domingo, 2 de agosto de 2026

O espelho partido da liberdade: a anatomia da autocracia, o leviatã digital e as máquinas de propaganda

 

A história da civilização humana é, em grande medida, a história do cabo de guerra entre o desejo de autonomia e a tentação do controle absoluto. Quando olhamos para o cenário político global contemporâneo, percebemos que a promessa democrática do fim do século XX enfrenta uma ressaca severa. A autocracia, uma das formas mais antigas e persistentes de organização do poder, não apenas sobreviveu à modernidade, mas se metamorfoseou, encontrando no ecossistema digital do século XXI e nos métodos refinados de controle psicológico o seu terreno mais fértil.

Definição técnica, terminológica e o berço histórico

Terminologicamente, a palavra autocracia deriva do grego autokráteia (composta por autós, "por si mesmo", e krátos, "poder" ou "governo"). Em sua definição técnica e conceitual, trata-se de um sistema de governo no qual o poder político está concentrado nas mãos de um único indivíduo ou de um pequeno comitê centralizado, cujas decisões não estão sujeitas a restrições legais externas nem a mecanismos regulares de controle popular. Dentro do escopo desta análise, a liderança autocrática caracteriza-se pela centralização inflexível das tomadas de decisão, pela aniquilação deliberada de canais de debate e contraditório, por uma postura messiânica de infalibilidade e pela exigência de obediência cega e inquestionável de seus subordinados e cidadãos. Esse tipo de líder atua por meio do esvaziamento das instituições mediadoras e da imposição de uma governança verticalizada, onde as dinâmicas de poder dependem exclusivamente de sua vontade personalista, transformando a máquina estatal em uma extensão de seu próprio ego e projeto de poder, o que o diferencia da ditadura militar clássica por muitas vezes manter uma fachada institucional e jurídica, e do absolutismo monárquico por não depender de uma linha de sucessão hereditária ou de uma justificativa divina tradicional.

O berço histórico da autocracia como conceito formalizado reside na antiguidade clássica, emergindo como o contraponto perfeito à pólis democrática grega e à res publica romana. Enquanto Atenas experimentava a distribuição do poder entre os cidadãos, os impérios vizinhos — como o Império Persa — eram vistos pelos pensadores ocidentais como o modelo de despotismo e autocracia, onde a vontade do soberano era a lei viva. Na transição para a modernidade, o conceito ganhou contornos teóricos robustos com a obra O Leviatã (1651), de Thomas Hobbes, que argumentava que, para escapar do estado de natureza, a humanidade cedia seus direitos a um soberano absoluto em troca de segurança.

 Autocracias, ditaduras e a linha de transição institucional

Na ciência política, embora os termos sejam frequentemente usados como sinônimos no debate público, a autocracia funciona como um guarda-chuva conceitual que engloba diferentes formas de regimes não democráticos, incluindo as ditaduras. A linha de transição ou diferenciação entre uma autocracia genérica e uma ditadura (seja ela militar, de partido único ou personalista) reside no nível de institucionalização e na violência do fechamento do regime.

Enquanto as ditaduras clássicas do século XX costumavam ascender por meio de rupturas violentas e explícitas — como golpes de Estado que aboliam constituições e fechavam parlamentos —, muitas autocracias modernas operam de forma mais dissimulada. Elas utilizam a estrutura jurídica existente para estrangular a democracia por dentro, um fenômeno que teóricos chamam de "autocratização legal". No entanto, ambas compartilham o mesmo DNA: a eliminação real da competição política, o controle sobre o aparato de coerção do Estado (polícia e forças armadas) e a subordinação do sistema de justiça aos interesses de sobrevivência do grupo governante. A ditadura é a autocracia em seu estágio mais explícito e coercitivo.

A Engenharia do consentimento: a propaganda como arma de conquista

Para sobreviver sem depender exclusivamente do uso da força bruta — que é economicamente cara e politicamente desgastante —, regimes autocráticos e ditatoriais recorrem historicamente à propaganda sistemática. A função primária da propaganda autocrática não é apenas desinformar, mas moldar a percepção da realidade para conquistar adeptos, simpatizantes e, fundamentalmente, criar uma base de apoio popular genuína e fervorosa.

Historicamente, essa engenharia do consentimento baseia-se em três pilares fundamentais:

  1. O culto à personalidade: A transformação do líder autocrata em uma figura infalível, paternal e semideusa. A propaganda satura o espaço público com sua imagem, associando-o diretamente a conquistas nacionais, prosperidade e proteção.
  2. A fabricação do inimigo comum: Para unificar a sociedade, a propaganda cria ou infla ameaças (sejam bodes expiatórios internos, como minorias e opositores, ou potências estrangeiras). O medo coletivo é canalizado para fazer com que a população veja as medidas autoritárias e a perda de liberdades não como uma opressão, mas como um sacrifício necessário para a segurança nacional.
  3. A monopólio da verdade: Através da censura prévia ou do sufocamento econômico de vozes independentes, o regime constrói uma narrativa única. O historiador e filósofo tcheco Vilém Flusser apontava que a propaganda totalitária funciona como um monólogo que elimina o diálogo. Quando não há contraposição, a mentira repetida à exaustão passa a ser a única baliza de realidade disponível para o cidadão comum, transformando simpatizantes passivos em defensores ativos do regime.

O quadro dos perigos: o impacto multidimensional da autocracia

A governança autocrática e a lavagem cerebral da propaganda não se limitam a alterar o topo da pirâmide política; elas reconfiguram o tecido social e a psique humana, influenciado pelos aspectos:

·        Políticos e econômicos: no âmbito político, a autocracia aniquila o pluralismo e transforma instituições de Estado em meros carimbadores da vontade do governante. Economicamente, embora regimes centralizados possam apresentar surtos de crescimento no curto prazo devido à velocidade de execução de diretrizes estatais, o modelo é historicamente insustentável. A ausência de segurança jurídica, o capitalismo de compadrio e a corrupção sufocam a inovação orgânica.

·          Sociais e psicológicos (coletivo e individual): socialmente, a autocracia destrói o "capital social" — a confiança mútua entre os cidadãos — ao incentivar a cultura da delação e do medo. No âmbito psicológico individual, instala-se o fenômeno do desamparo aprendido, onde o indivíduo internaliza a ideia de que suas ações não podem mudar a realidade. Coletivamente, as massas alimentadas pela propaganda entram em um estado de dissonância cognitiva crônica: passam a performar uma lealdade pública cega para garantir aceitação social e segurança psicológica dentro do grupo dominante.

A autocracia no século XXI: o Leviatã digital e as Big Techs

Se no século XX as ditaduras dependiam do controle físico dos meios de comunicação — ocupando rádios e jornais com tanques —, no século XXI a autocracia opera por meio de linhas de código, algoritmos e dados massivos (Big Data). O desenvolvimento midiático contemporâneo descentralizou a informação, mas também automatizou a propaganda em uma escala microscópica e personalizada.

O perigo mais insidioso para as democracias atuais reside no domínio das grandes empresas de tecnologia (Big Techs). Ao monetizarem o engajamento baseado na indignação, os algoritmos criaram câmaras de eco perfeitas para a proliferação de narrativas autocráticas. O poder dessas corporações transita por um território cinzento: elas detêm mais dados sobre o comportamento e medos dos cidadãos do que qualquer aparato de propaganda do passado. Quando líderes de inclinação autocrática instrumentalizam essas ferramentas, a infraestrutura da democracia é corroída por dentro através de uma "censura por inundação", onde a verdade factual é asfixiada por um oceano de desinformação coordenada.

A sedução do discurso e a colonização das mentes

Os líderes autocráticos contemporâneos dominam as mentes humanas através de uma arquitetura discursiva midiática altamente sofisticada, que resgata elementos estéticos e retóricos que tangenciam o fascismo clássico, adaptados à velocidade das redes sociais. Esse discurso baseia-se na criação de uma narrativa mitológica de crise permanente e humilhação coletiva, onde o líder se apresenta como a encarnação única e messiânica da vontade do "povo verdadeiro", em oposição a inimigos internos e externos fabricados. Utilizando uma linguagem deliberadamente simplista, violenta e performática, esses líderes exploram as ansiedades econômicas e o desamparo psicológico das massas, transformando o medo legítimo em ressentimento direcionado.

A eficácia dessa comunicação baseada na propaganda moderna reside na sua capacidade de colonizar a subjetividade individual, operando não pela lógica formal, mas pela ativação de afetos primitivos como a raiva e o pertencimento tribal. Através de transmissões diretas, vídeos curtos e memes compartilhados em escala industrial, o autocrata moderno destrói a fronteira entre o público e o privado, fazendo com que o seguidor sinta uma conexão íntima e inquestionável com o poder. Esse sequestro cognitivo, que beira o fascismo em sua busca pela homogeneização do pensamento e pela desumanização do adversário, anula o pensamento crítico e transforma o cidadão em um militante atomizado, pronto para defender a autocracia sob a ilusória bandeira da libertação nacional.

Referências Bibliográficas

ARENDT, Hannah. As Origens do Totalitarismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.

ATWOOD, Margaret. O Conto da Aia. Rio de Janeiro: Rocco, 2006.

FAHRENHEIT 451. Direção: François Truffaut. Reino Unido: Universal Pictures, 1966. Filme ficcional (112 min).

HOBBES, Thomas. Leviatã ou Matéria, Forma e Poder de um Estado Eclesiástico e Civil. São Paulo: Martins Fontes, 2003.

O DILEMA das Redes (The Social Dilemma). Direção: Jeff Orlowski. Estados Unidos: Netflix, 2020. Documentário (94 min).

A ONDA (Die Welle). Direção: Dennis Gansel. Alemanha: Constantin Film, 2008. Filme ficcional (107 min).

ORWELL, George. 1984. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.



sábado, 4 de julho de 2026

A cortina de fumaça de Trump: como o combate ao crime mascara o monopólio das Big Techs e a exclusão social

 

Não há em curso qualquer ação imperialista clássica por parte do governo Trump em relação às medidas tomadas para conter o terrorismo ao classificar as organizações criminosas brasileiras, especificamente o PCC e o Comando Vermelho. Devemos frisar bem: Trump é um homem de mídia, um showman, e precisa estar constantemente sob os holofotes da imprensa e do show business. A sua vida sempre foi isso: aparecer e mostrar-se. Na política, não seria diferente, ainda mais no cenário atual em que ele enfrenta problemas com a justiça. A verdade é que Trump não se importa com a política tradicional e, muito menos, com a criminalidade e a violência, seja no mundo ou mesmo em seu próprio país. O papel dele no governo se resume a enriquecer a si mesmo e aos seus aliados das Big Techs, que já acumulam fortunas bilionárias. O seu desejo pauta-se apenas no dinheiro, mais nada. Ao tomar a decisão de classificar essas facções brasileiras como terroristas — algo minimamente absurdo e que demonstra um desconhecimento total da realidade da segurança pública no Brasil —, trata-se, na verdade, de uma estratégia meramente vantajosa do ponto de vista econômico e financeiro. Pois, a partir do momento em que tais organizações são rotuladas como terroristas, o governo norte-americano ganha o pretexto para, unilateralmente e por meio de um ato autocrático, investigar e intervir secretamente no território brasileiro utilizando o FBI ou a CIA. Além disso, essa chancela permite bloquear bens e ativos financeiros de instituições, empresas e bancos que tenham ou não uma relação direta com essas facções. Tudo isso serve de justificativa para fornecer aos amigos e financiadores de Trump, ou a ele próprio, benesses econômicas, sob o argumento de que as empresas afetadas estão ligadas ao crime organizado e devem ser punidas. No entanto, o que mais nos espanta é o fato de analistas econômicos, especialistas em direito internacional e a grande mídia não darem o devido crédito à forma como Trump manipula certas decisões em benefício próprio. As brilhantes mentes desses profissionais da informação, da economia e do direito preferem seguir pela via enganosa do imperialismo ideológico, apontando que o governo americano deseja realizar uma incursão militar e invadir o país para combater o crime e o tráfico de drogas. Nada disso, meus caros leitores. Ou esses profissionais se equivocaram redondamente, ou estão ganhando boas gorjetas para divulgar tal posicionamento. Paralelamente, o governo brasileiro erra ao tratar o caso estritamente como uma questão de soberania nacional ameaçada por forças militares. A saída para esse impasse analítico está em compreender que o caminho adotado por Washington não se baseia na força bélica, mas sim no mais baixo método de asfixia econômica, destruindo a indústria e o comércio locais para abrir caminho e mercado às Big Techs e a outros setores que favoreçam exclusivamente a indústria estadunidense. A imposição arbitrária de tarifas ao comércio mundial deixa clara essa intenção de Trump. Diante de tais medidas impositivas e protecionistas, evidencia-se que a defesa do liberalismo econômico pelos ditos liberais atinge apenas um certo ponto: vigora quando lhes é propício e decai imediatamente quando contraria seus interesses. Portanto, esses atores mantêm-se liberais dentro de uma pequena esfera que contempla apenas os seus iguais — a saber, homens brancos, ricos e detentores do poder. No tocante aos diferentes e desiguais, o âmbito desse liberalismo seletivo não inclui os negros, os indígenas, as mulheres, as pessoas trans e outras minorias. Estariam eles alijados dos ideais liberais, assim como suas crenças, valores e culturas? A realidade demonstra que sim, eis que são historicamente pessoas excluídas desse ecossistema de privilégios mascarado de mercado livre. Essa exclusão socioeconômica, legitimada por discursos políticos de fachada, revela uma estrutura muito mais profunda de dominação que ultrapassa as barreiras do mercado. Toda essa narrativa a respeito de um imperialismo ficcional, suplantado por uma máquina política e midiática que nos retira a subjetividade humana e nos transplanta como engrenagens em um sistema automatizado, acaba recaindo também sobre os ombros da ciência moderna. Afinal, a mesma lógica que restringe o mercado aos detentores do poder econômico também opera para engessar a produção do conhecimento científico. Sob essa ótica, o primeiro ponto a se destacar é que a ciência jamais deveria estar presa a uma única metodologia, sendo salvaguardada como detentora de uma verdade absoluta e inquestionável. Em segundo lugar, os métodos científicos devem apoiar-se na variedade e ser amplamente testados por visões distintas e divergentes. A restrição de olhares a regras absolutas e imutáveis significa que a ciência deixa de se aprofundar holisticamente na busca de soluções palpáveis e reais para a sociedade. Não raramente, os resultados das pesquisas científicas mais inovadoras apontam na direção oposta de métodos e regras ditas consagradas pelo establishment. Por conseguinte, a tríade formada por ciência dogmática, racionalismo instrumental e capitalismo excludente restringe-se a proteger apenas a um grupo de poucos privilegiados. Estes, por sua vez, não reconhecem as demais formas de conhecimento e vivência, mas insistem veementemente na ideia de uma democracia global. Contudo, cabe o questionamento: que democracia é essa? Trata-se, evidentemente, de uma democracia torta e excludente; a democracia de poucos, daqueles que detêm o poder e que se acham no direito de invadir o mundo dos outros e de impor suas próprias leis para se manterem no topo da pirâmide. O domínio dessa elite contemporânea vai além do poder político e econômico tradicional: agora, cerca e coloniza também o fazer científico e o pensamento crítico. Diante dos fatos analisados, conclui-se que as ações geopolíticas contemporâneas, ilustradas pela rotulação de facções brasileiras como organizações terroristas pelo governo Trump, não devem ser lidas sob a ótica obsoleta de uma invasão militar, mas sim como manobras de um pragmatismo financeiro e corporativo altamente midiático. Este cenário expõe a fragilidade e a hipocrisia de um liberalismo que se diz universal, mas que opera de forma excludente, marginalizando minorias sociais e sufocando indústrias locais em benefício das gigantes tecnológicas. O controle exercido por essa elite dominante fecha seu ciclo de poder ao subjugar não apenas a política e a economia, mas também a ciência, transformando o método científico em um dogma rígido que ignora a pluralidade social e holística. Desse modo, o que se vende como defesa da segurança e da democracia global revela-se, sob uma análise coesa e racional, como um sofisticado mecanismo de manutenção de privilégios, onde o capital, a informação e o conhecimento científico permanecem concentrados nas mãos de quem detém o poder de ditar as regras do jogo mundial.

sábado, 27 de junho de 2026

O motor do progresso e a ambição que destrói: os vícios humanos no tabuleiro do Estado

 

A discussão sobre a moralidade pública, o comportamento individual e o papel regulador do Estado ganhou contornos dramáticos na contemporaneidade. Em uma era hiperconectada, marcada pelo consumo desenfreado, pela ascensão do capitalismo digital e por crises geopolíticas globais, a antiga questão sobre se as instituições governamentais devem moldar a virtude dos cidadãos ou apenas gerenciar suas falhas tornou-se urgente. Fenômenos modernos como as redes sociais, estruturadas sob a vaidade e o desejo de aprovação, e o mercado financeiro, movido pela ambição, demonstram que as engrenagens econômicas e sociais do século XXI ainda dependem profundamente de impulsos egoístas. Analisar como diferentes correntes filosóficas enxergam essa dinâmica — seja como combustível para o progresso, como ameaça à sobrevivência coletiva ou como um mecanismo de opressão psicológica — permite compreender os limites e as responsabilidades do poder estatal na gestão do comportamento humano contemporâneo.

Nesse cenário, as ideias de Bernard Mandeville, formuladas ainda no século XVIII, apresentam uma visão eminentemente pragmática e utilitarista, defendendo que o Estado deve atuar como um engenheiro social cujo papel é gerenciar, e não erradicar, os vícios para garantir a prosperidade nacional. Para o autor, o egoísmo inerente aos indivíduos funciona como a matéria-prima do benefício coletivo, de modo que o vício privado pode ser estrategicamente transformado em virtude pública. Em termos práticos, Mandeville sugere uma função estatal baseada na canalização e na legislação indireta. A primeira impede a imposição de uma virtude rígida e prefere incentivar o consumo de luxo, a vaidade e o orgulho pelas suas consequências econômicas positivas na criação de empregos e na circulação de riquezas. Paralelamente, a legislação serve para estabelecer leis eficazes que garantam a segurança e a ordem, mantendo o auto-interesse dentro de limites que evitem a desintegração social. Desse modo, os políticos hábeis utilizam as normas e a moralidade como ferramentas para domesticar o lado destrutivo do egoísmo e priorizar o poder material do país, agindo sobre as paixões humanas em vez de tentar modificar a natureza do homem.

Em contrapartida a essa abordagem pragmática, Bertrand Russell oferece, no século XX, uma perspectiva focada na contenção desses mesmos impulsos, enxergando o Estado como um mediador essencial para a preservação da paz. Escrevendo em um período de guerras globais, Russell formula uma crítica direta à gestão proposta por Mandeville, pois argumenta que a busca possessiva por riqueza e domínio — celebrada no modelo mandevilleano — constitui a raiz da competição imperialista e dos conflitos armados. Portanto, em vez de estimular o consumo e o acúmulo material, o Estado ideal concebido por Russell deve promover a vida criativa por meio da ciência, da arte e da educação, alterando as estruturas sociais e econômicas para que o auto-interesse seja canalizado em formas cooperativas. Adicionalmente, para neutralizar a manifestação máxima desse vício da possessividade em escala coletiva, o filósofo defende a necessidade de um governo internacional capaz de controlar o poder dos Estados-nação, redirecionando o papel das instituições governamentais da mera busca por opulência para a gestão ativa da paz mundial.

Avançando para uma crítica ainda mais radical, o místico Osho rompe com ambas as tradições ao adotar uma visão profundamente negativa do Estado e da sociedade organizada, classificando-os como sistemas puramente coercitivos. Enquanto Mandeville busca instrumentalizar o vício e Russell tenta contê-lo por vias institucionais, Osho rejeita terminantemente a premissa de que o aparato estatal possa gerenciar qualquer impulso para o bem, visto que a política, a religião e o Estado formam uma engrenagem conjunta de dominação e repressão. Na ótica do capitalismo pós-industrial sob a qual sua filosofia se insere, o Estado atua reprimindo a dúvida e impondo ideologias que fixam o indivíduo em uma mentalidade de rebanho e no fanatismo, perpetuando o vício real da humanidade, que é a inconsciência. Por conseguinte, a verdadeira prosperidade e a liberdade não decorrem de intervenções políticas, mas sim da ausência do Estado como força impositiva e da consequente transformação existencial de cada pessoa, que deve abandonar toda crença externa para alcançar a emancipação.

O paralelo analítico entre os três pensadores revela um profundo dissenso sobre o propósito e a legitimidade do gerenciamento governamental. Mandeville aborda o vício como uma força inevitável da natureza que o Estado precisa domar e utilizar em prol do crescimento econômico. Em uma posição intermediária quanto à necessidade de controle, Russell reconhece o vício como um perigo social iminente que exige a intervenção de um superestado ou de uma estrutura coletiva forte para evitar a autodestruição humana através da violência. Por fim, Osho subverte essa lógica ao demonstrar que o vício é apenas o sintoma de uma cegueira espiritual interna que o próprio indivíduo deve resolver por conta própria, tornando qualquer tentativa de tutela estatal um obstáculo ao amadurecimento humano. Assim, enquanto os dois primeiros autores debatem as melhores técnicas de governança coletiva, o terceiro desloca o eixo do debate para a autonomia absoluta do sujeito.

Em conclusão, o embate conceitual entre a utilidade econômica de Mandeville, o pacifismo estrutural de Russell e o anarquismo espiritual de Osho escancara as contradições intrínsecas ao desenho do Estado contemporâneo. Diante de uma realidade em que a engrenagem econômica global valida a premissa mandevilleana ao prosperar sobre a vaidade mercantilizada e o consumo supérfluo, as consequências colaterais desse modelo — como as desigualdades extremas e a degradação ambiental — resgatam a advertência urgente de Russell sobre a necessidade de limitar a possessividade material em prol da sobrevivência coletiva. No entanto, a crescente burocratização da vida moderna e a vigilância digital também dão razão aos temores de Osho, evidenciando que o controle institucional frequentemente sufoca a subjetividade e padroniza o pensamento. Diante disso, a reflexão crítica indica que a superação desse impasse não reside na aceitação cega do egoísmo como motor do progresso, nem no autoritarismo estatal disfarçado de virtude, mas sim no desenvolvimento de uma consciência ética individual capaz de transformar a busca por riqueza em responsabilidade social e criatividade compartilhada.

 

MANDEVILLE, Bernard. A fábula das abelhas: ou vícios privados, benefícios públicos. São Paulo: Editora Unesp, 2017. 412 p.

OSHO. Crença, dúvida e fanatismo: é essencial ter algo em que acreditar? São Paulo: Planeta, 2015. 254 p.

RUSSELL, Bertrand. Por que os homens vão à guerra. São Paulo: Editora Unesp, 2014. 219 p.

sábado, 20 de junho de 2026

Entre o estado supremo e a autonomia humana: anatomia do autoritarismo e seus contrastes

 

A arquitetura do poder político ao longo da história oscila entre a busca pela emancipação humana e a tentação do controle absoluto. Compreender as engrenagens da autocracia, do autoritarismo e do fascismo exige desmistificar a falsa promessa de estabilidade que esses regimes vendem; longe de entregarem ordem, eles institucionalizam a violência e operam pela erosão sistemática da alteridade e do pensamento crítico. Uma análise rigorosa dessas estruturas não pode se limitar à descrição de suas ferramentas de coerção, mas deve confrontá-las diretamente com a pluralidade mediada dos sistemas democráticos e com a radical negação do Estado proposta pelo pensamento anarquista. Investigar esse espectro político é, fundamentalmente, mapear as estratégias de sobrevivência de sistemas que sufocam a sociedade civil para blindar privilégios dinásticos ou corporativos sob o manto da infalibilidade estatal. A partir dessa premissa, nota-se que o fenômeno da centralização extrema do poder político manifesta-se historicamente por meio de diferentes nomenclaturas e estruturas, mas compartilha um núcleo comum de supressão das liberdades individuais. Dentro desse espectro, a autocracia se estabelece como um modelo em que a governança se concentra de forma absoluta nas mãos de um único líder ou de uma restrita junta governante, cujas decisões não encontram limites legais ou mecanismos institucionais de controle. Quando essa mesma lógica de controle se estende para a hipertrofia do aparato estatal sobre todas as esferas da vida civil, adentramos o terreno do autoritarismo, um sistema que prioriza a obediência cega e a manutenção da ordem em detrimento do pluralismo e do debate público. Paralelamente a esse cenário, o fascismo opera como uma vertente ainda mais radical e agressiva desse controle centralizado, diferenciando-se por sua base ideológica ultranacionalista e pela mobilização sistemática das massas. Essa engrenagem totalitária fundamenta-se no culto à personalidade do chefe de Estado, na exaltação de um passado místico idealizado e na criação deliberada de inimigos internos ou externos para justificar a violência e o cerceamento de direitos. Sob a ótica de uma crítica construtiva, essas vertentes governamentais revelam uma fragilidade intrínseca: ao sufocarem a divergência de opiniões e a inovação intelectual, criam sociedades estagnadas, movidas pelo medo e pela desconfiança mútua, o que invariavelmente culmina em crises humanitárias e no colapso econômico a longo prazo. Em contrapartida a esses modelos opressivos, ao confrontarmos tais estruturas com os regimes democráticos, a disparidade entre a governança baseada na imposição e aquela fundamentada no consenso torna-se evidente. Enquanto a autocracia e o autoritarismo anulam a soberania popular e blindam os governantes de qualquer responsabilização jurídica, a democracia se sustenta justamente na alternância de poder, no equilíbrio entre os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, e na salvaguarda dos direitos fundamentais das minorias. Em um mesmo plano de análise, se a democracia busca o equilíbrio social por meio de leis votadas por representantes eleitos, a autocracia utiliza a legislação como uma mera ferramenta de coerção para silenciar opositores, transformando o ordenamento jurídico em um escudo para os privilégios dos detentores do poder político. Por outro lado, expandindo o horizonte desse debate, torna-se enriquecedor analisar o autoritarismo sob a perspectiva diametralmente oposta do anarquismo, revelando as polaridades mais extremas da teoria política. Se os regimes autocráticos e fascistas elevam o Estado à condição de entidade suprema e infalível, argumentando que a ordem social depende de uma hierarquia rígida e punitiva, a filosofia anarquista propõe a abolição completa de qualquer forma de governo institucionalizado, sustentando que a cooperação voluntária e a autogestão comunitária são suficientes para manter a harmonia humana sem a necessidade de governantes ou de forças policiais. Enquanto o ditador enxerga no indivíduo apenas uma peça engrenada a serviço do Estado, o anarquista defende a autonomia absoluta do sujeito, enxergando no próprio aparato estatal a fonte primordial de toda a corrupção e desigualdade social. Por fim, ao esmiuçar as dinâmicas contemporâneas, compreende-se que a sobrevivência moderna do autoritarismo frequentemente se disfarça sob aparências de legalidade. Autocratas contemporâneos raramente ascendem ao poder por meio de golpes militares clássicos; inovações autocráticas mostram que eles costumam subverter as regras do jogo democrático por dentro, erodindo gradualmente a independência da imprensa, enfraquecendo o poder Judiciário e manipulando os processos eleitorais para perpetuar seu domínio. A vigilância civil constante e o fortalecimento da educação crítica despontam, portanto, como os antídotos mais eficazes contra a ressurgência dessas marés totalitárias, garantindo que a pluralidade e a dignidade humana não sejam sacrificadas no altar do poder absoluto. À luz dessas reflexões, evidencia-se que o verdadeiro termômetro de uma sociedade saudável não reside na rigidez de seu controle coercitivo, mas em sua capacidade de conviver com o dissenso e promover a justiça social. Enquanto as utopias absolutistas de controle e as distopias libertárias totais tencionam os limites da governabilidade, a busca por um equilíbrio dinâmico permanece o maior desafio da modernidade. O colapso histórico das tiranias deixa uma lição clara: qualquer sistema político que reduza o ser humano a um mero recurso estatal carrega em si os germes de sua própria destruição, pois a necessidade intrínseca de liberdade e agência individual sempre encontrará canais de resistência. Diante desse panorama indissolúvel, conclui-se que o futuro da convivência coletiva exige o abandono de fórmulas autoritárias simplistas em prol de um compromisso ético permanente com os direitos humanos e a transparência institucional. Mais do que escolher um modelo de governo ideal, o progresso civilizatório depende do fortalecimento de espaços públicos de debate que impeçam o sequestro do poder por elites messiânicas. Somente por meio de uma cidadania ativa, consciente de sua memória histórica e disposta a defender a tolerância, será possível blindar o amanhã contra a perene e camaleônica ameaça do absolutismo.

sábado, 6 de junho de 2026

A leitura do método filosófico: uma busca inalcançável ou não

Introdução:

No semblante cansado de um homem amargurado pelo tempo encontram-se os segredos mais recônditos, em seus olhos percebe-se um traço de infelicidade e desapontamento com a vida, em sua mente, talvez, guarda-se ressentimentos e desesperança de tempos difíceis de um passado sem glórias. Ele prefere o silêncio e o a escuridão da noite para remoer e digerir seus desencantos. Só o olhar já escancara sua cicatrizes. As palavras lhe são inúteis, incapaz de expressr a sua mais tenra solidão. Alguns o apontam como sábio, um demiurgo, um semi-deus. Já outros o acham um louco, quem sabe um misantropo por estar ali sentado de maneira resignada,imóvel, entocado dentro de si,como um caracol que enfia-se dentro da concha. Não, meus caros leitores, nunca foi ele o mensageiro do saber, o filósofo das ruas, e apenas um ser atormentado por um passado incerto e distante que o assombra em devaneios. Então, o que podemos com ele aprender perante seu silêncio ensudercedor. Talvez, o filosofar de uma sabedoria inexistente; o caos de uma mente desconexa do mundo real possa nos ensinar algo que já tanto sabemos. O observar minuncioso das pequenezas do nada nos torne mais compreensivos diante das desgraçasdo mundo. Mas, como entender aquele ser, se não se quer um grunhido, nem mesmo um gesto naquele corpo inerte, parece morto, no enanto a mente gira, rodopia feito um pião e tagarela silenciosamente na confusão do pensar. Eis, um sábio - gritam os mais exaltados. Quiça haja, jamais descobriremos. Paira assim o mistério do filósofo. 

Reminiscências do filósofo

Que diga-se a ele que o pensamento jamais esteve circuinscrito no limiar do saber raso. Há nas profundezas do consciente, ou quiça, no inconsciente alguma lembrança do ato de elucubrar ideias, construir conceitos, fixar analogias próprias num discurso. É isso, simplesmente isso que nos encamnha na direção da sabedoria. Acresce-se a esse caldeirão ontológico as capacidades cognitivas da criação artistíca, o fazer manual, o modelar a massa e dela surgir a mais sublime obra de contemplação. Sabe-se que a arte existe única e exclusivamente como mecanismo para romper o vazio do cotidiano e abstrair o peso do mundo a qual carregamos e aliviar-nos da imensa dor, uma dor fingida e canalha. A plenitude do humano nunca tivera nas tarefas, na labuta, no atordoar das máquinas e no barulho ensurdecedor da fábrica. Mas sim, nos movimentos suaves do corpo, no redemoinho da dança e no fazer arte. Assim, rompe-se o enferrujar das articulações e volta-se a primazia do mover-se. No entanto, falta-nos a sensibilidade do sentir a brisa fria do ar, o molhar os pés na água limpa do rio e depois correr ao mar. Vejam, apreciem e venerem as pequenas coisas, a simplicidade de abservar atentemente por horas as trilhas das formigas, o cantar do passáros ver a chuva pela janela do quarto num dia frio. Isso chama-se viver, e estar vivo é uma dádiva, privilégio do existir e do estar presente. Com isso, tornamo-nos observadores do mundo, porém, não do mundo dos homens e do cosmo. E sim, de um microcosmo, o ambiente das pequenezas, daquilo que é imperceptível e raro. Diante de tudo, o que se deseja é um pensar. Um pensar lento,cuja mente vagueie vagarosamente pelas páginas de um livro, numa leitura dotada de prazer e que as páginas sobressaltem o nosso olhar. Nelas veremos uma multidão de ideias, conhecimentos, saberes e tendências. Por outro lado, guerras, miséria, doenças e conflitos estarão na pauta do dia. 

Uma leitura suave

Em um mundo conflituoso de guerras, doenças e imensa destruição dos ambientes e dos espaços; busquemos a paz. Principalmente a paz interior enão só para um ser, mas que a Gaia terra seja irmanada na igualdade e na tranquilidade. E então, uma nova ordem seja estabelecidada para definr positivamente o século XXI. Não se quer o caos, nem guerras e muito menos a separação dos povos. É preciso criar pontes para ligar ideias, culturas, economias, políticas e fazer o planeta fluir como um rio. Daí teremos uma leitura mais suave das coisas que pretencem a este velho mundo. Tornando mais fácil ressignificar nossa relação com os elementos metafisicos. Portanto, como é bom se jogar, poder mergulhar de cabeça em algo que nos faça sentir verdadeiramente inteiros e plenos. E então, não se preocupar em ser outro, apenas nós mesmos com todos os defeitos, imperfeições e limitações. Ler as entrelinhas do mundo permite-nos buscar vias e rotas antes não naevgadas, surfar ondas desconhecidas, embrenha-se por matas virgens e perder-se por completo. Sermos um emaranhado de nós neurais, que entre laços, conexões e neurônios perfazem as ligações sinápticas ultrapassarem as forças do pensar, gerando estrondosa capacidade telepática. Com isso, não precisaremos mais de palavras para demonstramos sentimentos, basta apenas um olhar e toda compreensão materizaliza-se. É a completude do ser na sua transcedência metafísica, que coloca abaixo a mais avançada das tecnologias. O próprio corpo e mente transitam informações, conhcimentos e sabedoria. Nele, o corpo, basta o que há de hardware e mente - software - deixando para trás qualquer vestígio de inteligência artificial. No ser a inteligência brota do natural,do aprender, do imitar e do comunicar não só com palavras, mas com gestos, olhares e expressões peculiares de aprovação ou reprovação. De tal leitura caminha-se para a relação homem-máquina. 

Leitura do homem-máquina

Homem, máquina complexa de subjetividade, limítrofe e ao mesmo tempo insuperável na caçada por soluções frente às dificuldades. Por isso a insistência de viver até o último segundo, o último suspiro - o sopro de vida na ilusão da vida eterna. Só a morte é certa. Nasce daí a nossa crença em criar divindades, cultuar deuses numa fé arraigada. Raiz suprema da história para guardar memórias e valorizar ancestrais. O traço típico nascente da civilização está e enterrar os mortos , encomendar as almas num réquiem como um festejo fúnebre e assim bebem-se os mortos. Então, criamos Deus a nossa imagem para ao mesmo tempo celebrar e punir nossos atos. Um bode expiatório cujo devemos devoção, súplicas e culpa. Bem, nunca sou eu, sempre será Deus. Dessa forma, fugimos de nossas responsabilidades divinas e entregamos nas mãos desse ser etério e incorpóreo as mazelas do mundo e as nossa também. Se por acaso perdemos a razão, qualquer seja o motivo, não diz que somos irracionais e muito menos faz de nós animais. Apenas retornamos a origem do instinto primitivo, e isso explica os medos, as angústias, os atos involuntáriosque predominam o inconsciente. Perder a razão é voltar-se para a essência do ser, talvez o desconecatr-se do presente viver, deligar-se do contemporâneo e atingir o princípio, a gênese humana. Somente os loucos entenderão o que seria a perda da razão e da mesma forma os puros de alma. A certeza é dogmática e não nos faz sábios, diate dela somos apenas tolos. O absoluto nao nos abre a mente enem pertence a ordem do pensar. O grande segredo da sabedoria - dizem os filósofos - está nas perguntas, nas dúvidas e por isso nos levam a pesquisar, a arguir e procurar saídas aos problemas. Dessa forma as respostas surgem naturalmente, fluída como a água. 

Métodos errados são um problema 

Querer insistir em métodos já vencidos, não produtivos,dotados de erros jamais permitirá que avancemos em nosso conhcimento. Ao tomar essa estrada procure corrigir a rota, avalie novas possibilidades, busque despir-se de suas crenças e valores ultrapassados, já não valem mais nada. Bem, os paradigmas são outros e logo serão substítuídos num curto prazo. Pois, a luz clarividente do saber se fará inteira apenas se desdobrarmos de nossa ignorância, e para isso acontecer é preciso admitir nossas falhas e assumí-las com humildade intelectual. Portanto, darmos a mão à incerteza nos torna mais forte intelectuamente, abre-nos os ouvidos para compreender o outro e saber que ele não é um inimigo a se evitar. Saímos então da posição de desconfiança e desconforto. Com isso, tornamo-nos mais tolerantes, ávidos a ouvir e aprender sem nos fecharmos dentro da concha do absoluto. Da forma como utilizamos o método podemos ser induzidos ao erro e assim colocarmos tudo que construímos a perder. A solução muitas vezes encontra-se numa metodologia simples e eficaz, porém a descartamos por ser demasiadamente simplória. Logo, deem-nos o direito de não ter certeza sobre nada, de sermos contraditórios e de desconstruir o quanto for necessário. As vezes é melhor não ter métodos e nos guiarmos pela mais pura intuição. Claro, tais atitudes deixarão profundas feridas, porém um dia cicatrizarão e cada marca será um lembrança viva do quanto aprendemos. Aqueles que não apresentam marcas e cicatrizes é porque ainda não amadurecerem o suficente para andar sozinho e está preso as suas raízes. Cabe-lhe desvencilhar de suas certezas, ilusões e preconceitos. Mas para isso, precisam adotar o método que lhe seja o mais adequado. 

sábado, 16 de maio de 2026

Não há felicidade neuronal na exploração do trabalho

Como não podemos jamais deixar de analisar e criticar as trilhas neoliberais e seus atores que operam no mercado, lembrando que o capital atua no sentido da acumulação e põe em cheque aqueles não conseguem fazer o jogo do dinheiro. Ou seja, o capital muda rapidamente de mãos conforme os seus atores vacilam por não acompanhar a evolução mercadológica. Nessa lógica, o autor do livro: Começe errado, mas começe! tenta justifcar o lucro como missão social, ou melhor, justificar o capitalismo com um lado humano e social. De forma alguma somos contra o lucro, a empresa - sim - deve lucrar, por outro lado os trabalhadores devem ter o direito a participar desses lucros. Afinal, quem produz é o trabalhador. O lucro não deve ser o acúmulo somente do patrão. Até mesmo por que o autor afirma que o lucro precisa ter um caráter social. Em direção ao aspecto da centralização diz o autor: é um fator que desestimula a inovação. Nessa afirmação, há uma certa razão - talvez uma verdade. Pois, se centralizamos o conhecimento, a informação e o saber a disseminação e o compartilhamento desses acabam prejudicados. Torna-se uma caixa hermeticamente fechada e somente aquele que possui a chave tem acesso. A inovação depende de espaço e tempo sem controle de hierarquias de poder. Por isso, faz-se necessário na empresa a gestão por células e núcleos interativos, justamente para que o conhecimento, a infomação e o saber possa transitar de maneira livre. Segundo a visão do autor os colaboradores é que ajudam na construção da cultura organizacional. Como dissemos anteriormente, colaborador é o trabalhador. Sendo ele quem produz a mercadoria e está no chão da fabrica. É aquele que detém o conhecimento e o vende em troca de um salário. Portanto, é quem faz a cultura no ambiente da organização. Contudo, tal cultura infelizmente se vê decepada caso haja mudança de algum gestor (gerente, diretor ou CEO). Na cultura organizacional, um dos pontos mais importante pauta-se no erro como meio de aprendizagem. Assim aponta o autor: quanto mais se erra, mais se aprende. O aprendizado é o capital do futuro. Sim, trata-se de um fato verdadeiro, já de conhecimento de todos. As empresas deveriam internalizar essa máxima como meta, objetivo e ação natural. Na realidade o aprendizado vem com os erros, seja seu ou dos outros. Trata-se do velho ditado de Jesus: "Atire a primeira pedra aquele que nunca errou". Por outro lado, o que se vê na grande maioria da empresas que o erro é inadimissível. Se o trabalhador errar é colocado para fora (demitido). Por isso a cultura da empresa precisa mudar e aceitar o erro como parte do aprendizado. Dentro desse microcosmo empresarial a cultura tipicamente alia a ideia do erro ao pragmatismo, resumindo: fazer aquilo que precisa ser feito. Isso é uma lógica simples, pois, todo ser humano sabe aquilo que precisa ser feito. Condição básica para se obter resultados. Na fala do autor, "a intenção de sua empresa é ser uma plataforma de negócios, unindo assim a fábrica ao consumidor final em um único ambiente. Criando valor por meio da interação gerada entre esses participantes". Então, em seu pensamento a ideia de prestar serviços como forma de baixar custos, ao criar relação direta entre fábrica e consumidor sem intermédio de representantes comerciais. Diante da fala anterior, complementa o autor: "hoje as empresas tem que ser prestadora de serviços, assim digitalizar-se.A tecnologia deve ser exponencial". Diante disso, o interesse não sobrevoa mais a venda de produtos, como exemplo: portas, computadores ou carros. O foco paira em oferecer serviços aos cllientes, um visão típica do capitalismo cognitivo/ financeiro (O produto fica em  segundo plano, mero detalhe). Demarca-se aí o fim do capitalismo de mercadorias.Quase tudo plataformizou-se, dando lugar a subjetividade das máquinas. Nesse contexto da tecnologia exponencial, apontam-se graves falhas atribuídas ao ser humano, dizendo que somos muito lentos, mas dotado de alta inteligência. Enquanto isso, os robôs são burros, porém muitos velozes. Jamais deveríamos colocar esse tipo de comparação em voga. Nós, seres humanos, agimos de acordo com o pensamento lento, dentro dos limites da razão e da emoção. Já a máquina seria apenas um elemento coadjuvantes devidoa sua capacidade de cálculos e operções matemáticas compelxas numa velocidade bastante elevada, ao desempenhar tarefas mecânicas. A afirmação a respeito da linearidade  do pensamento humano não faz qualquer sentido, ao menos para o ponto de vista científico. Somos dotados de uma imensa capacidade semântica na linguagem ao fazer inferências e escolhas, além de sentir e abstrair problemas e criar soluções próprias e criativas. Algo que até momento uma máquina teria capacidade, mas em vias de concretizar-se. No entanto, a linearidade não faz parte da natureza humana, e sim permanece nas máquinas. Ainda sobre a linearidade, atribuímos o conceito de exponencialidade homem-máquina e erroneamente o autor insiste em afirmar que o humano é linear, enquanto a máquina tange para o exponencial. Por isso, ao tecer nossas críticas, procuramos revisar tais observações enviesadas de embuste intelectual. Daí apregoamos que o pensamento humano faz-se complexo demais por-se dotado de inferências, hipóteses, racionalidade juntos a sentimentos e emoções. Homens e máquinas são ao mesmo tempo distantes e complementares. Cabe-nos fazer lembrar: homens criam máquinas, portanto, ficam subjugadas aos nossos interesses e comandos. Isso dá a entender que o autor não acredita no fazer científico e muito menos o compreende quanro crítica sem embasamento o projeto genoma humano como um fracasso total por atingir apenas a cifra de 1%.  Cabe aqui rebatermos tal posicionemento, não se deve avaliar por este prisma. A ciência constrói-se num longo prazo, necessita de tempo, muito tempo. Por exemplo, quanto tempo gastou-se para chegarmos às tecnologias de hoje. Para se ter um parâmetro, a internet para chegar ao patamar atual levou mais de trinta anos em pesquisa, desenvolvimento, equipamentos e softwares. Qualquer um que tenha o mínimo de noção, sabe que o tempo da ciência difere-se totalmente do mundo do mercado. Portanto, simplificar a visão das coisas nesse nível demonstra desconhecimento dos meandros da ciência. Na mesma trilha, querer atribuir felicidade neuronal à produtividade perante inovações nada mais é que forçar barra, Enfim, de onde saiu essa ideia tão esdrúxula. Trata-se de puro discurso de auto-ajuda, senso comum  sem a menor análise empírica ou teor científico. Não poderíamos deixar de comentar a frase do autor: "Plantar soja dá mais resultado no curto prazo, mas plantar neurônios educativos e mais negócio". Diga-se uma comparação ao menos estapafúrdia, sem nexo e um tanto jocosa. Trata-se duas afirmações totalmente discrepantes, sem qualquer correlação próxima. É querer forçar um cubo encaixar numa esfera. Para completar o autor nos acrescenta: Exportamos suor e importamos pensamento. Obvio, somos vendedores de "commodities", um país agrário e extrativista. A muito tempo o país deixou de incentivar a indústria e investir na chamada indútsria 4.0 com base na tecnologia de ponta. A consequência nefasta foi continuarmos como mero s exportadores de produtos primários e pouco valor agregado. Ficamos para trás no desenvolvimento de tecnologias e nós tornamos dependentes. A equação apresentada pelo autor não se resolve e nem tão cedo haverá consenso de que o trabalho perpassa em divertimento, e que daí nasce a criatividade e alta produtividade. Sejamos sinceros e os psicanalistas, psicólogos e psiquiatras  não nos deixam mentir que a invenção do trabalho como lazer e diversão é puro engodo, uma farsa. Trabalho implica em mercadoria, venda da força humana em troca de salário. Precipuamente uma relação segundo Marx que envolve alienação e exploração. Traduz-se na luta de classes, típico do capitalismo. 

sábado, 2 de maio de 2026

A invenção dos colaboradores: termo para desarticular trabalhadores na luta de classes

Ainda na tentativa de desconstruir o pensamento errático do empresariado brasileiro e o seu vêu consevador continuaremos neste texto a criticar o posicionamento daqueles que se acham donos da verdade em relação a sociedade. Estes seres que acreditam, por terem nas mãos o poder financeiro, numa superioridade as demais pessoas. Segundo a afirmação do nosso elemento crítico, a inovação seria a palavra do momento em gestão, porém existe um abismo entre aquilo que se fala e a realidade. De fato sim há esse abismo, principalmente por que o Brasil foi numa direção oposta e pegou a via da desindustrialização  e não desenvolveu uma política efetiva de inovação. A inovação te um custo muito alto enão adianta contra argumentar, depende do capital estatal para se efetivar plenamente. Tanto que muitas empresas brasileiras necessitam de financiamento público para implementar projetos inovadores. E o fazer científico da universidades públicas assume fortemente esse papel do espaço de inovação, no entanto recebem críticas justamente das empresas e parte daqueles que a desconhecem. Complementando nossa visão crítica a respeito das palavras do autor ao dizer que a inovação é uma busca de riscos, e as possibilidades de fracasso são altos. Mais uma vez afirmamos nosso pensamento de que a inovação, sim, é risco. Por isso o capital do Estado é o elemento que movimenta o mercado de tecnologia. Sem o Estado torna-se impossível qualquer linha de desenvolvimento tecnológico e inovação. Pois, a inovação centra-se em pesquisas desenvolvidas por universidades públicas e institutos tecnológicos, ou seja, só o governo tem capacidade financeira para investir no longo prazo sem horizontes de lucros. Nos EUA as Bigtechs em sua maioria foram financiadas por dinheiro público, a exemplo das startups que ficaram anos desenvolvendo produtos sem lucros. A Indútria chinesa é um outro exemplo de investimento público que deve ao Estado  todo seu avanço tecnológico de ponta. Portanto, inovação se faz com pesquisa e apoio de orgãos institucionais e fomento governamental. Dado que empresas privadas não tem a capacidade financeira suficiente para ficar dez, quinze anos sem capital para sobreviver. Dentro desse espectro da inovação, a inteligência artificial - no olhar de nosso autor neoliberal - é a fonte do desenvolvimento. Nisso, termos que concordar. O coletivo - já dizia Marx - é o "general intellect", ou seja, o saber difuso; onde quem produz é o trabalhador. A inteligência coletiva na atualidade está embutida na mais valia social, onde trabalhamos de graça para as grandes corporações de tecnologia, seja melhorando um software através de nossas contribuições ao dizer o que nele falta; nas trocas de saberes com colegas a respeito de uma vacina. No entanto, o autor em seu livro apresenta apenas uma frase muito rasa e não aprofunda sobre o assunto. Isso impede que os leitores possam tecer críticas mais contudentes e profundas. Ainda, no livro - há um momento que autor aponta que os colaboradores tornam-se capitalistas. Vejam bem, ele utiliza o termo colabradores. Vamos ser bem sinceros - são trabalhadores. Pura falácia por parte de nosso autor. Bem, o trabalhador nunca será o capitalista, justamente por não ter o capital e nem ser o dono dos meios de produção. O trabalhador vende sua força em troca de um salário e cumpre uma jornada de trabalho, seja física ou intelectual. Já o uso do termo colaborador trata-se de uma designação contemporânea presente nos manuais de gestão de pessoas e de administração para referir-se aos trabalhadores e desartircular os conflitos das lutas de classe. Essa nova onda de alteração de conceitos, definições e termos propostos nas cartilhas, nos manuais e informativos de administração e gestão de pessoas atingiu em cheio a cabeça do autor, que foi mais longe e passou a criar neologismos. No popular, inventar moda e termos.  Assim diz ele: "colaboradores viram "empreendegados" (empreendedores + empregados). Ainda acrescenta os como capitalistas e felizes por terem nas mãos valores que permitem o erro ao inovar e assim felizes por um excelente atendimento aos clientes. Diga-se a verdade, trata-se de neologismo barato criado pelo dono dos meios de produção para justificar que o trabalhador é um capitalista. Mesma lógica para o termo colaborador. Algo que faz Marx se contorcer no túmulo ao ouvir tal heresia capitalista. Onde foi parar a luta de classes deve pensar Marx. Seria uma nova forma de alienar o trabalhador, criando a ideia do empresário de si mesmo - tão discutido por Biung-Chul Han em sua obra: A sociedade do cansaço. Cria-se aí um caminho para ampliar a exploração da mão de obra. Numa visão mais dilatada do capitalismo, os problemas tornam-se oportunidades de negócios afirma o autor. Realmente, se for apenas para aqueles que detêm os meios de produção e o seu lucro. O direito de fazer o que devemos  sob a ótica do autor é exemplo de liberdade: estudar, educar-se e se meter em tudo. Esse é o típico lema da cultura empresarial e certamente deve estar afixado  nos quadros de aviso, murais, paredes e no papel de parede dos computadores de sua empresa. Sobre o direito de fazer o que devemos - já não é um direito e sim um dever, uma ordem. Não é uma escolha. Pois, se fosse um direito, então não soaria como um dever. Daí o autor confunde direitos e deveres. Bem, direito é aquilo que nos cobre perante a lei. Já dever trata-se daquilo que precisamos cumprir para que haja ordem. E estudar, educar-se são direitos contemplados a todos, garantidos pela constituição e previsto pelo Estado. Num pequeno parágrafo de seu livro, o autor discorre numa argumentação a respeito de que a empresa tem que gerar lucro através de seus "colaboradores" e assim a compara com a empresa estatal - num tom errôneo - ao afirmar que na empresa estatal a falta de dinheiro (prejuízo), o governo pode injetar mais dinheiro e por isso não ela não vai à falência. Assim complementa o seu raciocínio ao apontar que no setor privado,o capitalismo encarrega-se de tirar do mercado aquelas não eficientes. Então, atribui as consequências do prejuízo ao consumidor. Cabe aqui analisarmos ponto a ponto, dado que o autor não nos esclarece muito bem o teor de suas indagações. As ideias estão um tanto nubladas pela orientação política e econômica. Vamos então esclatecer tais afirmações. Num primeiro momento,  o lucro vaí entrar no bolso do capitalista e dos acionistas após deduzidas as receitas e as depesas. O lucro é o produto da mais-valia (mais valor) do trabalho na concepção marxista. Assim, o lucro é a sobra de receitas por cima das despesas. O contrário também é verdadeiro, se temos despesas que ultrapassam as receitas o quadro é deficitário,ou seja, prejuízo. A partir daí podemos seguir num segundo plano de pensamento cuja empresa estatal jamais deveria visar exclusivamente o lucro. Dado que sua natureza parte em atender necessidades sociais e servir como mecanismo de apoio aos Estado. A empresa estatal pode sim falir, ser vendida, abrir capital, operar de forma mista (pública/ privada), todavia, seu papel precípuo está em servir a população através de serviços básicos, da qual o setor privado não tem condições de prestar. Portanto, certos setores da economia cabem apenas ao Estado, - mais uma vez - para atender dignamente aos anseios da população e não visar somente o lucro. Pois, setores estratégicos que nenhuma empresa privada tem consdições de manter por serem impagáveism tais como: universidades, hospitais, energia, água e esgoto. Enfim, falar em lucro de empresa estatal e não compreender - ou ser incapaz  de ver que apenas o Estado tem  a capacidade única de fornecer tal serviço à sociedade. Para finalizar tais análises e críticas o autor comenta em seu livro que a hierarquia e a disciplinas deixaram de existir dentro do contexto do controle e da cadeia de comando. Com isso deixamos a questão: será? Acreditemos, nãoé bem assim. O controle paira sobre o subjetivo e esconde-se nas entrelinhas da cadeia de comando. O controle subsiste de maneira bastante tènue, quase imperceptível - mas está lá - engendrado no coração do ambiente organizacional. Fixado sob uma forma cultural e arraigado às crenças, aos valores e ritos cultuados que em sua maioria não são visíveis nos regulamentos , regimentos, entretanto permeiam as mentes e corações dos ditos "colaboradores", que na realidade trabalhodores que constrõem a riqueza para o patrão. 

ZINI, Claúdio. Começe errado, mas comece! 4.ed. Palmas, PR: Kayguangue, 2023. 231p. 

Natureza

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