dinheiro e religião entrelaçaram-se e comungam o mesmo objetivo. Alguns de meus leitores podem dizer: isso é paranoia, que é apenas mera coincidência e coisas do tipo. Se formos buscar nos fatos históricos, algumas religiões dissidentes do catolicismo eram bastante tolerantes a usura, nada mais que empréstimos a juros. Essas religiões preconizaram os ideais burgueses e capitalistas. Digo isso, pelo fato de que a história percorre ciclos e segue uma mesma lógica, no entanto o espaço e o tempo muitas vezes se diferem. Aonde quero chegar diante desse pensamento? Bem, a resposta está justamente aqui, no Brasil, em pleno século XXI. Porém, precisamos fazer um esforço intelectual e pontuar alguns fatos anteriores para entender a realidade atual dos acontecimentos. A força capitalista propulsionada pelo motor da indústria, produção e o consumo de bens em meados dos anos 70 do século XX inicia sua derrocada. Ocorre o processo de desindustrialização e modelo fordista perde força em quase todo o mundo. Os sindicatos, as associações e as lutas dos trabalhadores são minadas, assim como a grande indústria fabril. O capitalismo fordista de produção deixa de ser o modelo atraente e abre espaço para serviços e a financeirização. Os bancos tornam-se os imperadores do mercado. As finanças e o mercado financeiro determinam como será o jogo do poder. Não interessa mais produzir e vender da maneira antiga. O mote é inserir o consumidor no jogo do crédito e débito, ou seja, a mercadoria é só uma isca para atrair futuros devedores, e deles cobrar juros. A era do homem endividado. Aquele que não possui empréstimos e dívidas deixa de ser atraente ao mercado. Com tudo isso, a indústria ganha com a bancarização e emissão de títulos creditícios. Vejam bem, toda essa mudança atinge desde de indivíduos à países. Pois, grandes nações passam a contrair empréstimos à juros devido a desindustrialização e caírem na ideologia neoliberal, ficam então sujeitas aos ditames de países credores e grandes conglomerados financeiros. As consequências desse neoliberalismo foram avassaladoras, como as crises constantes e abalo na soberania de muitos países que impactam diretamente na democracia. As privatizações e a austeridade nos gastos públicos marcam bem essa época no Brasil, no final dos anos 90 com o governo de Fernando Henrique Cardoso. A implementação do ideal neoliberal teve um custo enorme para o país, privatizações a toque de caixa, aumento do desemprego, mesmo com baixa inflação a pobreza extrema prevalecia. A distribuição da riqueza situava-se em níveis elevados. A elite ainda possuía grande parte da riqueza produzida em suas mãos. Nos bastidores da política e da economia a usura imperava e fazia com que as fortunas crescessem ainda mais. Os grandes bancos tinham lucros absurdos. Para captar mais dinheiro e ampliar as linhas de créditos ás famílias, às empresas e aos pequenos negócios entrava em cena a criatividade financeira do mercado. O mix de produtos financeiros - assim como a variabilidade de espécies de plantas e animais dentro da biologia - caminhavam numa diversidade assustadora. Os bancos, corretoras, financeiras e gestoras de investimentos, além das casas de análises locupletavam-se numa plêiade de entes financeiras. Muitas delas sem qualquer real lastro de capital, no intuito apenas de captar dinheiro de investidores com a promessa de altos rendimentos. Muitos dos produtos financeiros lastreados por essas entidades eram compostos de títulos e ativos denominados podres, com muito pouco valor real e artificialmente valorizado. Um exemplo claro, são os subprimes norte-americano, dividas imobiliárias (hipotecas) que eram vendidos aos pequenos investidores sem qualquer clareza em relação ao risco de crédito e capacidade do devedor em honrar a dívida. É importante observamos com clareza, que o capitalismo ao buscar novas maneiras de acumular-se e crescer não se importa com o modelo econômico e nem mesmo com o seu detentor. Por isso o dinheiro perpassa por diferentes de mãos e determina quem o comandará. Na atualidade, o capital conforma-se no modelo do dinheiro produzindo mais dinheiro sem passar pelo crivo da mercadoria, tornou-se um fim em si mesmo. Daí nasce o capitalismo financeiro e com ele toda uma espécie de produtos para o gosto do freguês, da qual citamos logo acima. Pois, é nesse instante que poderemos analisar detidamente os casos mais absurdos e bizarros de grupos ou indivíduos que fizeram desta vertente de capitalismo financeiro para gerar fortunas e se aproveitar do poder. Especificamente, o caso do Banco Master (claro que casos anteriores e outros futuros adentraram e adentrarão as páginas policiais e da mídia, assim como os meios políticos) mostra-se mais recente e gerou todo um burburinho nos corredores de Brasília. Não há nada demais em adquirir títulos de créditos privados como CDBs, LCIs, LCAs, FDICs e outros produtos financeiros. Tratam-se, a grosso modo, de compras de dívidas, em que empresas tomam empréstimos e assim pagam juros conforme o risco. Quanto maior o risco, maior os juros. Ai que entra a mágica do Banco Master, com seu truque de ilusionismo financeiro, ao emitir títulos de créditos privados com promessa de juros acima do 120% do CDI. O Banco captou dos investidores bilhões em reais, mas sem condições reais honrar com os credores. A verdadeira questão é que o Master não possuía se quer patrimônio e muito menos capital suficiente para arcar com prejuízos. Enquanto isso, o seu dono vivia uma vida luxuosa e de aparências, gastando o dinheiro dos investidores. Bem próximo ao esquema das pirâmides, só que com aval político. O mais interessante dessa história toda é o que há por trás de tudo. O dono do Banco Master tem ligações com a igreja a qual pertence um deputado da direita e o seu pastor está ligado diretamente ao banqueiro (laços familiares). Uma forte rede que interliga política, igreja e capital financeiro. O Banco Master, assim como outros negócios bilionários demonstra a incapacidade de grandes empreendimentos de andarem sozinhos, e dependem fortemente de aportes do Estado e subsídios estatais. Não que tais subsídios e financiamentos sejam ilegais ou imorais. Portanto, cabe aos governos o dever de cobrar transparência na gestão destes recursos emprestados e fiscalizá-los. Enfim, trata-se de dinheiro que sai do bolso da população através de impostos. Infelizmente, escândalos financeiros como estes já não nenhuma novidade no mundo corporativo. Exemplos emblemáticos no Brasil e no mundo tornaram-se corriqueiros, porém um prato cheio para a mídia. Alguns vão lembrar-se do caso Coroa Brastel em 1983, em que letras de câmbio frias foram jorradas no mercado e sem qualquer lastro, dando enormes prejuízos aos pequenos investidores. Muitos outros casos como estes tiveram destaque na página principal dos jornais. Banco Nacional (1995), Banco Econômico (1995), Bamerindus (1997) - que não estava numa boa, Banco Marka (1999), FonteCindam (1999) que foram socorridos pelo Banco Central e outros exemplificam o descontrole na emissão e fiscalização de ativos financeiros, apesar da forte regulamentação por parte dos órgãos monetários. Talvez uma grande parcela da sociedade enxerga isso como algo natural, e inconscientemente até defenda tal atitude. Como se a corrupção por parte das empresas fosse uma consequência dos atos provocados pelos governo e entidades estatais. No entanto, tal suposição é errônea - dado que muitos bancos e empresas dependem de aportes e financiamentos estatais como o BNDES para manter-se. O Banco Master não fugiu à regra - e sim - houve por parte do empresário claras tentativas de aproximar-se de pessoas do Estado para obter vantagens e ganhos. Mais uma vez os vícios privados tentam alinhar dos vícios públicos. No final de tudo, os únicos perdedores - mais uma vez - são os trabalhadores cuja previdência está atrelada a estes fundos mal geridos; o pequeno investidor que acredita que terá algum rendimento com esses títulos (podres) e a sociedade em geral que assiste incrédulo toda essa farsa montada por apenas interesses espúrios.
sábado, 24 de janeiro de 2026
Entre periferias e prensas: como a mídia costura a narrativa da violência em duas épocas e espaços.
Os
romances-reportagem e ensaios sobre criminalidade costumam dizer tanto sobre os
lugares que descrevem quanto sobre os instrumentos que os representam. Lidos
lado a lado, Cabeça de Porco, de Celso Athayde e MV Bill, e A tinta e o sangue,
de Dominique Kalifa, oferecem uma vigília comparativa: um mapeamento
espaço-temporal sobre como a violência e o crime são narrados, vendidos e
instrumentalizados pela mídia — e como essas narrativas moldam políticas,
estigmas e práticas cotidianas de controle social.
Dois mundos, um mesmo mecanismo:
A obra
de Kalifa recupera os mecanismos do sensacionalismo policial na França do
século XIX: a emergência da imprensa popular — jornais baratos, reportagens
melodramáticas, ilustrações e “casos” que prendiam leitores — criou uma
indústria de notícias criminais que transformava crimes em espetáculos. A pena
e a gravura compunham imagens fortes sobre marginalidade, monstro e perigo
urbanizados, deslocando debates sobre desigualdade para as páginas de
entretenimento e alimentando pânico moral.
Cabeça
de Porco, situado nas periferias urbanas brasileiras contemporâneas, traz o
contraponto em um contexto tecnológico e sócio-histórico diferente: a violência
é filmada, viralizada, transmitida por telejornais e redes sociais; as favelas
são simultaneamente território real e produto midiático. Athayde e MV Bill
mostram como a imagem da “boca de fumo”, do “traficante” e do “criminoso” se
incorpora no discurso público e termina por orientar políticas de segurança,
coopta narrativas locais e desincentiva leituras estruturais da pobreza.
Espaço:
periferia vs. centro e a geografia das representações:
Kalifa
descreve um centro urbano em plena transformação industrial, onde a
criminalidade ganha foco porque perturba a ordem burguesa e porque vende jornais.
O “espaço” aqui é a cidade em expansão: a vitrine do capitalismo nascente que
precisa explicar (e conter) a desigualdade. Em contraste, Cabeça de Porco
mostra periferias que a mídia contemporânea insiste em manter como “fora” do
centro — zonas de exceção onde a violência é tratada como fenômeno cultural ou
patológico, mais que como resultado de exclusão socioeconômica. A imprensa e as
câmeras reconstroem esses territórios como ameaças permanentes, demarcando
fronteiras simbólicas entre “nós” e “eles”.
Temporalidade: do papel à tela:
A
passagem do século XIX ao século XXI acompanha uma transformação técnica
decisiva. No modelo de Kalifa, o jornal impresso, a notícia e fixa a imagem do
criminoso num ciclo relativamente previsível: rumor — reportagem — ilustração —
julgamento simbólico. No Brasil contemporâneo, as televisões, os portais
noticiosos e as redes sociais aceleram e fragmentam esse ciclo: imagens em
vídeo, áudios, transmissões ao vivo e comentários em tempo real potencializam a
circulação, mas também pulverizam a responsabilidade editorial. A velocidade
amplia a visibilidade do conflito, transforma indivíduos em virais e
intensifica decisões políticas e operações policiais em reação a manchetes,
trending topics e cliques.
A construção do inimigo e seus efeitos
práticos:
Ambos
os livros mostram que a mídia não é apenas observadora; ela ativa mecanismos
legais, econômicos e simbólicos. Kalifa demonstra como a imprensa do século XIX
contribuiu para criar um tipo de figura criminosa que justificava câmaras
inquisitoriais e leis novas; Athayde e MV Bill expõem como a cobertura
contemporânea das favelas legitima operações de polícia militar, projetos de
encarceramento e estigmatização institucional — e como essas intervenções
retroalimentam a violência que elas dizem combater.
Importância
dos atores locais e das vozes subalternas:
Uma
diferença crucial é a presença (em Cabeça de Porco) de atores locais que
resistem à única narrativa: lideranças comunitárias, educadores, artistas e
ex-detentos que tentam redescrever a periferia. Já na análise de Kalifa, a
imprensa massiva raramente incorpora vozes da periferia operária do século XIX
— o “outro” é narrado por quem detém a caneta. Hoje, embora as mídias sociais
possam dar voz direta a moradores, essas vozes competem num ambiente saturado
onde imagens sensacionais continuam dominando a agenda.
Mídia como mercado e como máquina de
moralidade:
Ambos
os contextos confirmam uma constatação: notícias sobre crime são mercadoria. No
século XIX, vender jornais exigia casos chocantes; hoje, cliques e audiência
ditam manchetes. Essa relação mercado-moralidade transforma crime em espetáculo
e simplifica causas complexas — o resultado é uma opinião pública inclinada a
respostas punitivas imediatas, políticas de exceção e universalização do medo.
Narrativas que precisam ser desconstruídas:
A
correlação entre Cabeça de Porco e A tinta e o sangue mostram que, apesar das
diferenças de época e tecnologia, o núcleo do problema é semelhante: a mídia
contribui decisivamente para definir quem é considerado criminoso e que
respostas a sociedade adota. Ler os dois em diálogo permite perceber padrões - produção
do pânico, mercantilização do sofrimento, invisibilização de estruturas - e
pressiona por uma imprensa que contextualize, pluralize vozes e recuse a
simplificação sensacionalista. Para além do diagnóstico, resta um convite:
transformar a agenda pública, criando espaços midiáticos e políticos que
privilegiem explicações estruturais, reparação social e políticas de segurança
orientadas por direitos, e não apenas por imagens que vendem.
A Violência Midiatizada: Da Paris do
Século XIX às Favelas Cariocas do Século XXI
A
violência sempre existiu; a forma como a contamos, porém, nunca foi neutra.
Entre Paris e Rio, entre o século XIX e o XXI, a mídia permanece como
protagonista nessa história - para o bem ou para o mal.
Como a
construção narrativa do crime atravessa séculos e fronteiras, revelando padrões
midiáticos que transformam a violência em espetáculo
Separados
por mais de um século e um oceano, dois livros aparentemente distintos revelam
uma inquietante continuidade histórica: a relação simbiótica entre violência,
criminalidade e mídia. "A Tinta e o Sangue", do historiador francês
Dominique Kalifa, e "Cabeça de Porco", da dupla brasileira Celso
Athayde e MV Bill, expõem, cada um à sua maneira, como a narrativa midiática
sobre o crime não apenas documenta a violência, mas a constrói, a
espetaculariza e a transforma em mercadoria cultural.
O Nascimento do Crime como Espetáculo:
Em
"A Tinta e o Sangue", Kalifa mergulha na Paris do século XIX para
desvendar o momento fundacional da cultura de massa em torno do crime. A
capital francesa, então epicentro da modernidade, testemunhou o nascimento de
uma nova forma de consumir violência: através da imprensa sensacionalista, dos
romances policiais e dos fait divers - aquelas pequenas narrativas de crimes
cotidianos que fascinavam (e ainda fascinam) o público.
O
historiador demonstra que a tinta dos jornais e a tinta da literatura beberam
do sangue real das ruas parisienses para criar um imaginário do crime que
ultrapassava em muito a realidade estatística. A violência, filtrada pelas
lentes da mídia oitocentista, tornava-se produto de entretenimento, instrumento
de controle social e ferramenta de construção de identidades urbanas.
Das Apaches Parisienses aos Comandos
Cariocas:
Avançando
no espaço e no tempo, chegamos ao Rio de Janeiro do início do século XXI.
"Cabeça de Porco", lançado em 2005, leva o leitor para dentro do
Complexo de favelas da Penha, oferecendo um relato visceral da violência urbana
brasileira. MV Bill, rapper nascido e criado na Cidade de Deus, e Celso
Athayde, produtor cultural e ativista, constroem uma narrativa que é
simultaneamente denúncia, testemunho e obra jornalística.
A
correlação temporal é reveladora: assim como as gangues das "Apaches"
aterrorizavam o imaginário parisiense do fin-de-siècle - frequentemente de
forma exagerada pela imprensa -, os "comandos" e facções das favelas
cariocas ocupam, no século XXI, um espaço desmedido no noticiário brasileiro. A
diferença crucial, porém, está no lugar de fala: enquanto Kalifa analisa como a
elite letrada francesa construiu narrativas sobre as classes perigosas, Athayde
e MV Bill falam de dentro, desmontando estereótipos midiáticos com a autoridade
de quem viveu a realidade retratada.
A Mídia como Mediadora e Criadora da
Violência:
Ambos
os livros, cada um em seu registro, evidenciam o papel central da mídia não
como mero espelho da violência, mas como agente ativo em sua configuração
social. No século XIX francês, a imprensa popular criou arquétipos do criminoso
que permanecem até hoje: o apache violento, a prostituta vítima, o burguês
devasso. Esses tipos, mais do que descrever a realidade, moldavam a percepção
pública e influenciavam políticas de segurança.
No
Brasil contemporâneo, "Cabeça de Porco" denuncia operação semelhante.
A favela midiatizada é quase sempre sinônimo de violência, seus moradores
eternamente suspeitos, suas crianças condenadas de antemão. MV Bill e Athayde
mostram como essa narrativa hegemônica invisibiliza a complexidade social das
comunidades, reduzindo-as a cenários de guerra onde apenas traficantes e
policiais existem.
O Sangue que Vende Jornais - Ontem e Hoje:
"Se
há sangue, há primeira página" - o velho adágio jornalístico que Kalifa
identifica no século XIX permanece assustadoramente atual. A economia da atenção,
que começou com os jornais populares franceses vendidos a um centavo, atinge
seu paroxismo nas redes sociais e na cobertura televisiva contemporânea. A
chacina, o tiroteio, a operação policial: tudo vira espetáculo instantâneo,
consumido vorazmente por uma audiência simultaneamente horrorizada e fascinada.
A
diferença talvez esteja na velocidade. Enquanto os leitores parisienses
esperavam a edição vespertina para saber dos crimes matinais, hoje o sangue é
transmitido ao vivo, em tempo real, com helicópteros sobrevoando favelas e
cinegrafistas documentando cada disparo. A tinta se tornou pixel, mas o sangue
continua sendo o mesmo.
Geografias da Exclusão:
Há
também uma perturbadora continuidade geográfica na forma como a violência é
espacializada. Kalifa mostra como certos bairros parisienses - Belleville, La
Chapelle, zonas operárias - eram construídos discursivamente como territórios
do perigo, zonas morais onde a lei vacilava. Essa cartografia do medo
legitimava tanto o sensacionalismo midiático quanto as incursões policiais mais
violentas.
"Cabeça
de Porco" revela mecanismo idêntico operando nas favelas cariocas. O
morro, na geografia imaginária da cidade, é o espaço do Outro, do perigo, da
desordem - o que autoriza tanto a cobertura espetacularizada quanto a violência
estatal sistemática. Em ambos os casos, a estigmatização midiática de
territórios inteiros reforça ciclos de marginalização e violência.
Resistências Narrativas:
Contudo,
se Kalifa documenta como os subalternos foram representados pela elite
midiática do século XIX, "Cabeça de Porco" representa algo
radicalmente novo: a tomada da palavra. MV Bill e Athayde não são acadêmicos
externos analisando a favela, mas vozes emergentes de dentro dela, disputando o
monopólio narrativo sobre suas próprias vidas.
Essa
ruptura é fundamental. O livro brasileiro não apenas denuncia a midiatização da
violência, mas oferece uma contra-narrativa, complexificando o que a mídia
tradicional simplifica, humanizando quem ela desumaniza, contextualizando o que
ela espetaculariza. É a diferença entre ser objeto e sujeito da história.
Um Século de Continuidades:
Colocados
em diálogo, "A Tinta e o Sangue" e "Cabeça de Porco"
revelam que a relação entre mídia, violência e criminalidade possui raízes
históricas profundas. Da Paris de Balzac e Zola ao Rio de Janeiro de MV Bill,
permanece a tentação de transformar o sofrimento real em entretenimento, de
simplificar complexidades sociais em narrativas maniqueístas, de estigmatizar
territórios e populações inteiras.
Mas os
livros também apontam caminhos. Se Kalifa nos ajuda a entender historicamente
como chegamos aqui - como a cultura de massa sobre o crime se consolidou -,
"Cabeça de Porco" demonstra que outras narrativas são possíveis
quando aqueles que vivem a violência tomam a caneta (ou o microfone) das mãos
de quem apenas a observa de longe.
A
tinta continua se alimentando do sangue, mas agora algumas mãos antes
silenciadas começam a escrever suas próprias histórias. E isso, talvez, seja o
início de uma mudança que nem Kalifa poderia ter previsto ao estudar a Paris do
século XIX: o momento em que os objetos da narrativa criminal se tornam seus sujeitos,
desafiando um século e meio de representações que os desumanizaram.
O Espetáculo do Medo: Da Paris da Belle
Époque às Favelas do Rio de Janeiro:
Uma
análise comparativa entre "A Tinta e o Sangue", de Dominique Kalifa,
e "Cabeça de Porco", de MV Bill, Celso Athayde e Luiz Eduardo Soares,
revela como a mídia molda, há séculos, a nossa percepção da violência.
Separados
por um oceano e por um século de história, dois cenários aparentemente
distintos se encontram na intersecção entre a tinta dos jornais e o sangue das
ruas. De um lado, a Paris do final do século XIX, iluminada pelos lampiões a
gás e aterrorizada pelas manchetes sensacionalistas. Do outro, o Rio de Janeiro
do início do século XXI, marcado pelos becos das favelas e pela guerra do
tráfico televisionada.
Ao
colocarmos lado a lado o estudo histórico:
A Tinta e o Sangue, do historiador francês Dominique Kalifa, e a
reportagem antropológica Cabeça de Porco, de Celso Athayde, MV Bill e Luiz
Eduardo Soares, emerge uma linha contínua e perturbadora: a construção
midiática do "criminoso" e a transformação da violência em produto de
consumo de massa.
A Invenção do "Fait Divers" e a
Realidade da Favela:
Dominique
Kalifa nos transporta para a França da Belle Époque, momento em que a imprensa
de massa explodia. É ali que nasce o fascínio moderno pelo crime. Kalifa
demonstra como os jornais da época, o chamado Petit Journal, não apenas
relatavam crimes, mas criavam uma narrativa de terror urbano. O
"apache" parisiense — o jovem delinquente dos subúrbios — tornava-se
uma figura mítica, um monstro necessário para vender jornais e justificar
políticas de repressão higienista.
Saltamos
então para o Brasil contemporâneo de Cabeça de Porco. O cenário muda, mas a
dinâmica de estigmatização permanece assustadoramente similar. Se em Paris a
tinta do jornal criava o monstro, no Rio de Janeiro, as câmeras de TV e as
manchetes policiais ajudaram a consolidar a imagem do jovem negro e favelado
como o "inimigo público número um".
Athayde,
Bill e Soares mergulham na realidade crua que a mídia raramente mostra.
Enquanto a imprensa tradicional foca no corpo estendido no chão e na apreensão
de armas (o espetáculo), Cabeça de Porco busca a biografia por trás do gatilho.
O livro revela a humanidade complexa dos "soldados do tráfico",
desmontando a caricatura simplista que a sociedade consome no jantar.
O Medo Como Moeda de Troca:
A
correlação espaço-temporal entre as obras evidencia que o medo é uma moeda
histórica valiosa.
Em
Kalifa, em pleno século XIX/XX o medo do crime serviu para vender tiragens
recordes e consolidar a indústria cultural nascente. A violência era estética,
um folhetim sangrento para entreter a burguesia segura em seus salões. Já para
Athayde/Bill - século XXI - esse medo
justifica a militarização da segurança pública e a ausência do Estado nas
favelas. A mídia, muitas vezes, atua como porta-voz oficial das operações
policiais, perpetuando uma visão de "nós contra eles", onde a favela
é o território do "outro", o bárbaro moderno.
A Voz dos Silenciados:
A
grande diferença — e talvez o ponto de virada — está na autoria e na
perspectiva. Kalifa faz uma arqueologia do discurso midiático; ele analisa como
os outros falaram sobre o crime. Já Cabeça de Porco é uma ruptura nesse padrão
histórico. Pela primeira vez, a narrativa não é apenas sobre o território
vulnerável, mas parte dele. MV Bill e Celso Athayde, oriundos da CUFA (Central
Única das Favelas), tomam para si a "tinta" para descrever o próprio
"sangue".
Enquanto
a imprensa francesa descrita por Kalifa lucrava com a distância entre o leitor
e o criminoso, os autores brasileiros encurtam essa distância. Eles nos forçam
a olhar nos olhos dos jovens que, sem opções de Estado ou mercado, encontram no
tráfico uma identidade e um pertencimento — uma tragédia social que a manchete
sensacionalista ignora deliberadamente.
A Mídia no Banco dos Réus:
Ler A
Tinta e o Sangue à luz de Cabeça de Porco é perceber que a "crônica
policial" nunca é neutra. De Paris ao Rio, a narrativa da violência é
seletiva.
Kalifa
nos ensina que a sociedade de massa precisa do crime como espetáculo para
definir suas fronteiras morais. Athayde e Bill nos mostram o custo humano dessa
necessidade. A junção das obras serve como um alerta atemporal: enquanto
consumirmos a violência como entretenimento ou estatística fria, continuaremos
a alimentar a engrenagem que mancha de sangue as ruas e de tinta (ou pixels) as
nossas consciências.
A
criminalidade muda de rosto, de arma e de sotaque ao longo dos séculos. Mas a
lente de aumento da mídia, que distorce para vender e segregar, permanece,
infelizmente, a mesma.
KALIFA,
Dominique. A tinta e o sangue: narrativas sobre crimes e sociedade na Belle
Époque. Tradução de Luiz Antônio Oliveira de Araújo. São Paulo: Editora da
Unesp, 2019. 519 p.
SOARES, Luiz Eduardo; MV BILL; ATHAYDE, Celso. Cabeça de porco. Rio de Janeiro: Objetiva, 2005. 295 p.
Natureza
