domingo, 26 de abril de 2026

Desmistificando o pensamento torto do conservadorsimo neoliberal

A formação do caráter brasileiro perpassa por um conservadorismo tacanho que nasceu dos confins das regiões auríferas de Minas Gerais e estendeu-se às localidades produtoras de açucar no século XVIII. Essa maldição da família patriarcal ainda perdura nas mentes e lares brasileiros, sobretudo na classe média e nas elites. Contudo, ainda faz-se presente nas camadas mais pobres. Portanto, não vencemos ainda essas tais diferenças de gênero.Pelo contrário, mesmo com toda legislação o assunto parece ter se agravado. Certas literaturas tortas contribuem de sobremaneira para que a situação mantenha-se plenamente atual. Isso - claro - negativamente. Lembro-me de ter observado tais crenças e juízos de valor em um livro um tanto desconexo da realidade daquilo buscamos como sociedade. Porém, tais ideias pululam em parte do universo masculino e com alguma anuência das mulheres. Há alguns trechos dessa "obra" um  certo ar de machismo evidente por parte do autor, ao dizer que: "tem esposas que já ganham o que omarido ganha. O marido, que não é ciumento fica muito satisfeito". Visão típica de um conservadorismo mesquinho, em que a mulher se submete ao homem, como se fosse algo surpreendente as esposas ganaharem mais que os seus maridos. Pois, falta aqui o autor libertar-se dessas amarras conservadoras. No entanto, prefere ele afundar-se num modelo familiar patriarcal, próprio de um homem branco, rico e bastante comum  da região sul do Brasil.  Porém, não é só o machismo que apoderá-se dos impulsos mentais do autor. Os enganos dissonantes em relação a educação permeiam todo o livro e faz dele um obra dispensável, talvez uma inutilidade literária, principalmente ao parafrasear a citação de Lester Thurow (um desses guru de autoajuda) cuja frase: "Se educarmos um homem, teremos um homem educado. Se educarmos uma mulher, teremos uma família educada". Logo, esse trecho complementa a frase anterior, ao corroborar a visão conservadora e machista da dita família tradicional e patriarcal, onde podemos inferir o papel da mulher como submissa e do lar, apenas na função de educar os filhos e manter a ordem do lar. Um sentido bastante peculiar do capitalismo do século passado. Na esteira educacional, o autor comete imperdoáveis deslizes conceituais. Para ele a universidade - hoje - se resume a ter um celular e assistir aula de algum guru na tela. Aqui, o conceito guarda-se num limite raso e simplório de educação. Propaga-se a máxima de que a universidade presencial, estruturada destina-se apenas aos mais ricos, cabendo ao filho do trabalhador um ensino superior de má qualidade, a distância, e pior - através de plataformas via celular. Temos que entender que a univesidade deve ser pública e agregar todas as classes sociais, como um direito inalienável para qualquer cidadão. Pois, a univesidade pública tem que ser presencial, onde o ensino remoto seja apenas complemento. A verdadeira aprendizagem realiza-se na relação professor/aluno em sala de aula e com os colegas para que a nasça a crítica, a discussão e saber fazer. Então,deve-se quebrar esse preconceito de que a universidade foi criada somente para atender as classes mais abastadas. Se o jovem deseja ser médico, sua classe social jamais deveria ser um impeditivo. A medicina não se aprende em lives ou videoaulas, pois requer um corpo de mestres e doutores ali presentes cotidianamente para atender os alunos. Essa coisa de guru e influenciador demonstra o mais completo desconhecimento da realidade. Ainda no tortuoso caminho da educação, o autor comete mais enganos ao expressar sobre a universidade corporativa colocando-a como centro de treinamento para a vida real e acrescenta ele: "É uma filosofia de educação, onde os cursos são em cima de problemas reais". Tal afirmação está na busca de saída para os incontornáveis problemas educacionais, que jamais deveria repousar-se na superficialidade das estruturas privadas. em primeiro lugar, A universidade corporativa como centro de treinamento teria aqui sinônimo de uma formação única e excluisvamente para atender pontualmente as necessidades da empresa. Daí questionamos onde ficaria a visão crítica, o debate de ideias, o universo dos penamentos e o metódo científico. Então, universidade corporativa parece ser uma denominação errônea criada para justificar que as empresas estão de fato preocupadas com a educação? Trata-se de um assunto a se pensar, dado que as empresas buscam lucros. como já dissemos anteriormente, conhecimento não visa lucro e dinheiro - mas sim - resolver problemas e apresentar soluções factíveis, que até em certa medida poderia ser utilizada como justificativa para a lucratividade. Mas não é o objetivo central. Por isso, a saída paira sobre a superfcialidade que afirmamos momentos antes. Quando o autor tece infundadas críticas ao modelo tradicional de ensino, e assim diz: "A escola tradicional não acompanha as tendências de mercado e não supre tais carências, mais uma vez mostra desconhecer a realidade sob seus pés. Sabemos que essa não é a função da escola tradicional, o papel dela está na formação ampla, genérica, pautada numa cultura laica e plural. Um ensino transversal. A escola pública jamis deveria está a mercê de um ensino industrialista e servir aos interesses do capital. Todavia, o autor não admite uam postura crítica do capitalismo e nem nesmo o debate de ideias, muito menos pontos de vista contrastantes e opiniões diversas. Tão necessários à polarização de discursos. Na mentalidade um tanto equivocada apressa-se em reafirmar a invenção da guerra intelectual. Para desmitificar tal afirmação a respeito precisamos demonstrar que tal guerra intelectual que tanto se fala é um engodo. Bem, o modo de pensar são múltiplos, é não unívoco - como quer o autor. Sabemos que o intelectual é dotado por um pensar sistêmico e crítico. Portanto, guerra intelectual - sim - faz-se necessária para a construção do saber e requer olhares tanto divergentes, quanto convergentes para que possa trilhar numa esfera democrática. Diante disso, afirmamos que nenhuma guerra instelectual está m curso. O que há são debates,opiniões e discussões científicas e filosóficas no âmbito da universidade pública, algo que nenhum centro de treinamento poderá oferecer. Observamos até aqui um espetáculo de contradições postuladas por ideologias de cunho neoliberal e inversões de pensamentos. Nesse ritmo tenebroso o autor intercambia negativamente seus valores a respeito do feminino e da pauta educacional. Primeiro, o ensino jamais poderá ser projeto, dado ao seu caráter perene e constante. Quanto a sala de aula, é o ambiente de aprendizado e sempre será. É insubstituível, por ser espaço de trocas de conhecimento, debates e pensamento crítico. É na sala de aula que aluno, professor e colegas constroem o saber. Consequentemente, considerar a sala de aula como local menor de apenas tira-dúvidas, é não entender minimamente a função da escola e o papel da educação no mundo. em hipótese alguma, o ensino deve ser visto como projeto mercadológico, mas sim como política pública trilhada no longo prazo. Perante o ensino corporativo creditado nas palavras do autor, abre certo precendente para que ele possa corroborar que os talentos são profissionais independentes e tenham alto grau de empregabilidade, movendo-se numa velocidade tão grande quanto seu talento. Palavras do autor, não nossa Já estamos fartos de saber que a realidade mostra-se bem diferente. O que mais se vê são pessoas  talentosas e criativas nas filas de desempergados, a espera de uma oportunidade de trabalho e pagar as suas contas. Milhares de jovens capacitados, talentosos e criativos desperdiçados por falta de uma oportunidade. Alguns em trabalhos muito aquém de sua capacidade intelectual. Sejamos sinceros, a verdade é que o capitalismo criou uma massa de pessoas que estão cotidianamente em busca de uma recolocação no mercado de trabalho, no entanto não conseguem - não por falta de talento - mas o próprio sistema as impede. Na tentativa de justificar o sistema capitalista como modelo ideal para a transição em uam sociedade tecnológica e versada no conhcimento o autor procura argumentar sobre os meios de produção e alega que os donos desses meios serão aqueles que possuem o conhecimento, e que donos de terras , patrimônio e capital é coisa do passado. Ele por ser industrial, ou vive uma contradição, ou soa no mínmo como desonestidade intelectual. Mas vamos lá, por que a coisa não é bem assim, para começar os bens tangíveis ainda concentra-se nas mãos de uns poucos, famílias que ainda estão no poder e herdaram fortunas. Quiça, o que tenha mudado é a migração de capital físico e tangível para o mercado financeiro. O s novos donos do meios de produção são, ainda, em grande parte as velhas elites. A ideia é que o dinheiro passou a produzir dinheiro (equação de Marx elevada ao extremo, onde dinheiro gera dinheiro: D-D), ou seja, o capitalismo financeiro. As empresas tornará-se  S/A, comandadas pelos  CEOs (geralmente acionisas majortiários ou eleitos pelo Conselhos de Administração). Mas as velhas oligarquias continum no rentismo e lucrando milhões e milhões com dividendos e juros. Por isso, atribuir morte a era industrial, como faz o autor, consiste numa interpretação duvidosa. Ocorre que a indústria mudou seu foco e prioridades, passando para uma indústria pautada no financeiro, e cujo o produto (mercadoria) não tem mais aquele valor intrínseco. A indústria embrenhou-se na produção de papéis (títulos, derivativos, ações debêntures e créditos). Dado que não há mais a figura do dono (proprietário), enfim, são todos apenas acionistas e vivem do mercado financeiro. O capital mudou de mãos e agora concentra-se em títulos, ações e crédito.A mercadoria fica em segundo plano. Isso não que dizer que o modelo industrial acabou e foi decretado fim do capitalismo. O que de fato mudou foi a forma como a indústria se antecipou aos novos paradigmas do capital. Vendo assim, a oportunidade de maximizar sua acumulação num modelo mais enxuto e tecnológico.

sábado, 11 de abril de 2026

A ciência no banco dos réus: o encontro entre Lacey e Novaes

No último artigo discorremos sobre os aspectos básicos que tornam a ciência mais humanitária e necessária ao desenvolvimento social, econômico e tecnológico do planeta. Dando sequência a esse assunto, ainda reforçaremos as ideias de Lacey e Novaes a respeito dos saberes científicos e sua relação com um mundo onde a inovação técnica frequentemente atropela a reflexão ética, duas obras fundamentais se encontram no centro de um debate urgente sobre o futuro da civilização: Valores e Atividade Científica 2, de Hugo Lacey, e a coletânea O Homem-Máquina, organizada por Adauto Novaes. Embora possuam pontos de partida distintos, a convergência entre eles desenha um mapa crítico sobre como a ciência moderna molda - e, por vezes, deforma - a nossa realidade. Abaixo, exploramos os pontos de intersecção onde o pensamento desses autores se funde em um alerta necessário.

O Fim do Mito da Neutralidade

A maior convergência entre as obras é o ataque frontal à ideia de que a ciência é "neutra". Para Lacey, a escolha de como pesquisar já carrega um valor. Ele argumenta que a ciência moderna prioriza "estratégias descontextualizadas", voltadas para o controle e a manipulação da natureza. Na visão de Novaes e seus colaboradores, essa mesma ciência "neutra" é a que permite a manipulação do corpo humano como se fosse apenas matéria bruta, ignorando as dimensões sociais e espirituais do ser. Ambos concordam: não existe ciência sem ideologia.

A Redução do Humano ao Objeto

Os dois livros denunciam um processo de objetificação:

·  Em Lacey: A natureza e os sistemas sociais são reduzidos a variáveis que podem ser controladas por leis matemáticas e físicas.

·   Em Novaes: O ser humano é reduzido a uma "máquina". No livro organizado por Novaes, discute-se como a biotecnologia e a genética tratam o corpo como um conjunto de peças substituíveis ou dados a serem otimizados.

A convergência aqui é clara: a ciência contemporânea tende a desconsiderar a "autonomia" - seja das sementes na agroecologia (tema caro a Lacey) ou da vontade própria do indivíduo sobre seu organismo (foco de Novaes).

O Império do Controle e do Mercado

Outro ponto de união é a identificação de quem realmente dita o ritmo do progresso. Lacey aponta que a pesquisa científica está hoje quase totalmente submetida aos valores do capital e do mercado, que buscam lucros rápidos através da inovação tecnológica.

Essa tese é amplificada em O Homem-Máquina, onde os autores mostram como a manipulação do corpo (seja através de fármacos, cirurgias ou implantes) transformou a vida humana em um produto. A ciência deixa de ser um instrumento de libertação para se tornar uma ferramenta de dominação biopolíticaDessa forma podemos sintentizar tais convergências às quais os autores proprõem numa tabela bastante didática e fácil de compreender, que segue logo abaixo:

Tema Central

Visão de Lacey

Visão de Novaes (Coletânea)

Poder

A ciência serve ao controle da natureza e ao lucro.

A ciência serve ao controle dos corpos e à produtividade.

Metodologia

Mecanicista e descontextualizada.

Fragmentada e tecnicista.

Ética

Deve ser reintroduzida no centro da prática científica.

Deve ser o limite contra a desumanização técnica.

A leitura cruzada de Lacey e Novaes não é um convite ao abandono da ciência, mas sim à sua redemocratização. O que exige uma nova postura científica. Pois, enquanto Lacey pede uma ciência plural que respeite os contextos sociais, os autores de Novaes pedem uma ciência que não "desmonte" o humano em busca de uma perfeição mecânica ilusória. A convergência final é um chamado à responsabilidade: o cientista não pode mais se esconder atrás de números; ele deve responder pelo mundo que sua técnica está criando.

No entanto a ciência ainda segue sob o tacão do capital e para não nos deixar mentir, as luzes convergentes de Lacey e Novaes refletem tal pensamento. Portanto, ao esmiurçarmos as obras destes autores surge uma convergência contundente surge que denúncia como a ciência moderna se tornou uma engrenagem fundamental do modelo capitalista. Então, para ambos, a ciência não é uma entidade isolada em uma torre de marfim, mas um instrumento moldado pela lógica da acumulação, do lucro e do controle social.

A Ciência como Força Produtiva

A primeira grande convergência reside na compreensão de que a ciência abandonou o ideal de "conhecimento pelo conhecimento" para se tornar uma ferramenta de produção.

·  Lacey demonstra que o modelo de "ciência moderna" privilegia quase exclusivamente pesquisas que geram tecnologias patenteáveis e controle sobre a natureza. Isso ocorre porque tais pesquisas atendem aos interesses das corporações que buscam lucros imediatos.

·    Novaes, através dos ensaios de sua coletânea, mostra como essa mesma lógica entra "pele adentro". O corpo humano deixa de ser uma entidade sagrada ou biopsicossocial para se tornar um capital biológico. A ciência que manipula o corpo (genética, farmacologia) serve para otimizar o trabalhador e o consumidor, tornando-os mais produtivos e dependentes do mercado.

 A Estratégia de Controle e a Mercantilização

Ambos os autores identificam que a aliança entre ciência e capitalismo gera uma obsessão pelo controle total.

·    No campo (Lacey): O autor cita o exemplo das sementes transgênicas. A ciência é usada para criar sementes que não se reproduzem ou que dependem de agrotóxicos específicos. Aqui, o conhecimento científico é usado para "aprisionar" a agricultura ao  mercado financeiro, destruindo práticas tradicionais.

·    No corpo (Novaes): A ciência médica e biotecnológica foca na fragmentação do corpo em partes comercializáveis. A saúde torna-se um produto de prateleira. A convergência com Lacey é clara: o objetivo não é a autonomia do sujeito (ou do agricultor), mas a dependência de um sistema técnico-capitalista.

 O Silenciamento de Alternativas

Lacey e Novaes convergem ao apontar que o modelo capitalista impõe um "pensamento único" na ciência:

  • Marginalização de Saberes: Lacey aponta que formas de ciência que não geram lucro (como a agroecologia) são desqualificadas como "não científicas" ou irrelevantes.

  • Desumanização: Novaes alerta que, ao focar apenas no que é tecnicamente possível e economicamente rentável, a ciência ignora as questões éticas e o sofrimento humano, tratando o indivíduo como uma máquina que precisa de manutenção constante.  

Podemos sintetizar essa relação entre ciência e capital num quadro em que os pontos convergentes podem ser estabelecidos em cinco aspectos distintos:   

Ponto de Convergência

O Impacto do Modelo Capitalista

Finalidade

A pesquisa é direcionada para o que gera lucro e patentes, não para o bem-estar social amplo.

Visão de Mundo

A natureza (Lacey) e o corpo (Novaes) são vistos como recursos exploráveis e máquinas a serem otimizadas.

Poder

O conhecimento concentra-se nas mãos de grandes corporações (agroindústria, farmacêuticas, tech).

Ética

A ética é substituída pela eficiência técnica e pela viabilidade econômica.

Assim podemos dizer que o desafio da emancipação da ciência perpassa pela convergência entre os dois autores; é nos fornece um diagnóstico sombrio, porém necessário: sob a égide do capitalismo, a ciência corre o risco de deixar de ser um caminho para a verdade e passar a ser um manual de instruções para a dominação.Enquanto Lacey propõe uma ciência plural que incorpore valores sociais e ecológicos, as reflexões de Novaes pedem um retorno ao humanismo, para que a técnica não acabe por devorar o seu criador. Em suma, ambos defendem que a ciência precisa ser resgatada das mãos do mercado para voltar a servir à vida em sua plenitude. O que esses dois livros nos dizem, em uníssono, é que a luta por uma ciência diferente é, essencialmente, a luta por um modelo de sociedade diferente.

LACEY, Hugo. Valores e atividade científica 2. São Paulo: Editora 34, 2010. 384 p. (Coleção Trans).

NOVAES, Adauto (Org.). O homem-máquina: a ciência manipula o corpo. São Paulo: Companhia das Letras, 2003. 488 p.

sábado, 4 de abril de 2026

Entre a ética e a técnica: o dilema da ciência contemporânea em Lacey e Novaes

A evolução da humanidade durante os milênios é a prova cabal de que o ser humano tornou-se capaz de contornar seus problemas, e com isso criar soluções inteligentes para resolver suas necessidades. A invenção da roda, do arado, a descoberta do fogo na pré-história até a inteligência artificial, a nanotecnologia, a biotecnologia em nossos dias atuais mostra a importância da ciência na evolução da sociedade. Por outro lado, quanto essa revolução científica de fato beneficiou nós, seres humanos. Portanto, cabe aqui neste artigo discutirmos pontos centrais a respeito da imparcialidade, da neutralidade e autonomia da ciência. Enfim, a quem serve o saber e o fazer científico. Pois, é isso que iremos debater neste artigo, sob os holofotes de Hugo Lacey junto a obra de Adauto Novaes - Homem máquina. 

No cenário atual, onde a biotecnologia e a inteligência artificial avançam em ritmo frenético, a pergunta que ecoa nos centros de pesquisa e na filosofia não é mais apenas "o que podemos fazer?", mas sim "o que devemos fazer?". Este embate ético é o fio condutor que une duas obras fundamentais para compreender a ciência moderna: Valores e Atividade Científica 2, de Hugo Lacey, e O Homem-Máquina: A Ciência Manipula o Corpo, organizado por Adauto Novaes.

Embora partam de perspectivas distintas, ambos os autores convergem para uma crítica necessária à suposta "neutralidade" do progresso técnico-científico.

A Ciência Além do Laboratório: Hugo Lacey

Em sua obra, o filósofo australiano Hugo Lacey desafia a ideia de que a ciência é uma busca pura e desinteressada pela verdade. Para Lacey, a atividade científica está intrinsecamente ligada a valores.

Os Três Tipos de Valores

Lacey argumenta que a ciência é influenciada por uma tríade de valores:

  • Cognitivos: Critérios de verdade, como consistência e poder preditivo.
  • Éticos: O impacto das descobertas na vida humana e no meio ambiente.
  • Sociais/Políticos: Quem financia a pesquisa e quais interesses (militares, de mercado ou sociais) ela serve.

O autor propõe a Pluralidade Metodológica, sugerindo que a ciência não deve focar apenas em estratégias descontextualizadas (que buscam o controle da natureza), mas também em estratégias que considerem o contexto social e ecológico, como a agroecologia.

O Corpo sob o Bisturi da Razão: Adauto Novaes

Se Lacey foca na estrutura da pesquisa, a coletânea organizada por Adauto Novaes, O Homem-Máquina, mergulha nas consequências antropológicas dessa ciência. O livro explora como a visão mecanicista — que vê o corpo humano como uma engrenagem ou um conjunto de dados — transformou nossa relação com a vida.

A Fragmentação do Humano

Os ensaios presentes na obra de Novaes alertam para o risco da manipulação extrema. Ao tratar o corpo como um objeto puramente biológico e técnico, a ciência corre o risco de:

  •  Anular a subjetividade e a história individual.
  • Transformar a saúde em um produto de consumo.
  •  Criar uma "eugenia moderna" através da edição genética e da protetização sem limites éticos claros.

"A ciência que manipula o corpo é a mesma que, muitas vezes, esquece a dignidade do homem que o habita."

O Ponto de Encontro: A Necessidade de Limites

O diálogo entre Lacey e as reflexões de Novaes revela uma urgência: a democratização do conhecimento científico.

Ponto de Comparação

Hugo Lacey

Adauto Novaes (Coletânea)

Foco Principal

Metodologia e Valores

Antropologia e Biopoder

Crítica Central

O predomínio da estratégia de controle

A visão do homem como máquina funcional

Solução Proposta

Ciência plural e socialmente responsável

Reflexão filosófica sobre os limites da técnica

Uma Ciência para Quem?

A leitura conjunta dessas obras sugere que a ciência não é um destino inevitável, mas uma escolha política e ética. Enquanto Lacey nos fornece as ferramentas teóricas para identificar quais valores guiam nossas pesquisas, os autores de Novaes nos mostram o que está em jogo: a nossa própria definição de humanidade.

Para o leitor contemporâneo, a mensagem é clara: o progresso técnico só terá valor se estiver a serviço da emancipação humana e do equilíbrio planetário, e não apenas da eficiência mecânica ou do lucro desenfreado.

LACEY, Hugo. Valores e atividade científica 2. São Paulo: Editora 34, 2010. 384 p. (Coleção Trans).

NOVAES, Adauto (Org.). O homem-máquina: a ciência manipula o corpo. São Paulo: Companhia das Letras, 2003. 488 p.

domingo, 8 de março de 2026

A ideologia torta do capital: contradições e erros

A contemporaneidade exige de nós uma compreensão mais aprofundada das mudanças do mundo, portanto entender a dinâmica do capital torna-se essencial para que de fato possamos alinhar pensamentos e construir críticas minimamente factíveis. Não cabe mais na atualidade considerações pueris - digamos infatilizadas - que nós levam a decisões erradas e a mera opinião. É preciso enxergar no macrocosmo as paulatinas transformações sociais,  políticas e econômicas nesse pequeno intervalo do fim do século XX e o início do século XXI. Do ponto de vista histórico as grandes transições foram bastante perceptivas, ao apontar-se para o desenvolvimento e inovações tecnológicas, principalmente no âmbito da computação quãntica, Inteligência Artificial, computação em nuvem e Big Data. Trata-se de uma nova revolução industrial, ou seja - a indústria sem o operariado - cuja a máquina torna-se o elemento central. No entanto, há um preço muito alto a se pagar, valor intagível, que atinge diretamente toda sociedade. Dada a  consequência nefasta ao meio ambiente e consumo energético. Além de alterar a subjetividade humana por completo. Assim, somos jogados para dentro um sistema maquinal, em que o ego é triturado e nossa personalidade fica reduzida à pó. Somos apenas engrenagens e submetidos à vontade da maquinaria, verdadeiros homem-máquina. Não nos cabe aqui falar mais em produção e mercadoria. Agora, o humano é o produto da vontade da máquina. Entretanto, há aqueles que erroneamente insistem em afirmar que a velha indústria prevalece, pensam acreditar num capital produtivo de mercadorias e num amplo mercado consumidor. Talvez, por convições, valores ou mera ingenuidade (sendo bem menos improvável) essas pessoas - em sua maioria burgueses sem burgo - ainda pregam o mote da meritocracia, do nascer do nada, do trabalhar duro e atingir a riqueza. Elas simplesmente distorcem a realidade, criam esperanças em uopias. Enfim, qual o porquê deste assunto? qual a relevância dele neste texto? Bem, meus caros leitores, precisamos entender que não estamos mais dentro de um cenário dos anos 70, cujo a estabilidade política e econômica fazia-se presente no modelo da social-democracia. Os tempos são outros, nada mais tem a solidez de antes. Quem detém o poder é o mercado financeiro, onde dinheiro se traduz em mais dinheiro. Produtos e mercadorias são secundários. As empresas não tem mais um rosto, apenas acionistas e são administrada por um CEO. Por isso, viemos aqui tecer algumas críticas aos que ainda procuram referências históricas não mais cabíveis na atualidade. Com tais mudanças, pode-se dizer que a produção intelectual não está mais atrelada às atividades e tarefas rotineiras. Isso é um fato, dado que o capitalismo cognitivo exige de todos nós a condição de trabalhadores intelectuais subservientes às plataformas das Big Techs, daí retiram o mais valor social. Afinal, foi o que Marx previu como "general intelect". Pois qualquer afirmação generalizada da sociedade em relação a proteção daqueles ditos vagabundos (os não trabalhadores) soa como pura hipocrisia. Assim, deixo em tom de pergunta:proteger os mais carentes, moradores de rua, pessoas em situação de miséria é alimentar vagabundos? Há um grande equívoco nesse sentido, sendo qua a função do Estado é proteger quem mais precisa, portanto, as políticas sociais e de renda miníma precisam ser colocadas nas agendas em favor dos mais vulneráveis. 

Um outro erro está na afirmação de que a desigualdade financeira deve-se à desigualdade de educação. Existe aí um desconhecimento da realidade social e econômica, nem sempre ou rara vezes a educação vem como um elemento base para a desigualdade social. A discrepância está pontuada na diferença de renda entre ricos e pobres. A educação em si, ou,  a falta dela não é causa dessa desigualdade. A real causa perpetua-se na má distribuição e na concetração da riqueza nas mãos de poucos. Elevar o nível educacional contribui e mutio para que haja oportunidades de melhores empregos e salários, mas não define a desigualdade financeira. Criou-se a ilusão que para gerar lucro basta adquirir conhecimento e estar conectado a uma boa rede de relacionamento. Isto é desconsiderar a diferença entre lucro e conhecimento, trata-se de uma visão simplista e rasa. Bem, o lucro vem do mais-valor e da produção do trabalho, isso na exegese do capitalismo produtivo fordista. Ao colocarmos em termos atuais, da qual impera o capitalismo financeiro, o lucro está nos produtos do mercado de papéis (ações, títulos derivativos). É a acumulação de capital por meio do dinheiro produzindo mais dinheiro, e sem o elemento mercadoria tangível. Logo, assumir que o lucro vincula-se à aquisição de conhecimento e conexões numa rede de relacionamento, é não entender a essência do nosso capitalismo atual. Da mesma forma, quando julga-se que grande parte do ensino e aprendizagem hoje está no ambiente corporativo. Temos aí um erro crasso ou a pura desonestidade intelectual cometida por esses defensores do capitalismo. Em primeiro lugar, as empresas transformaram-se em não-lugares e sim em ambientes produtores de pápeis intangíveis, um lugar sem rosto. Com já diziamos antes, as empresas em sua maioria não tem mais donos-  apenas acionistas. Elas vivem de compra e venda de títulos, ações, debentures e dívidas. Por issosão incapazes de dar conta de uma educação formal ou profissional adequada e voltada para sociedade. Assim, acrescentamos que o ensino vem da escola e da educação regular. As pessoas adquirem formação e conhecimento solído no ambiente físico da sala de aula,com a presença de professores bem formados e capacitados, num ambiente crítico e de debates de ideias. Querer mercantilizar o ensino no âmbito organizacional trata-se de uma estratégia para alienar o trabalhador e colocá-lo numa posição de passividade diante das lutas trabalhistas. Esses mesmos donos dos meios de produção apontam o ensino corporativo  uma maneira de baratear a educação. Fala-se de uma escola barata. Aí devemos sim refletir e criticar tal solução. Para começar, a escola nunca foi barata e jamais poderia ser. Afinal, educação não tem preço e por isso deve ser pública. Pois, não existem recursos financeiros que possam oferecerum ensino de qualidade. Então, a melhor escola é aquela oferecida ao público de forma gratuita (melhor, proveniente dos impostos), cujo ensino seja laico e pautada na ciência. 

Ainda tentam justificar os lucros de qualquer modo. Dizem eles: "nada no mundo funciona sem lucro, sem lucro estamos fadados a bancarrota e sem lucro não há empresa". Tudo se resolve apenas atravês do capitalismo. Será? Há um enorme equívoco nisso tudo, já sabe-se que o capitalismo não resolveu o problema da desigualdade social e econômica,ao contrário, gerou um abismo ainda maior entre ricos e pobres. No momento, em que escrevo tais palavras, não apareceu nenhum outro sistema que viesse de fato a substituí-lo. Outros modelos como socialsmo e suas variadas matizes apresentaram sua derroccada, transformando-se em regimes totalitários e ditatoriais. Não resolvendo a questão da pobreza. Todavia, os ideários do regime capitalista nem de perto foi capaz de debelar as grandes diferenças sociais e econômicas, cada vez mais gritantes. Talvez, a volta de uma social-democracia; onde o Estado junto a iniciativa privada; possa mitigar tais problemas. Não há como fugir, o pensamento neoliberal instaurou-se em quase todo planeta decretando qualquer possibilidade de um Estado de bem-estar social. O neoliberalismo apresentou-se na contemporaneidade com uma força descomunal e suas premissas pairam sobre as mentes fazendo-nos crer na capacidade da remuneração variável, meritocracia, onde todos nós nos tornamos empreendedores, capitalistas, mesmo trabalhadores. Criou-se avisão míope de que todos possuem as mesmas chances, pura ilusão daqueles que não enxergam o capitalismo. Sejamos claro e objetivo: o trabalhador vende para o capitalista sua força de trabalho, em troca de um salário. Na outra ponta, tem-se o dono dos meio de produção. Este detêm parte do capital e do lucro (mas-valia em cima do trabalhador). Na atualidade do capital cognitivo o discurso faz-se em torno da meritocracia para corroborar a desigualdade social e econômica. A meritocracia esconde-se num discurso que busca antigir objetivos e metas de vida, fazendo transparecer que todos gazam da mesmas opostunidades. Está exposta a grande mentira que inventaram. Uma falácia proposta pelos donos dos meios de produção  para justificar as desigualdades vigentes. 

Dentro dessa perspectiva meritocrática fala-se em justiça, porém com um certo viés de que deve-se tratar as pessoas de forma desigual, ao passo que a injustiça teria que tratá-las de maneira igual. A princípio fica aquela ar estranho, um tanto confuso. Mas a intenção está justamente em gerar caos e confusão. Diríamos numa tentativa de despolitizar a sociedade. Trata-se do mais puro senso-comum e assim subverter conceitos. A ideia correta pauta-se na equidade, ou seja, reconhecer que todos deve ser respeitados em suas diferenças. A justiça tem função niveladora em que todos são iguais perante a lei e sem qualquer distinção. Até aí tudo certo. No entanto, a equidade vem oferecer equilíbrio no entorno das diferenças. Mais uma vez tentam deturpar os conceitos, e o fazem por meio de frases de efeito. Tais frases são jogadas ao vento, podem parecer inofensivas e não deletérias. Mas, existe por trás disso tudo um objetivo, que é ganhar a atenção e a mente das pessoas. Quando se coloca uma frase como: "o que produz dinheiro é conhecimento, pessoas mais educadas são mais produtivas". Percebe-se uma confusão conceitual proposital daquilo que é realmente o conhecimento, a produção, o dinheiro e a educação. Para começar, o conhecimento não tem o objetivo de produzir dinheiro, e nem de perto as pessoas mais educadas são as mais produtivas. O papel da educação está no aprendizado, na cultura e na aquisição de conhecimento, e não na produção de dinheiro. O conhecimento serve de instrumento para que possamos compreender nosso mundo, realizar ações en torno de nossa comunidade. O conhecimeto tem valor quando coletivo para beneficiar a ciência, a cultura e transformar a sociedade. A relação dinheiro-conhecimento é bastante superficial e não explica a profundidade do aprender. Vemos o quanto frases feitas ou soltas ao vento não nos permitem aprofundar na diversidade do pensamento. Por isso, a leitura crítica, o pensar consciente e descontruir ideias são práticas politizadoras e nos fazem caminhar por trilhas estreitas que jamais consideramos atravessar. O filosófo Plutarco numa era remota disse a seguinte frase: "O descanso é doce tempero do trabalho". Enfim, o contexto da frase nos dias atuais nem de longe tem o mesmo valor. Assim como, os símbolos, totens e objetos de outras eras podem assumir nos dias hoje outro signiifcado. Portanto, o perigo de frases soltas, sem contexto não gera qualquer conhecimento ou aprendizado e muito menos oferece sabedoria. São apenas palavras ditas sem profundidade e qualquer interpretação torna-se enganosa. Uma frase só adquire valor intríseco num contexto dentro de paragráfos ou numa obra lida. 

sábado, 7 de fevereiro de 2026

A farsa do mercado - a corrupção do capitalismo financeiro

Diante das grandes repercussões políticas e econômicas que tomam conta da mídia nacional e abalam todo o país, não poderíamos deixar falar aqui a respeito do caso do Banco Master. Até mesmo por eu ter investido em um CDB deles que prometiam retorno de 120% do CDI, que com muito custo fui ressarcido pelo Fundo Garantidor de Crédito (FGC). Mas infelizmente, tem uma grande parcela de pessoas que investiram seja diretamente, ou via fundos de investimentos que não irão receber facilmente os valores. Sim, podem dizer que somos iludidos por altos retornos e ganhos fáceis, ou seja, visamos o lucro. Isso é perfeitamente normal dentro de uma economia capitalista. Principalmente no atual capitalismo financeiro, em que o dinheiro virou mercadoria - mercadoria intangível (números numa tela de computador). A era do dinheiro virtual, cujo juro é a forma de remuneração pelo empréstimo de valores monetários. Trara-se de um sistema baseado na confiança, daí o termo fiduciário (fé, crença, acreditar no outro). Interessante observar que tais palavras são fortemente presentes nos dogmas religiosos. Parece que dinheiro e religião entrelaçaram-se e comungam o mesmo objetivo. Alguns de meus leitores podem dizer: isso é paranoia, que é apenas mera coincidência e coisas do tipo. Se formos buscar nos fatos históricos, algumas religiões dissidentes do catolicismo eram bastante tolerantes a usura, nada mais que empréstimos a juros. Essas religiões preconizaram os ideais burgueses e capitalistas. Digo isso, pelo fato de que a história percorre ciclos e segue uma mesma lógica, no entanto o espaço e o tempo muitas vezes se diferem. Aonde quero chegar diante desse pensamento? Bem, a resposta está justamente aqui, no Brasil, em pleno século XXI. Porém, precisamos fazer um esforço intelectual e pontuar alguns fatos anteriores para entender a realidade atual dos acontecimentos. A força capitalista propulsionada pelo motor da indústria, produção e o consumo de bens em meados dos anos 70 do século XX inicia sua derrocada. Ocorre o processo de desindustrialização e modelo fordista perde força em quase todo o mundo. Os sindicatos, as associações e as lutas dos trabalhadores são minadas, assim como a grande indústria fabril. O capitalismo fordista de produção deixa de ser o modelo atraente e abre espaço para serviços e a financeirização. Os bancos tornam-se os imperadores do mercado. As finanças e o mercado financeiro determinam como será o jogo do poder. Não interessa mais produzir e vender da maneira antiga. O mote é inserir o consumidor no jogo do crédito e débito, ou seja, a mercadoria é só uma isca para atrair futuros devedores, e deles cobrar juros. A era do homem endividado. Aquele que não possui empréstimos e dívidas deixa de ser atraente ao mercado. Com tudo isso, a indústria ganha com a bancarização e emissão de títulos creditícios. Vejam bem, toda essa mudança atinge desde de indivíduos à países. Pois, grandes nações passam a contrair empréstimos à juros devido a desindustrialização e caírem na ideologia neoliberal, ficam então sujeitas aos ditames de países credores e grandes conglomerados financeiros. As consequências desse neoliberalismo foram avassaladoras, como as crises constantes e abalo na soberania de muitos países que impactam diretamente na democracia. As privatizações e a austeridade nos gastos públicos marcam bem essa época no Brasil, no final dos anos 90 com o governo de Fernando Henrique Cardoso. A implementação do ideal neoliberal teve um custo enorme para o país, privatizações a toque de caixa, aumento do desemprego, mesmo com baixa inflação a pobreza extrema prevalecia. A distribuição da riqueza situava-se em níveis elevados. A elite ainda possuía grande parte da riqueza produzida em suas mãos. Nos bastidores da política e da economia a usura imperava e fazia com que as fortunas crescessem ainda mais. Os grandes bancos tinham lucros absurdos. Para captar mais dinheiro e ampliar as linhas de créditos ás famílias, às empresas e aos pequenos negócios entrava em cena a criatividade financeira do mercado. O mix de produtos financeiros - assim como a variabilidade de espécies de plantas e animais dentro da biologia - caminhavam numa diversidade assustadora. Os bancos, corretoras, financeiras e gestoras de investimentos, além das casas de análises locupletavam-se numa plêiade de entes financeiras. Muitas delas sem qualquer real lastro de capital, no intuito apenas de captar dinheiro de investidores com a promessa de altos rendimentos. Muitos dos produtos financeiros lastreados por essas entidades eram compostos de títulos e ativos denominados podres, com muito pouco valor real e artificialmente valorizado. Um exemplo claro, são os subprimes norte-americano, dividas imobiliárias (hipotecas) que eram vendidos aos pequenos investidores sem qualquer clareza em relação ao risco de crédito e capacidade do devedor em honrar a dívida. É importante observamos com clareza, que o capitalismo ao buscar novas maneiras de acumular-se e crescer não se importa com o modelo econômico e nem mesmo com o seu detentor. Por isso o dinheiro perpassa por diferentes de mãos e determina quem o comandará. Na atualidade, o capital conforma-se no modelo do dinheiro produzindo mais dinheiro sem passar pelo crivo da mercadoria, tornou-se um fim em si mesmo. Daí nasce o capitalismo financeiro e com ele toda uma espécie de produtos para o gosto do freguês, da qual citamos logo acima. Pois, é nesse instante que poderemos analisar detidamente os casos mais absurdos e bizarros de grupos ou indivíduos que fizeram desta vertente de capitalismo financeiro para gerar fortunas e se aproveitar do poder. Especificamente, o caso do Banco Master (claro que casos anteriores e outros futuros adentraram e adentrarão as páginas policiais e da mídia, assim como os meios políticos) mostra-se mais recente e gerou todo um burburinho nos corredores de Brasília. Não há nada demais em adquirir títulos de créditos privados como CDBs, LCIs, LCAs, FDICs e outros produtos financeiros. Tratam-se, a grosso modo, de compras de dívidas, em que empresas tomam empréstimos e assim pagam juros conforme o risco. Quanto maior o risco, maior os juros.  Ai que entra a mágica do Banco Master, com seu truque de ilusionismo financeiro, ao emitir títulos de créditos privados com promessa de juros acima do 120% do CDI. O Banco captou dos investidores bilhões em reais, mas sem condições reais honrar com os credores. A verdadeira questão é que o Master não possuía se quer patrimônio e muito menos capital suficiente para arcar com prejuízos. Enquanto isso, o seu dono vivia uma vida luxuosa e de aparências, gastando o dinheiro dos investidores. Bem próximo ao esquema das pirâmides, só que com aval político. O mais interessante dessa história toda é o que há por trás de tudo. O dono do Banco Master tem ligações com a igreja a qual pertence um deputado da direita e o seu pastor está ligado diretamente ao banqueiro (laços familiares). Uma forte rede que interliga política, igreja e capital financeiro. O Banco Master, assim como outros negócios bilionários demonstra a incapacidade de grandes empreendimentos de andarem sozinhos, e dependem fortemente de aportes do Estado e subsídios estatais. Não que tais subsídios e financiamentos sejam ilegais ou imorais. Portanto, cabe aos governos o dever de cobrar transparência na gestão destes recursos emprestados e fiscalizá-los. Enfim, trata-se de dinheiro que sai do bolso da população através de impostos. Infelizmente, escândalos financeiros como estes já não nenhuma novidade no mundo corporativo. Exemplos emblemáticos no Brasil e no mundo tornaram-se corriqueiros, porém um prato cheio para a mídia. Alguns vão lembrar-se do caso Coroa Brastel em 1983, em que letras de câmbio frias foram jorradas no mercado e sem qualquer lastro, dando enormes prejuízos aos pequenos investidores. Muitos outros casos como estes tiveram destaque na página principal dos jornais. Banco Nacional (1995), Banco Econômico (1995), Bamerindus (1997) - que não estava numa boa, Banco Marka (1999), FonteCindam (1999) que foram socorridos pelo Banco Central e outros exemplificam o descontrole na emissão e fiscalização de ativos financeiros, apesar da forte regulamentação por parte dos órgãos monetários. Talvez uma grande parcela da sociedade enxerga isso como algo natural, e inconscientemente até defenda tal atitude. Como se a corrupção por parte das empresas fosse uma consequência dos atos provocados pelos governo e entidades estatais. No entanto, tal suposição é errônea - dado que muitos bancos e empresas dependem de aportes e financiamentos estatais como o BNDES para manter-se. O Banco Master não fugiu à regra -  e sim - houve por parte do empresário claras tentativas de aproximar-se de pessoas do Estado para obter vantagens e ganhos. Mais uma vez os vícios privados tentam alinhar dos vícios públicos. No final de tudo, os únicos perdedores - mais uma vez - são os trabalhadores cuja previdência está atrelada a estes fundos mal geridos; o pequeno investidor que acredita que terá algum rendimento com esses títulos (podres) e a sociedade em geral que assiste incrédulo toda essa farsa montada por apenas interesses espúrios. 

sábado, 24 de janeiro de 2026

Entre periferias e prensas: como a mídia costura a narrativa da violência em duas épocas e espaços.

 

Os romances-reportagem e ensaios sobre criminalidade costumam dizer tanto sobre os lugares que descrevem quanto sobre os instrumentos que os representam. Lidos lado a lado, Cabeça de Porco, de Celso Athayde e MV Bill, e A tinta e o sangue, de Dominique Kalifa, oferecem uma vigília comparativa: um mapeamento espaço-temporal sobre como a violência e o crime são narrados, vendidos e instrumentalizados pela mídia — e como essas narrativas moldam políticas, estigmas e práticas cotidianas de controle social.

Dois mundos, um mesmo mecanismo:

A obra de Kalifa recupera os mecanismos do sensacionalismo policial na França do século XIX: a emergência da imprensa popular — jornais baratos, reportagens melodramáticas, ilustrações e “casos” que prendiam leitores — criou uma indústria de notícias criminais que transformava crimes em espetáculos. A pena e a gravura compunham imagens fortes sobre marginalidade, monstro e perigo urbanizados, deslocando debates sobre desigualdade para as páginas de entretenimento e alimentando pânico moral.

Cabeça de Porco, situado nas periferias urbanas brasileiras contemporâneas, traz o contraponto em um contexto tecnológico e sócio-histórico diferente: a violência é filmada, viralizada, transmitida por telejornais e redes sociais; as favelas são simultaneamente território real e produto midiático. Athayde e MV Bill mostram como a imagem da “boca de fumo”, do “traficante” e do “criminoso” se incorpora no discurso público e termina por orientar políticas de segurança, coopta narrativas locais e desincentiva leituras estruturais da pobreza.

Espaço: periferia vs. centro e a geografia das representações:

Kalifa descreve um centro urbano em plena transformação industrial, onde a criminalidade ganha foco porque perturba a ordem burguesa e porque vende jornais. O “espaço” aqui é a cidade em expansão: a vitrine do capitalismo nascente que precisa explicar (e conter) a desigualdade. Em contraste, Cabeça de Porco mostra periferias que a mídia contemporânea insiste em manter como “fora” do centro — zonas de exceção onde a violência é tratada como fenômeno cultural ou patológico, mais que como resultado de exclusão socioeconômica. A imprensa e as câmeras reconstroem esses territórios como ameaças permanentes, demarcando fronteiras simbólicas entre “nós” e “eles”.

Temporalidade: do papel à tela:

A passagem do século XIX ao século XXI acompanha uma transformação técnica decisiva. No modelo de Kalifa, o jornal impresso, a notícia e fixa a imagem do criminoso num ciclo relativamente previsível: rumor — reportagem — ilustração — julgamento simbólico. No Brasil contemporâneo, as televisões, os portais noticiosos e as redes sociais aceleram e fragmentam esse ciclo: imagens em vídeo, áudios, transmissões ao vivo e comentários em tempo real potencializam a circulação, mas também pulverizam a responsabilidade editorial. A velocidade amplia a visibilidade do conflito, transforma indivíduos em virais e intensifica decisões políticas e operações policiais em reação a manchetes, trending topics e cliques.

A construção do inimigo e seus efeitos práticos:

Ambos os livros mostram que a mídia não é apenas observadora; ela ativa mecanismos legais, econômicos e simbólicos. Kalifa demonstra como a imprensa do século XIX contribuiu para criar um tipo de figura criminosa que justificava câmaras inquisitoriais e leis novas; Athayde e MV Bill expõem como a cobertura contemporânea das favelas legitima operações de polícia militar, projetos de encarceramento e estigmatização institucional — e como essas intervenções retroalimentam a violência que elas dizem combater.

Importância dos atores locais e das vozes subalternas:

Uma diferença crucial é a presença (em Cabeça de Porco) de atores locais que resistem à única narrativa: lideranças comunitárias, educadores, artistas e ex-detentos que tentam redescrever a periferia. Já na análise de Kalifa, a imprensa massiva raramente incorpora vozes da periferia operária do século XIX — o “outro” é narrado por quem detém a caneta. Hoje, embora as mídias sociais possam dar voz direta a moradores, essas vozes competem num ambiente saturado onde imagens sensacionais continuam dominando a agenda.

Mídia como mercado e como máquina de moralidade:

Ambos os contextos confirmam uma constatação: notícias sobre crime são mercadoria. No século XIX, vender jornais exigia casos chocantes; hoje, cliques e audiência ditam manchetes. Essa relação mercado-moralidade transforma crime em espetáculo e simplifica causas complexas — o resultado é uma opinião pública inclinada a respostas punitivas imediatas, políticas de exceção e universalização do medo.

Narrativas que precisam ser desconstruídas:

A correlação entre Cabeça de Porco e A tinta e o sangue mostram que, apesar das diferenças de época e tecnologia, o núcleo do problema é semelhante: a mídia contribui decisivamente para definir quem é considerado criminoso e que respostas a sociedade adota. Ler os dois em diálogo permite perceber padrões - produção do pânico, mercantilização do sofrimento, invisibilização de estruturas - e pressiona por uma imprensa que contextualize, pluralize vozes e recuse a simplificação sensacionalista. Para além do diagnóstico, resta um convite: transformar a agenda pública, criando espaços midiáticos e políticos que privilegiem explicações estruturais, reparação social e políticas de segurança orientadas por direitos, e não apenas por imagens que vendem.

A Violência Midiatizada: Da Paris do Século XIX às Favelas Cariocas do Século XXI

A violência sempre existiu; a forma como a contamos, porém, nunca foi neutra. Entre Paris e Rio, entre o século XIX e o XXI, a mídia permanece como protagonista nessa história - para o bem ou para o mal.

Como a construção narrativa do crime atravessa séculos e fronteiras, revelando padrões midiáticos que transformam a violência em espetáculo

Separados por mais de um século e um oceano, dois livros aparentemente distintos revelam uma inquietante continuidade histórica: a relação simbiótica entre violência, criminalidade e mídia. "A Tinta e o Sangue", do historiador francês Dominique Kalifa, e "Cabeça de Porco", da dupla brasileira Celso Athayde e MV Bill, expõem, cada um à sua maneira, como a narrativa midiática sobre o crime não apenas documenta a violência, mas a constrói, a espetaculariza e a transforma em mercadoria cultural.

O Nascimento do Crime como Espetáculo:

Em "A Tinta e o Sangue", Kalifa mergulha na Paris do século XIX para desvendar o momento fundacional da cultura de massa em torno do crime. A capital francesa, então epicentro da modernidade, testemunhou o nascimento de uma nova forma de consumir violência: através da imprensa sensacionalista, dos romances policiais e dos fait divers - aquelas pequenas narrativas de crimes cotidianos que fascinavam (e ainda fascinam) o público.

O historiador demonstra que a tinta dos jornais e a tinta da literatura beberam do sangue real das ruas parisienses para criar um imaginário do crime que ultrapassava em muito a realidade estatística. A violência, filtrada pelas lentes da mídia oitocentista, tornava-se produto de entretenimento, instrumento de controle social e ferramenta de construção de identidades urbanas.

Das Apaches Parisienses aos Comandos Cariocas:

Avançando no espaço e no tempo, chegamos ao Rio de Janeiro do início do século XXI. "Cabeça de Porco", lançado em 2005, leva o leitor para dentro do Complexo de favelas da Penha, oferecendo um relato visceral da violência urbana brasileira. MV Bill, rapper nascido e criado na Cidade de Deus, e Celso Athayde, produtor cultural e ativista, constroem uma narrativa que é simultaneamente denúncia, testemunho e obra jornalística.

A correlação temporal é reveladora: assim como as gangues das "Apaches" aterrorizavam o imaginário parisiense do fin-de-siècle - frequentemente de forma exagerada pela imprensa -, os "comandos" e facções das favelas cariocas ocupam, no século XXI, um espaço desmedido no noticiário brasileiro. A diferença crucial, porém, está no lugar de fala: enquanto Kalifa analisa como a elite letrada francesa construiu narrativas sobre as classes perigosas, Athayde e MV Bill falam de dentro, desmontando estereótipos midiáticos com a autoridade de quem viveu a realidade retratada.

A Mídia como Mediadora e Criadora da Violência:

Ambos os livros, cada um em seu registro, evidenciam o papel central da mídia não como mero espelho da violência, mas como agente ativo em sua configuração social. No século XIX francês, a imprensa popular criou arquétipos do criminoso que permanecem até hoje: o apache violento, a prostituta vítima, o burguês devasso. Esses tipos, mais do que descrever a realidade, moldavam a percepção pública e influenciavam políticas de segurança.

No Brasil contemporâneo, "Cabeça de Porco" denuncia operação semelhante. A favela midiatizada é quase sempre sinônimo de violência, seus moradores eternamente suspeitos, suas crianças condenadas de antemão. MV Bill e Athayde mostram como essa narrativa hegemônica invisibiliza a complexidade social das comunidades, reduzindo-as a cenários de guerra onde apenas traficantes e policiais existem.

O Sangue que Vende Jornais - Ontem e Hoje:

"Se há sangue, há primeira página" - o velho adágio jornalístico que Kalifa identifica no século XIX permanece assustadoramente atual. A economia da atenção, que começou com os jornais populares franceses vendidos a um centavo, atinge seu paroxismo nas redes sociais e na cobertura televisiva contemporânea. A chacina, o tiroteio, a operação policial: tudo vira espetáculo instantâneo, consumido vorazmente por uma audiência simultaneamente horrorizada e fascinada.

A diferença talvez esteja na velocidade. Enquanto os leitores parisienses esperavam a edição vespertina para saber dos crimes matinais, hoje o sangue é transmitido ao vivo, em tempo real, com helicópteros sobrevoando favelas e cinegrafistas documentando cada disparo. A tinta se tornou pixel, mas o sangue continua sendo o mesmo.

Geografias da Exclusão:

Há também uma perturbadora continuidade geográfica na forma como a violência é espacializada. Kalifa mostra como certos bairros parisienses - Belleville, La Chapelle, zonas operárias - eram construídos discursivamente como territórios do perigo, zonas morais onde a lei vacilava. Essa cartografia do medo legitimava tanto o sensacionalismo midiático quanto as incursões policiais mais violentas.

"Cabeça de Porco" revela mecanismo idêntico operando nas favelas cariocas. O morro, na geografia imaginária da cidade, é o espaço do Outro, do perigo, da desordem - o que autoriza tanto a cobertura espetacularizada quanto a violência estatal sistemática. Em ambos os casos, a estigmatização midiática de territórios inteiros reforça ciclos de marginalização e violência.

Resistências Narrativas:

Contudo, se Kalifa documenta como os subalternos foram representados pela elite midiática do século XIX, "Cabeça de Porco" representa algo radicalmente novo: a tomada da palavra. MV Bill e Athayde não são acadêmicos externos analisando a favela, mas vozes emergentes de dentro dela, disputando o monopólio narrativo sobre suas próprias vidas.

Essa ruptura é fundamental. O livro brasileiro não apenas denuncia a midiatização da violência, mas oferece uma contra-narrativa, complexificando o que a mídia tradicional simplifica, humanizando quem ela desumaniza, contextualizando o que ela espetaculariza. É a diferença entre ser objeto e sujeito da história.

Um Século de Continuidades:

Colocados em diálogo, "A Tinta e o Sangue" e "Cabeça de Porco" revelam que a relação entre mídia, violência e criminalidade possui raízes históricas profundas. Da Paris de Balzac e Zola ao Rio de Janeiro de MV Bill, permanece a tentação de transformar o sofrimento real em entretenimento, de simplificar complexidades sociais em narrativas maniqueístas, de estigmatizar territórios e populações inteiras.

Mas os livros também apontam caminhos. Se Kalifa nos ajuda a entender historicamente como chegamos aqui - como a cultura de massa sobre o crime se consolidou -, "Cabeça de Porco" demonstra que outras narrativas são possíveis quando aqueles que vivem a violência tomam a caneta (ou o microfone) das mãos de quem apenas a observa de longe.

A tinta continua se alimentando do sangue, mas agora algumas mãos antes silenciadas começam a escrever suas próprias histórias. E isso, talvez, seja o início de uma mudança que nem Kalifa poderia ter previsto ao estudar a Paris do século XIX: o momento em que os objetos da narrativa criminal se tornam seus sujeitos, desafiando um século e meio de representações que os desumanizaram.

O Espetáculo do Medo: Da Paris da Belle Époque às Favelas do Rio de Janeiro:

Uma análise comparativa entre "A Tinta e o Sangue", de Dominique Kalifa, e "Cabeça de Porco", de MV Bill, Celso Athayde e Luiz Eduardo Soares, revela como a mídia molda, há séculos, a nossa percepção da violência.

Separados por um oceano e por um século de história, dois cenários aparentemente distintos se encontram na intersecção entre a tinta dos jornais e o sangue das ruas. De um lado, a Paris do final do século XIX, iluminada pelos lampiões a gás e aterrorizada pelas manchetes sensacionalistas. Do outro, o Rio de Janeiro do início do século XXI, marcado pelos becos das favelas e pela guerra do tráfico televisionada.

Ao colocarmos lado a lado o estudo histórico:  A Tinta e o Sangue, do historiador francês Dominique Kalifa, e a reportagem antropológica Cabeça de Porco, de Celso Athayde, MV Bill e Luiz Eduardo Soares, emerge uma linha contínua e perturbadora: a construção midiática do "criminoso" e a transformação da violência em produto de consumo de massa.

A Invenção do "Fait Divers" e a Realidade da Favela:

Dominique Kalifa nos transporta para a França da Belle Époque, momento em que a imprensa de massa explodia. É ali que nasce o fascínio moderno pelo crime. Kalifa demonstra como os jornais da época, o chamado Petit Journal, não apenas relatavam crimes, mas criavam uma narrativa de terror urbano. O "apache" parisiense — o jovem delinquente dos subúrbios — tornava-se uma figura mítica, um monstro necessário para vender jornais e justificar políticas de repressão higienista.

Saltamos então para o Brasil contemporâneo de Cabeça de Porco. O cenário muda, mas a dinâmica de estigmatização permanece assustadoramente similar. Se em Paris a tinta do jornal criava o monstro, no Rio de Janeiro, as câmeras de TV e as manchetes policiais ajudaram a consolidar a imagem do jovem negro e favelado como o "inimigo público número um".

Athayde, Bill e Soares mergulham na realidade crua que a mídia raramente mostra. Enquanto a imprensa tradicional foca no corpo estendido no chão e na apreensão de armas (o espetáculo), Cabeça de Porco busca a biografia por trás do gatilho. O livro revela a humanidade complexa dos "soldados do tráfico", desmontando a caricatura simplista que a sociedade consome no jantar.

O Medo Como Moeda de Troca:

A correlação espaço-temporal entre as obras evidencia que o medo é uma moeda histórica valiosa.

Em Kalifa, em pleno século XIX/XX o medo do crime serviu para vender tiragens recordes e consolidar a indústria cultural nascente. A violência era estética, um folhetim sangrento para entreter a burguesia segura em seus salões. Já para Athayde/Bill - século XXI -  esse medo justifica a militarização da segurança pública e a ausência do Estado nas favelas. A mídia, muitas vezes, atua como porta-voz oficial das operações policiais, perpetuando uma visão de "nós contra eles", onde a favela é o território do "outro", o bárbaro moderno.

A Voz dos Silenciados:

A grande diferença — e talvez o ponto de virada — está na autoria e na perspectiva. Kalifa faz uma arqueologia do discurso midiático; ele analisa como os outros falaram sobre o crime. Já Cabeça de Porco é uma ruptura nesse padrão histórico. Pela primeira vez, a narrativa não é apenas sobre o território vulnerável, mas parte dele. MV Bill e Celso Athayde, oriundos da CUFA (Central Única das Favelas), tomam para si a "tinta" para descrever o próprio "sangue".

Enquanto a imprensa francesa descrita por Kalifa lucrava com a distância entre o leitor e o criminoso, os autores brasileiros encurtam essa distância. Eles nos forçam a olhar nos olhos dos jovens que, sem opções de Estado ou mercado, encontram no tráfico uma identidade e um pertencimento — uma tragédia social que a manchete sensacionalista ignora deliberadamente.

A Mídia no Banco dos Réus:

Ler A Tinta e o Sangue à luz de Cabeça de Porco é perceber que a "crônica policial" nunca é neutra. De Paris ao Rio, a narrativa da violência é seletiva.

Kalifa nos ensina que a sociedade de massa precisa do crime como espetáculo para definir suas fronteiras morais. Athayde e Bill nos mostram o custo humano dessa necessidade. A junção das obras serve como um alerta atemporal: enquanto consumirmos a violência como entretenimento ou estatística fria, continuaremos a alimentar a engrenagem que mancha de sangue as ruas e de tinta (ou pixels) as nossas consciências.

A criminalidade muda de rosto, de arma e de sotaque ao longo dos séculos. Mas a lente de aumento da mídia, que distorce para vender e segregar, permanece, infelizmente, a mesma.

KALIFA, Dominique. A tinta e o sangue: narrativas sobre crimes e sociedade na Belle Époque. Tradução de Luiz Antônio Oliveira de Araújo. São Paulo: Editora da Unesp, 2019. 519 p.

SOARES, Luiz Eduardo; MV BILL; ATHAYDE, Celso. Cabeça de porco. Rio de Janeiro: Objetiva, 2005. 295 p.

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