sábado, 7 de novembro de 2026

A Gramática da Exclusão: Preconceito Racial, Misoginia, Xenofobia e Homofobia como Pilares de Sustentação

 

Uma análise histórica e sociológica rigorosa revela que o avanço autocrático raramente se sustenta apenas com promessas de eficiência econômica ou segurança. A engenharia do poder absoluto necessita, de forma orgânica, da eleição de bodes expiatórios. É por essa razão que as estruturas autocráticas historicamente se alimentam — e amplificam — preconceitos estruturais profundos: o preconceito racial, a misoginia, a xenofobia e a homofobia. Esses vetores de ódio não são subprodutos acidentais do regime, mas sim peças fundamentais de sua sustentação política. Ao dividir a sociedade civil entre o "nós" (o grupo virtuoso que apoia o regime) e o "eles" (os elementos rotulados como desviantes, perigosos ou inferiores), o autocrata aniquila a possibilidade de uma solidariedade coletiva que pudesse fazer frente à sua tirania. Nessa dinâmica, o preconceito racial e a xenofobia funcionam como ferramentas de purismo nacionalista. O "estrangeiro" (o imigrante) e as minorias étnicas locais são retratadas pela máquina de propaganda como parasitas econômicos ou ameaças à identidade cultural e à segurança interna, justificando políticas de segregação, encarceramento em massa e desumanização legal. Paralelamente, a misoginia manifesta-se no esforço estatal de controlar os corpos femininos e restaurar uma ordem patriarcal arcaica. Para a autocracia, o feminismo e a emancipação das mulheres são lidos como ameaças à "família tradicional", célula que o regime deseja submissa e funcional para a reprodução de seus valores. Sob a mesma lógica, a homofobia (e a transfobia) é institucionalizada. A população LGBTI+ é frequentemente pintada pela retórica autocrática como o ápice da "decadência moral" do Ocidente ou das democracias liberais. Ao criminalizar essas identidades e proibir a sua expressão pública sob o manto da proteção à infância ou à moralidade, o poder autocrático oferece às massas frustradas um alvo seguro para canalizar sua raiva, convertendo o preconceito em uma ferramenta barata e altamente eficaz de coesão social autoritária.

Espelhos da realidade: literatura, cinema e teoria

A simbiose entre as ferramentas de opressão autocrática, a sofisticação tecnológica das Big Techs e a exploração deliberada dos preconceitos estruturais não passou despercebida pelos grandes observadores da condição humana. É na intersecção entre a sensibilidade artística e o rigor analítico que encontramos os alertas mais profundos sobre os caminhos que a sociedade trilha quando abdica de sua autonomia jurídica e psicológica. Ao traduzirem o horror abstrato da tirania em narrativas palpáveis, a literatura, o cinema e a teoria política funcionam como espelhos retrovisores e projetores do futuro, revelando que os mecanismos contemporâneos de captura mental e exclusão de minorias já haviam sido mapeados por mentes que decifraram a anatomia do poder absoluto muito antes da criação do primeiro algoritmo. Na literatura e no cinema temos exemplos claros dessa relação, tais como: o livro, e depois o filme “1984”, em que George Orwell criou a figura do Ministério da Verdade, o órgão de propaganda responsável por reescrever a história e disseminar mentiras institucionalizadas. Ou “O Conto da Aia”, em que Margaret Atwood demonstra de forma crua como a misoginia extrema e a homofobia de Estado são institucionalizadas para justificar um golpe teocrático e a escravização das mulheres. No campo teórico, Hannah Arendt na obra - “As Origens do Totalitarismo” - disseca como o racismo científico e a propaganda foram os instrumentos indispensáveis para arregimentar as massas isoladas e integrá-las ao movimento destrutivo do nazi-fascismo. Outro exemplo é o filme alemão “A Onda” (2008) que ilustra a facilidade com que dinâmicas ditatoriais e o uso de slogans, símbolos e propaganda de grupo podem seduzir indivíduos e criar exclusão social violenta em pouco tempo. Já o clássico “Fahrenheit 451” (1966) mostra um Estado autocrático que queima livros para substituir o pensamento crítico por uma propaganda alienante. No campo documental, “O Dilema das Redes (2020)” expõe a versão digital dessa engrenagem que potencializa discursos de ódio.

A Vigilância Democrática na Era do Algoritmo

A trajetória da autocracia, desde os despotismos da Antiguidade até as democracias sitiadas do século XXI, revela que o autoritarismo não é uma anomalia histórica do passado, mas uma sombra permanente que caminha ao lado da liberdade humana. As dinâmicas modernas de poder demonstraram que os tanques e as baionetas foram sutilmente substituídos por curtidas, compartilhamentos e uma engenharia de dados invisível que coloniza as mentes antes mesmo de subjugar os corpos. Ao instrumentalizar o preconceito racial, a misoginia, a xenofobia e a homofobia, as novas autocracias e as máquinas de propaganda das Big Techs encontraram uma fórmula altamente lucrativa e politicamente devastadora: transformar a angústia existencial do indivíduo em um ódio tribal coordenado. Diante desse cenário, a preservação da democracia exige muito mais do que a realização periódica de rituais eleitorais. Requer uma alfabetização digital crítica e a coragem política de regulamentar as forças transnacionais que hoje controlam o fluxo da verdade factual. Se a tecnologia digital descentralizou a informação, ela também automatizou o monólogo do Leviatã, tornando urgente a reconstrução de espaços públicos baseados na alteridade e no diálogo real. A ficção e a história nos alertam que o colapso das liberdades começa quando o silêncio e a apatia se tornam confortáveis. Portanto, o antídoto contra a sedução do discurso autocrático reside na recusa coletiva em aceitar a desumanização do outro como preço pela segurança. Romper o espelho partido da autocracia contemporânea significa resgatar a empatia como ferramenta política e blindar as instituições democráticas contra os engenheiros do ressentimento. Afinal, como a história exaustivamente nos ensina, a liberdade nunca é um território conquistado em definitivo, mas uma prática diária que exige vigilância constante contra os tiranos de plantão — estejam eles nos palácios de governo ou por trás das telas de nossos dispositivos.

Referências Bibliográficas

ARENDT, Hannah. As Origens do Totalitarismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.

ATWOOD, Margaret. O Conto da Aia. Rio de Janeiro: Rocco, 2006.

FAHRENHEIT 451. Direção: François Truffaut. Reino Unido: Universal Pictures, 1966. Filme ficcional (112 min).

HOBBES, Thomas. Leviatã ou Matéria, Forma e Poder de um Estado Eclesiástico e Civil. São Paulo: Martins Fontes, 2003.

O DILEMA das Redes (The Social Dilemma). Direção: Jeff Orlowski. Estados Unidos: Netflix, 2020. Documentário (94 min).

A ONDA (Die Welle). Direção: Dennis Gansel. Alemanha: Constantin Film, 2008. Filme ficcional (107 min).

ORWELL, George. 1984. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

sábado, 3 de outubro de 2026

A engenharia fantástica: como os planos heterodoxos devastaram a economia e fragmentaram a sociedade brasileira


Nesses texto seguimos ainda  no caminho da heterodoxia econômica, aqui teremo como cenário o auge da espiral inflacionária das décadas de 1980 e 1990, Nesse tempo o Brasil recorreu repetidamente a planos econômicos heterodoxos — estratégias baseadas em congelamentos impostos de preços e salários, reformas monetárias repentinas e forte intervenção estatal. Em vez de estabilizar o país, esses experimentos voluntaristas corroeram o poder de compra, geraram desabastecimento generalizado, transferiram renda dos mais pobres para os mais abastados e aprofundaram a crise social, demonstrando que o atalho da intervenção direta falha inevitavelmente diante da necessidade de reformas fiscais e monetárias ortodoxas. Para compreender o impacto dessas medidas, é essencial conceituar o que são os planos econômicos heterodoxos. Na ciência econômica, a abordagem heterodoxa contrasta com o mainstream ortodoxo ao rejeitar a ideia de que a inflação é puramente um fenômeno monetário derivado de déficits fiscais e expansão da moeda. A heterodoxia conceitua a inflação alta e prolongada como um fenômeno eminentemente inercial, movido pelo conflito distributivo entre agentes econômicos e pela memória inflacionária codificada na indexação formal e informal de contratos. Sob essa ótica, os preços sobem hoje simplesmente porque subiram ontem, e cada setor tenta proteger sua margem remanejando valores em ciclo perpétuo. Teoricamente fundados em correntes pós-keynesianas, no estruturalismo latino-americano da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL) e em contribuições do neostruturalismo brasileiro, esses planos sustentavam que bastava um "choque" de coordenação estatal — paralisando temporariamente os preços por decreto — para quebrar a memória inflacionária sem a necessidade de recessão, desemprego ou cortes orçamentários rígidos. O contexto histórico que levou à adoção dessas saídas heterodoxas foi o esgotamento do modelo de desenvolvimento da Ditadura Militar e a grave crise da dívida externa na década de 1980. O país enfrentava uma combinação inédita de estagnação econômica e hiperinflação, com taxas anuais superando a casa dos três dígitos. Pressionada pelas demandas populares da redemocratização por melhoria social imediata, a classe política recusava-se a aplicar o remédio amargo da ortodoxia tradicional, que exigia contenção de gastos públicos, elevação de juros e controle da emissão monetária. Assim, o heterodoxismo surgiu como uma promessa mágica e indolor de estabilização sem custo social aparente. O percurso histórico brasileiro desses experimentos começou em fevereiro de 1986 com o Plano Cruzado, lançado no governo José Sarney. O plano substituiu o Cruzeiro pelo Cruzado, cortou os zeros da moeda e congelou todos os preços e salários. Inicialmente, o aumento temporário do poder de compra gerou uma explosão de consumo e enorme popularidade política. No entanto, sem o controle das contas públicas, o resultado foi o desabastecimento, a proliferação do ágio clandestino e o colapso da oferta de produtos básicos. Analisando esse fracasso, o economista Mario Henrique Simonsen destacou que o grande erro conceitual do Plano Cruzado foi acreditar que se podia congelar preços sem controlar a demanda agregada e os déficits do setor público, transformando o congelamento em uma ilusão passageira que reprimiu a inflação sem extingui-la. A tentativa de correção veio com o Plano Bresser em 1987 e, posteriormente, com o Plano Verão em 1989, ambos repetindo a fórmula de congelamento provisório e reformas monetárias superficiais, falhando em conter a escalada de preços que ultrapassou a taxa de oitenta por cento ao mês na transição da década. O ponto culminante e mais dramático dessa sequência ocorreu em março de 1990 com o Plano Collor I, seguido pelo Plano Collor II em 1991. Sob a justificativa de liquidar a inflação com um único tiro, o governo decretou o bloqueio das cadernetas de poupança e das contas correntes por dezoito meses, confiscando cerca de oitenta por cento de toda a liquidez do país. O economista e ex-ministro da Fazenda Pedro Malan pontuou posteriormente que o confisco do Plano Collor representou uma violência institucional inédita na história econômica do país, demonstrando como soluções voluntaristas e autoritárias corroem as regras do jogo e destroem a confiança essencial ao funcionamento de qualquer economia de mercado. O resultado econômico foi uma recessão severa, o fechamento em massa de empresas e o rápido retorno da hiperinflação. Os impactos sociais desses planos foram profundamente destrutivos e incidiram de forma desproporcional sobre as camadas mais vulneráveis da população. Ao contrário da narrativa de que os congelamentos protegiam o trabalhador, as classes populares e a baixa classe média foram as mais severamente afetadas. O economista Pérsio Arida observou que a inflação descontrolada aliada aos congelamentos artificiais atuava como o imposto mais regressivo e perverso do sistema, pois despojava o assalariado sem capacidade de proteção financeira, enquanto os estratos de maior renda utilizavam o mercado de juros diários para neutralizar as perdas. Sem acesso ao mercado financeiro, os mais pobres viam suas receitas derreterem no papel-moeda, enfrentando filas pelo desabastecimento, enquanto a classe alta recorria ao mercado paralelo cobrando ágio. No âmbito das políticas públicas, a volatilidade provocada pelos planos heterodoxos inviabilizou qualquer planejamento governamental de longo prazo. A orçamentação pública tornou-se uma peça de ficção, impedindo investimentos estruturais em saúde, educação e infraestrutura básica. A receita do Estado oscilava drasticamente e os gastos operacionais eram liquidados pela própria inflação. Politicamente, os planos geraram um ciclo nefasto de populismo e desilusão: vitórias eleitorais fulgurantes obtidas no auge dos congelamentos eram seguidas pelo colapso político e pela perda irrecuperável de credibilidade dos governantes assim que a realidade econômica se impunha. A experiência heterodoxa não foi exclusiva do Brasil. Outros países latino-americanos recorreram a estratégias idênticas sob o mesmo arcabouço teórico e no mesmo contexto de crise inflacionária. A Argentina implementou o Plano Austral em 1985 e posteriormente o Plano Primavera em 1988, que tentaram estabilizar a economia por meio do congelamento de preços, salários e tarifas públicas. O Israel também adotou o Plano de Estabilização Econômica em 1985, contudo, combinando choques heterodoxos com um rigoroso e real ajuste fiscal ortodoxo e ajuda externa expressiva. O economista Jeffrey Sachs, ao analisar a diferença entre as experiências da América Latina e de Israel, argumentou que congelamentos de preços sem o imediato encerramento da expansão fiscal e monetária são ineficazes, pois tentar eliminar a inflação por decreto sem equilibrar o orçamento público equivale a tentar desligar um incêndio cobrindo o alarme de fumaça. Enquanto a experiência israelense teve êxito devido ao compromisso firme de cortar o déficit público de forma definitiva, na Argentina e no Peru o heterodoxismo sem disciplina fiscal resultou em hiperinflação devastadora e empobrecimento em massa. Diante do fracasso sistemático das intervenções heterodoxas puras, a alternativa econômica eficaz consistia na aplicação de uma abordagem fundada na ortodoxia fiscal e monetária, acompanhada de uma neutralização cirúrgica e transparente da inércia inflacionária. A solução correta exigia interromper a causa primária da inflação — a emissão incontrolável de moeda para financiar o déficit público —, restringir os gastos estatais, conceder autonomia ao Banco Central e reestruturar a dívida pública. A demonstração prática dessa alternativa superior ocorreu em 1994 com o Plano Real. Em vez de decretar congelamentos autoritários de preços, efetuar confiscos de bens ou romper com as regras contratuais vigentes, o Plano Real adotou uma engenharia de transição voluntária por meio da Unidade Real de Valor (URV). O economista Gustavo Franco explicou que o diferencial decisivo do Plano Real foi abandonar a ilusão dos congelamentos moratórios e focar na construção de uma moeda forte apoiada em fundamentos fiscais rígidos e na abertura econômica, provando que a verdadeira estabilidade nasce da disciplina e da previsibilidade das regras institucionais. A URV alinhou a memória de preços e salários sem congelamento forçado, introduzindo em seguida uma moeda ancorada em reservas cambiais e sustentada por uma política monetária austera. De fato, os planos econômicos heterodoxos adotados nas décadas de 1980 e 1990 mostraram-se absolutamente inviáveis como instrumentos de estabilização econômica de longo prazo. A premissa de que o Estado pode controlar variáveis de mercado por decreto, ignorando os desequilíbrios entre oferta e demanda e o financiamento do déficit público, provou ser uma ilusão teórica com custos sociais altíssimos. O voluntarismo das soluções heterodoxas apenas prolongou a agonia da hiperinflação, desorganizou o sistema produtivo e castigou a parcela mais frágil da sociedade brasileira. O desenvolvimento econômico sustentável e a paz social demonstraram depender indispensavelmente da disciplina fiscal, da estabilidade da moeda e do respeito às regras de mercado.

Referências Bibliográficas

ARIDA, Pérsio; RESENDE, André Lara. Inflação inercial e reforma monetária no Brasil. In: ARIDA, Pérsio (Org.). Inflação zero: Brasil, Argentina e Israel. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1986. p. 9-36.

FRANCO, Gustavo H. B. A moeda e a lei: uma história monetária do Brasil (1933-2013). São Paulo: Zahar, 2017.

MALAN, Pedro. A economia brasileira e as lições dos planos de estabilização. Revista de Economia Política, São Paulo, v. 12, n. 4, p. 112-125, 1992.

SACHS, Jeffrey. Social conflict and populist policies in Latin America. NBER Working Paper Series, Cambridge, n. 2897, p. 1-52, 1989.

SIMONSEN, Mario Henrique. Inércia inflacionária e inflação inercial. Revista de Economia Política, São Paulo, v. 8, n. 3, p. 5-18, 1988.

sábado, 19 de setembro de 2026

A Ilusão das soluções mágicas: o impacto devastador dos planos econômicos heterodoxos no Brasil

 

A utopia dos congelamentos e o colapso econômico trazido pelos planos heterodoxos no Brasil marcaram de forma indelével a história nacional. Durante as décadas de 1980 e início de 1990, a tentativa de combater a hiperinflação por meio de decretos, tabelamentos de preços e confisco de ativos financeiros provou ser uma estratégia desastrosa que desorganizou a produção, gerou escassez generalizada e corroeu o poder de compra da população. Longe de oferecer uma solução sustentável, as medidas heterodoxas amplificaram a incerteza jurídica e econômica, penalizando sobretudo as camadas de menor renda e desestruturando as políticas públicas essenciais. A superação da crise inflacionária só foi possível com a transição para a responsabilidade fiscal, o alinhamento de incentivos de mercado e a reforma monetária estruturada promovida pelo Plano Real.

Conceitualmente, os planos econômicos heterodoxos caracterizam-se pelo uso de intervenções diretas do Estado nos mecanismos de preços e salários para interromper abruptamente a trajetória inflacionária, sem necessariamente combater as suas causas primárias, como o desequilíbrio fiscal e a expansão desenfreada da moeda. Enquanto a ortodoxia econômica prega o ajuste fiscal, o controle do crédito e a disciplina monetária, a heterodoxia aposta em ferramentas como congelamento de preços, tabelamento de tarifas públicas, quebra de contratos e desindexação forçada. No Brasil, essas ideias basearam-se fortemente na teoria da inflação inercial, desenvolvida por economistas da época. Segundo essa corrente teórica, em ambientes de inflação crônica, os agentes econômicos reajustam seus preços e salários não apenas pela oferta e demanda, mas pela expectativa do passado refletida na indexação formal e informal. Entendia-se que a inflação possuía uma memória que precisava ser cortada através de um choque heterodoxo.

O contexto histórico que motivou a adoção dessas medidas radicais remonta ao esgotamento do modelo do Milagre Econômico da ditadura militar e à crise da dívida externa nos anos 1980. O endividamento em dólar, a explosão das taxas de juros internacionais e os choques do petróleo sobrecarregaram o balanço de pagamentos e os cofres públicos. Com a redemocratização em 1985, o país herdou uma inflação em aceleração contínua e uma dívida pública volumosa. O medo de aplicar um choque ortodoxo purista - que exigiria cortes profundos de gastos públicos e juros altíssimos -, temido por seu potencial de gerar recessão severa e desemprego em massa em uma democracia recém-nascida, fez com que os governantes optassem por atalhos heterodoxos.

O percurso histórico das tentativas heterodoxas no Brasil teve início em fevereiro de 1986 com o Plano Cruzado, sob o governo de José Sarney. O plano substituiu o Cruzeiro pelo Cruzado, instituiu o congelamento geral de preços e salários e criou o gatilho salarial, que reajustava automática e periodicamente os rendimentos caso a inflação atingisse determinado percentual. Inicialmente, o plano gerou euforia e surto de consumo, com cidadãos atuando como fiscais do governo. No entanto, a desorganização da oferta, o represamento das tarifas públicas e a falta de ajuste fiscal geraram o desabastecimento de produtos básicos, a cobrança clandestina de ágio e o surgimento do mercado negro. Em novembro de 1986, após as eleições legislativas, o governo tentou reajustar preços no chamado Plano Cruzado II, mas a inflação voltou com força ainda maior, culminando na moratória da dívida externa em 1987.

Sem corrigir o problema de fundo, o governo lançou em junho de 1987 o Plano Bresser, conduzido pelo ministro Luiz Carlos Bresser-Pereira. Tratou-se de uma tentativa de congelamento temporário combinado com minidesvalorizações cambiais e cortes pontuais de gastos. Apesar de mitigar ligeiramente o ritmo inflacionário nos primeiros meses, o plano fracassou rapidamente devido à incapacidade política de conter o déficit público, levando a inflação a patamares inéditos. Em janeiro de 1989, foi a vez do Plano Verão, que instituiu o Cruzado Novo e promoveu mais um congelamento de preços acompanhado do fim de mecanismos de indexação. O resultado foi a perda total de ancoragem da economia e a entrada definitiva do país na espiral da hiperinflação no final daquele ano.

O ápice do voluntarismo heterodoxo ocorreu em março de 1990 com o lançamento do Plano Collor I pelo recém-eleito Fernando Collor de Mello. O plano reintroduziu o Cruzeiro e adotou uma medida violenta: o confisco temporário de cerca de oitenta por cento das aplicações financeiras, cadernetas de poupança e contas correntes da população por dezoito meses. A drenagem abrupta da liquidez paralisou a atividade econômica, gerou recessão imediata e provocou pânico generalizado. Pouco tempo depois, a liquidez retornou via exceções e liberações judiciais, e a inflação voltou a acelerar. O Plano Collor II, em janeiro de 1991, buscou novamente congelar preços e abolir a indexação, mas também falhou miseravelmente em conter a escalada de preços.

Os impactos sociais e econômicos dessas medidas foram extremamente danosos. As camadas sociais mais afetadas foram os trabalhadores de baixa renda e as famílias vulneráveis. Enquanto as classes média e alta conseguiam proteger parte de seus ativos por meio do mercado financeiro e de títulos indexados conhecidos como ciranda financeira, os mais pobres não tinham acesso a contas bancárias remuneradas. O poder de compra dos salários erodia dia a dia antes de qualquer reajuste. Além disso, o congelamento de preços dizimou a oferta de alimentos e medicamentos básicos nas periferias, forçando os trabalhadores mais humildes a enfrentarem filas intermináveis ou pagarem preços extorsivos no mercado informal. No âmbito das políticas públicas, a hiperinflação e a desorganização tributária inviabilizaram qualquer planejamento estatal. Orçamentos para saúde, educação e infraestrutura tornaram-se fictícios, pois os recursos alocados perdiam valor em poucas semanas, deteriorando completamente os serviços públicos prestados à sociedade.

A adoção de medidas heterodoxas desastrosas não foi exclusividade do Brasil. Diversos países sul-americanos e de outras regiões experimentaram saídas semelhantes com consequências análogas. A Argentina implementou em 1985 o Plano Austral, que combinou corte zero de moeda, troca monetária e congelamento de preços. Embora tenha gerado uma trégua inicial na inflação, a ausência de consolidação fiscal levou a uma hiperinflação devastadora no final da década de 1980, com aumento exponencial da pobreza e saques a supermercados. O Peru, sob o governo de Alan García entre 1985 e 1990, adotou políticas abertamente heterodoxas, fixando taxas de câmbio, congelando preços e limitando arbitrariamente o pagamento da dívida externa. O resultado foi o colapso econômico, uma hiperinflação superior a sete mil por cento ao ano, falência do Estado e o fortalecimento de movimentos terroristas. Na Venezuela, no século vinte e um, a imposição prolongada de controle de preços e câmbio destruiu o parque produtivo nacional, gerou escassez crônica e impulsionou uma das piores crises humanitárias do continente.

A verdadeira alternativa e contra-plano eficaz para as economias afetadas pela hiperinflação inercial e fiscal residia em uma abordagem mista e gradativa, fundamentada na recomposição do equilíbrio macroeconômico, na transparência monetária e na disciplina fiscal. Essa solução foi finalmente demonstrada pelo Plano Real em 1994. Em vez de congelamentos surpresa ou confiscos autoritários, a solução bem-sucedida baseou-se na neutralização da memória inflacionária por meio de uma moeda virtual de transição, a Unidade Real de Valor, que alinhou os preços relativos da economia sem distorcer o mercado. Paralelamente, promoveu-se o Programa de Ação Imediata para cortar gastos públicos, ajustar o déficit fiscal, abrir a economia ao comércio internacional e fortalecer as reservas cambiais. A justificativa dessa abordagem repousa no fato de que a estabilidade de preços exige a confiança dos agentes econômicos e o alinhamento entre a oferta monetária, a produtividade e a saúde das contas do Estado.

Conclui-se que os planos econômicos heterodoxos baseados em congelamentos e intervenções arbitrárias não foram inviáveis apenas pelas falhas na sua execução, mas por sua inadequação conceitual fundamental. Tais planos ignoraram os incentivos de mercado, tentaram reprimir os sintomas sem curar as causas fiscais da inflação e impuseram custos sociais e econômicos altíssimos para a sociedade brasileira e internacional. A experiência histórica comprovou que soluções populistas e atalhos voluntaristas na economia desestruturam a produção, empobrecem as populações mais vulneráveis e adiam as reformas estruturais indispensáveis para o desenvolvimento sustentável de uma nação. Tais Planos revelaram-se inviáveis como ferramentas de estabilização de longo prazo. A crença de que a inflação poderia ser erradicada mediante decretos e congelamentos coercitivos, sem o enfrentamento rigoroso dos déficits públicos e da expansão monetária descontrolada, trouxe custos sociais devastadores e paralisou o desenvolvimento do país. A experiência histórica comprovou que a estabilidade de uma moeda e o bem-estar social não resultam de atalhos legislativos, mas da consolidação de instituições monetárias sólidas, da responsabilidade fiscal continuada e do livre funcionamento dos preços de mercado.

Referências Bibliográficas

ARIDA, Pérsio; RESENDE, André Lara. Inflação inercial e reforma monetária no Brasil. In: ARIDA, Pérsio (Org.). Inflação zero: Brasil, Argentina e Israel. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1986. p. 9-36.

FRANCO, Gustavo H. B. A moeda e a lei: uma história monetária do Brasil (1933-2013). São Paulo: Zahar, 2017.

MALAN, Pedro. A economia brasileira e as lições dos planos de estabilização. Revista de Economia Política, São Paulo, v. 12, n. 4, p. 112-125, 1992.

SACHS, Jeffrey. Social conflict and populist policies in Latin America. NBER Working Paper Series, Cambridge, n. 2897, p. 1-52, 1989.

SIMONSEN, Mario Henrique. Inércia inflacionária e inflação inercial. Revista de Economia Política, São Paulo, v. 8, n. 3, p. 5-18, 1988.


sábado, 5 de setembro de 2026

Das sombras do passado ao cenário digital: a perpetuação do vírus autocrático

 

A ideologia fascista exerce um magnetismo peculiar sobre a psique humana, encontrando terreno fértil sobretudo naqueles que se sentem marginalizados, preteridos ou ridicularizados em sua visão de mundo. Durante o Terceiro Reich, o nacional-socialismo alemão demonstrou uma competência cirúrgica ao instrumentalizar as vulnerabilidades, os ressentimentos e as frustrações do cidadão comum. Sob o impacto dessa engenharia social, tais sujeitos não apenas se transformaram em simpatizantes convictos do sistema, como também atuaram ativamente na engrenagem opressora, convertendo-se em delatores, informantes e perseguidores dos grupos eleitos como alvos. Outros, levados ao extremo da desumanização, cruzaram a linha dos executores cruéis, perpetrando assassinatos em massa desprovidos de qualquer vestígio de remorso. Diante disso, emerge a inevitável indagação: o que compele alguém a abraçar visões de mundo tão extremas? As razões para a adesão a regimes totalitários são multifacetadas. Para muitos, o motor principal é a busca por pertencimento, isto é, o anseio de integrar um coletivo que ofereça um propósito e uma identidade clara. Para outros, a motivação reside na crença deliberadamente alimentada de que inimigos internos ou externos estão usurpando um território legítimo, privando-os de prerrogativas cidadãs básicas, como o emprego e a estabilidade trabalhista. Há, ainda, uma parcela movida por preconceitos latentes, racismo e xenofobia, que encontra nessas correntes a validação para sua suposta superioridade. Sob o peso dessas doutrinas, ocorre um isolamento cognitivo que oblitera a alteridade e inviabiliza o diálogo, impedindo a aceitação do pensamento divergente. Governos autocráticos exploram essas fragilidades por meio de uma propaganda perfeitamente orquestrada, capaz de converter preconceitos em comoção social generalizada. Sob essa ótica distorcida, dissemina-se a premissa de que os males da sociedade brotam de uma minoria específica que, por ser diferente, precisa ser neutralizada ou extirpada. À medida que o debate público é sufocado por frases de efeito e rituais uníssonos, a capacidade de comunicação genuína se esvai, de modo que a pluralidade de ideias desaparece e a democracia é corroída por dentro. O simples ato de discordar passa a ser rotulado como uma ameaça existencial aos planos de dominação, revelando que os sistemas totalitários nutrem, no fundo, um pavor profundo de serem desmascarados pela realidade empírica. Esse receio crônico da contestação encontra paralelos nítidos em outras eras, a exemplo dos dogmas religiosos impostos pela Igreja Católica entre os séculos XIII e XVII. Naquele período, o Tribunal do Santo Ofício serviu como braço punitivo para torturar e executar quem ousasse questionar as posições eclesiásticas oficiais. O temor do opressor está invariavelmente atrelado à iminência de perder a hegemonia caso suas contradições venham à tona. Justamente por carecerem de estofo argumentativo na arena das ideias, os líderes autoritários recorrem ao vil expediente de descreditar seus opositores por meio de factoides, mentiras e difamações pessoais. Trata-se de um método rasteiro concebido para convencer as massas manipuladas de que o interlocutor não merece qualquer voto de confiança. Embora as democracias contemporâneas também utilizem estratégias de marketing agressivas e manipulações retóricas no xadrez político, elas se diferenciam dos regimes fechados pela existência de garantias institucionais e sanções jurídicas que visam coibir excessos. Contudo, a estabilidade democrática não imuniza a população contra a manipulação. Com o advento das tecnologias de informação e a ascensão das mídias sociais, cada cidadão converteu-se em um vetor de difusão de conteúdos, muitas vezes propagando notícias falsas de maneira voluntária. Autocratas modernos capitalizam essa hiperconectividade combinando uma retórica envolvente com o nacionalismo exacerbado, orquestrando verdadeiras lavagens cerebrais que alimentam delírios megalomaníacos de grandeza e controle social. Historicamente, essa simbiose entre o ditador e as massas se consolida em períodos de profunda precariedade material, como hiperinflação, desemprego crônico e colapso social. Economias devastadas por conflitos ou gerências desastrosas pavimentam o caminho para soluções messiânicas. A promessa de um líder supremo capaz de erradicar a fome e restabelecer a ordem frequentemente induz a sociedade a chancelar figuras nefastas, as quais, uma vez estabelecidas no poder, agravam a opressão política e social. Esse roteiro dramático foi vivenciado na América Latina entre as décadas de 1960 e 1980, quando governos militares violentos, como o de Augusto Pinochet no Chile e a ditadura civil-militar no Brasil, utilizaram a tortura e o desaparecimento forçado como políticas de Estado para sufocar a dissidência. Além do contexto latino-americano, o século XX e o início do século XXI oferecem outros exemplos alarmantes da devastação autocrática em escala global. Na Europa Central, o regime stalinista na União Soviética demonstrou como o totalitarismo pode se fantasiar de igualdade social para erigir um Estado policial baseado em expurgos, campos de trabalho forçado (Gulags) e na fome induzida, como o Holodomor na Ucrânia. De igual maneira, o Khmer Vermelho no Camboja, sob a liderança de Pol Pot na década de 1970, ilustra o paroxismo da engenharia social autoritária: em busca de uma utopia agrária radical, o regime baniu o dinheiro, a propriedade privada e os livros, dizimando cerca de um quarto da própria população em um dos maiores genocídios da história moderna. No continente africano, dinâmicas semelhantes de subjugação econômica e esmagamento de direitos fundamentais repetiram-se em diferentes escalas. O regime de Idi Amin Dada em Uganda, nos anos 1970, combinou o nacionalismo xenófobo — exemplificado pela expulsão em massa da comunidade asiática — com uma violência brutal que custou a vida de centenas de milhares de cidadãos. Mais recentemente, a ditadura de Robert Mugabe no Zimbábue transformou um dos países economicamente mais promissores da África em um cenário de hiperinflação galopante, fome e isolamento internacional, onde a imprensa independente foi sistematicamente asfixiada e as eleições tornaram-se meras fachadas para a perpetuação do clã governante. Em todos esses episódios, o denominador comum permanece inalterado: sociedades empobrecidas, desprovidas de liberdades de expressão e locomoção, sob o jugo de aparelhos estatais que usam o terror psicológico e a coerção física como ferramentas rotineiras de governança. O exame dessas trajetórias históricas nos obriga a formular uma crítica contundente ao fenômeno do autoritarismo: ele é, em última análise, a manifestação da covardia intelectual erguida como estrutura de poder. Ao contrário da democracia, que se fortalece no conflito saudável de opiniões e na necessidade de constante negociação, o fascismo e as autocracias operam sob a ilusão da uniformidade. Eles demandam um preço alto demais — a aniquilação do indivíduo e a esterilização do pensamento — para entregar uma falsa sensação de segurança. Apoiar tais regimes sob o pretexto de eficácia econômica ou purificação moral constitui um erro trágico, pois a história demonstra empiricamente que a tirania nunca resolve as crises que promete debelar; ela apenas monopoliza a violência e institucionaliza a miséria, deixando como legado um rastro de traumas geracionais e reconstruções institucionais dolorosas.

domingo, 2 de agosto de 2026

O espelho partido da liberdade: a anatomia da autocracia, o leviatã digital e as máquinas de propaganda

 

A história da civilização humana é, em grande medida, a história do cabo de guerra entre o desejo de autonomia e a tentação do controle absoluto. Quando olhamos para o cenário político global contemporâneo, percebemos que a promessa democrática do fim do século XX enfrenta uma ressaca severa. A autocracia, uma das formas mais antigas e persistentes de organização do poder, não apenas sobreviveu à modernidade, mas se metamorfoseou, encontrando no ecossistema digital do século XXI e nos métodos refinados de controle psicológico o seu terreno mais fértil.

Definição técnica, terminológica e o berço histórico

Terminologicamente, a palavra autocracia deriva do grego autokráteia (composta por autós, "por si mesmo", e krátos, "poder" ou "governo"). Em sua definição técnica e conceitual, trata-se de um sistema de governo no qual o poder político está concentrado nas mãos de um único indivíduo ou de um pequeno comitê centralizado, cujas decisões não estão sujeitas a restrições legais externas nem a mecanismos regulares de controle popular. Dentro do escopo desta análise, a liderança autocrática caracteriza-se pela centralização inflexível das tomadas de decisão, pela aniquilação deliberada de canais de debate e contraditório, por uma postura messiânica de infalibilidade e pela exigência de obediência cega e inquestionável de seus subordinados e cidadãos. Esse tipo de líder atua por meio do esvaziamento das instituições mediadoras e da imposição de uma governança verticalizada, onde as dinâmicas de poder dependem exclusivamente de sua vontade personalista, transformando a máquina estatal em uma extensão de seu próprio ego e projeto de poder, o que o diferencia da ditadura militar clássica por muitas vezes manter uma fachada institucional e jurídica, e do absolutismo monárquico por não depender de uma linha de sucessão hereditária ou de uma justificativa divina tradicional.

O berço histórico da autocracia como conceito formalizado reside na antiguidade clássica, emergindo como o contraponto perfeito à pólis democrática grega e à res publica romana. Enquanto Atenas experimentava a distribuição do poder entre os cidadãos, os impérios vizinhos — como o Império Persa — eram vistos pelos pensadores ocidentais como o modelo de despotismo e autocracia, onde a vontade do soberano era a lei viva. Na transição para a modernidade, o conceito ganhou contornos teóricos robustos com a obra O Leviatã (1651), de Thomas Hobbes, que argumentava que, para escapar do estado de natureza, a humanidade cedia seus direitos a um soberano absoluto em troca de segurança.

 Autocracias, ditaduras e a linha de transição institucional

Na ciência política, embora os termos sejam frequentemente usados como sinônimos no debate público, a autocracia funciona como um guarda-chuva conceitual que engloba diferentes formas de regimes não democráticos, incluindo as ditaduras. A linha de transição ou diferenciação entre uma autocracia genérica e uma ditadura (seja ela militar, de partido único ou personalista) reside no nível de institucionalização e na violência do fechamento do regime.

Enquanto as ditaduras clássicas do século XX costumavam ascender por meio de rupturas violentas e explícitas — como golpes de Estado que aboliam constituições e fechavam parlamentos —, muitas autocracias modernas operam de forma mais dissimulada. Elas utilizam a estrutura jurídica existente para estrangular a democracia por dentro, um fenômeno que teóricos chamam de "autocratização legal". No entanto, ambas compartilham o mesmo DNA: a eliminação real da competição política, o controle sobre o aparato de coerção do Estado (polícia e forças armadas) e a subordinação do sistema de justiça aos interesses de sobrevivência do grupo governante. A ditadura é a autocracia em seu estágio mais explícito e coercitivo.

A Engenharia do consentimento: a propaganda como arma de conquista

Para sobreviver sem depender exclusivamente do uso da força bruta — que é economicamente cara e politicamente desgastante —, regimes autocráticos e ditatoriais recorrem historicamente à propaganda sistemática. A função primária da propaganda autocrática não é apenas desinformar, mas moldar a percepção da realidade para conquistar adeptos, simpatizantes e, fundamentalmente, criar uma base de apoio popular genuína e fervorosa.

Historicamente, essa engenharia do consentimento baseia-se em três pilares fundamentais:

  1. O culto à personalidade: A transformação do líder autocrata em uma figura infalível, paternal e semideusa. A propaganda satura o espaço público com sua imagem, associando-o diretamente a conquistas nacionais, prosperidade e proteção.
  2. A fabricação do inimigo comum: Para unificar a sociedade, a propaganda cria ou infla ameaças (sejam bodes expiatórios internos, como minorias e opositores, ou potências estrangeiras). O medo coletivo é canalizado para fazer com que a população veja as medidas autoritárias e a perda de liberdades não como uma opressão, mas como um sacrifício necessário para a segurança nacional.
  3. A monopólio da verdade: Através da censura prévia ou do sufocamento econômico de vozes independentes, o regime constrói uma narrativa única. O historiador e filósofo tcheco Vilém Flusser apontava que a propaganda totalitária funciona como um monólogo que elimina o diálogo. Quando não há contraposição, a mentira repetida à exaustão passa a ser a única baliza de realidade disponível para o cidadão comum, transformando simpatizantes passivos em defensores ativos do regime.

O quadro dos perigos: o impacto multidimensional da autocracia

A governança autocrática e a lavagem cerebral da propaganda não se limitam a alterar o topo da pirâmide política; elas reconfiguram o tecido social e a psique humana, influenciado pelos aspectos:

·        Políticos e econômicos: no âmbito político, a autocracia aniquila o pluralismo e transforma instituições de Estado em meros carimbadores da vontade do governante. Economicamente, embora regimes centralizados possam apresentar surtos de crescimento no curto prazo devido à velocidade de execução de diretrizes estatais, o modelo é historicamente insustentável. A ausência de segurança jurídica, o capitalismo de compadrio e a corrupção sufocam a inovação orgânica.

·          Sociais e psicológicos (coletivo e individual): socialmente, a autocracia destrói o "capital social" — a confiança mútua entre os cidadãos — ao incentivar a cultura da delação e do medo. No âmbito psicológico individual, instala-se o fenômeno do desamparo aprendido, onde o indivíduo internaliza a ideia de que suas ações não podem mudar a realidade. Coletivamente, as massas alimentadas pela propaganda entram em um estado de dissonância cognitiva crônica: passam a performar uma lealdade pública cega para garantir aceitação social e segurança psicológica dentro do grupo dominante.

A autocracia no século XXI: o Leviatã digital e as Big Techs

Se no século XX as ditaduras dependiam do controle físico dos meios de comunicação — ocupando rádios e jornais com tanques —, no século XXI a autocracia opera por meio de linhas de código, algoritmos e dados massivos (Big Data). O desenvolvimento midiático contemporâneo descentralizou a informação, mas também automatizou a propaganda em uma escala microscópica e personalizada.

O perigo mais insidioso para as democracias atuais reside no domínio das grandes empresas de tecnologia (Big Techs). Ao monetizarem o engajamento baseado na indignação, os algoritmos criaram câmaras de eco perfeitas para a proliferação de narrativas autocráticas. O poder dessas corporações transita por um território cinzento: elas detêm mais dados sobre o comportamento e medos dos cidadãos do que qualquer aparato de propaganda do passado. Quando líderes de inclinação autocrática instrumentalizam essas ferramentas, a infraestrutura da democracia é corroída por dentro através de uma "censura por inundação", onde a verdade factual é asfixiada por um oceano de desinformação coordenada.

A sedução do discurso e a colonização das mentes

Os líderes autocráticos contemporâneos dominam as mentes humanas através de uma arquitetura discursiva midiática altamente sofisticada, que resgata elementos estéticos e retóricos que tangenciam o fascismo clássico, adaptados à velocidade das redes sociais. Esse discurso baseia-se na criação de uma narrativa mitológica de crise permanente e humilhação coletiva, onde o líder se apresenta como a encarnação única e messiânica da vontade do "povo verdadeiro", em oposição a inimigos internos e externos fabricados. Utilizando uma linguagem deliberadamente simplista, violenta e performática, esses líderes exploram as ansiedades econômicas e o desamparo psicológico das massas, transformando o medo legítimo em ressentimento direcionado.

A eficácia dessa comunicação baseada na propaganda moderna reside na sua capacidade de colonizar a subjetividade individual, operando não pela lógica formal, mas pela ativação de afetos primitivos como a raiva e o pertencimento tribal. Através de transmissões diretas, vídeos curtos e memes compartilhados em escala industrial, o autocrata moderno destrói a fronteira entre o público e o privado, fazendo com que o seguidor sinta uma conexão íntima e inquestionável com o poder. Esse sequestro cognitivo, que beira o fascismo em sua busca pela homogeneização do pensamento e pela desumanização do adversário, anula o pensamento crítico e transforma o cidadão em um militante atomizado, pronto para defender a autocracia sob a ilusória bandeira da libertação nacional.

Referências Bibliográficas

ARENDT, Hannah. As Origens do Totalitarismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.

ATWOOD, Margaret. O Conto da Aia. Rio de Janeiro: Rocco, 2006.

FAHRENHEIT 451. Direção: François Truffaut. Reino Unido: Universal Pictures, 1966. Filme ficcional (112 min).

HOBBES, Thomas. Leviatã ou Matéria, Forma e Poder de um Estado Eclesiástico e Civil. São Paulo: Martins Fontes, 2003.

O DILEMA das Redes (The Social Dilemma). Direção: Jeff Orlowski. Estados Unidos: Netflix, 2020. Documentário (94 min).

A ONDA (Die Welle). Direção: Dennis Gansel. Alemanha: Constantin Film, 2008. Filme ficcional (107 min).

ORWELL, George. 1984. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.



sábado, 4 de julho de 2026

A cortina de fumaça de Trump: como o combate ao crime mascara o monopólio das Big Techs e a exclusão social

 

Não há em curso qualquer ação imperialista clássica por parte do governo Trump em relação às medidas tomadas para conter o terrorismo ao classificar as organizações criminosas brasileiras, especificamente o PCC e o Comando Vermelho. Devemos frisar bem: Trump é um homem de mídia, um showman, e precisa estar constantemente sob os holofotes da imprensa e do show business. A sua vida sempre foi isso: aparecer e mostrar-se. Na política, não seria diferente, ainda mais no cenário atual em que ele enfrenta problemas com a justiça. A verdade é que Trump não se importa com a política tradicional e, muito menos, com a criminalidade e a violência, seja no mundo ou mesmo em seu próprio país. O papel dele no governo se resume a enriquecer a si mesmo e aos seus aliados das Big Techs, que já acumulam fortunas bilionárias. O seu desejo pauta-se apenas no dinheiro, mais nada. Ao tomar a decisão de classificar essas facções brasileiras como terroristas — algo minimamente absurdo e que demonstra um desconhecimento total da realidade da segurança pública no Brasil —, trata-se, na verdade, de uma estratégia meramente vantajosa do ponto de vista econômico e financeiro. Pois, a partir do momento em que tais organizações são rotuladas como terroristas, o governo norte-americano ganha o pretexto para, unilateralmente e por meio de um ato autocrático, investigar e intervir secretamente no território brasileiro utilizando o FBI ou a CIA. Além disso, essa chancela permite bloquear bens e ativos financeiros de instituições, empresas e bancos que tenham ou não uma relação direta com essas facções. Tudo isso serve de justificativa para fornecer aos amigos e financiadores de Trump, ou a ele próprio, benesses econômicas, sob o argumento de que as empresas afetadas estão ligadas ao crime organizado e devem ser punidas. No entanto, o que mais nos espanta é o fato de analistas econômicos, especialistas em direito internacional e a grande mídia não darem o devido crédito à forma como Trump manipula certas decisões em benefício próprio. As brilhantes mentes desses profissionais da informação, da economia e do direito preferem seguir pela via enganosa do imperialismo ideológico, apontando que o governo americano deseja realizar uma incursão militar e invadir o país para combater o crime e o tráfico de drogas. Nada disso, meus caros leitores. Ou esses profissionais se equivocaram redondamente, ou estão ganhando boas gorjetas para divulgar tal posicionamento. Paralelamente, o governo brasileiro erra ao tratar o caso estritamente como uma questão de soberania nacional ameaçada por forças militares. A saída para esse impasse analítico está em compreender que o caminho adotado por Washington não se baseia na força bélica, mas sim no mais baixo método de asfixia econômica, destruindo a indústria e o comércio locais para abrir caminho e mercado às Big Techs e a outros setores que favoreçam exclusivamente a indústria estadunidense. A imposição arbitrária de tarifas ao comércio mundial deixa clara essa intenção de Trump. Diante de tais medidas impositivas e protecionistas, evidencia-se que a defesa do liberalismo econômico pelos ditos liberais atinge apenas um certo ponto: vigora quando lhes é propício e decai imediatamente quando contraria seus interesses. Portanto, esses atores mantêm-se liberais dentro de uma pequena esfera que contempla apenas os seus iguais — a saber, homens brancos, ricos e detentores do poder. No tocante aos diferentes e desiguais, o âmbito desse liberalismo seletivo não inclui os negros, os indígenas, as mulheres, as pessoas trans e outras minorias. Estariam eles alijados dos ideais liberais, assim como suas crenças, valores e culturas? A realidade demonstra que sim, eis que são historicamente pessoas excluídas desse ecossistema de privilégios mascarado de mercado livre. Essa exclusão socioeconômica, legitimada por discursos políticos de fachada, revela uma estrutura muito mais profunda de dominação que ultrapassa as barreiras do mercado. Toda essa narrativa a respeito de um imperialismo ficcional, suplantado por uma máquina política e midiática que nos retira a subjetividade humana e nos transplanta como engrenagens em um sistema automatizado, acaba recaindo também sobre os ombros da ciência moderna. Afinal, a mesma lógica que restringe o mercado aos detentores do poder econômico também opera para engessar a produção do conhecimento científico. Sob essa ótica, o primeiro ponto a se destacar é que a ciência jamais deveria estar presa a uma única metodologia, sendo salvaguardada como detentora de uma verdade absoluta e inquestionável. Em segundo lugar, os métodos científicos devem apoiar-se na variedade e ser amplamente testados por visões distintas e divergentes. A restrição de olhares a regras absolutas e imutáveis significa que a ciência deixa de se aprofundar holisticamente na busca de soluções palpáveis e reais para a sociedade. Não raramente, os resultados das pesquisas científicas mais inovadoras apontam na direção oposta de métodos e regras ditas consagradas pelo establishment. Por conseguinte, a tríade formada por ciência dogmática, racionalismo instrumental e capitalismo excludente restringe-se a proteger apenas a um grupo de poucos privilegiados. Estes, por sua vez, não reconhecem as demais formas de conhecimento e vivência, mas insistem veementemente na ideia de uma democracia global. Contudo, cabe o questionamento: que democracia é essa? Trata-se, evidentemente, de uma democracia torta e excludente; a democracia de poucos, daqueles que detêm o poder e que se acham no direito de invadir o mundo dos outros e de impor suas próprias leis para se manterem no topo da pirâmide. O domínio dessa elite contemporânea vai além do poder político e econômico tradicional: agora, cerca e coloniza também o fazer científico e o pensamento crítico. Diante dos fatos analisados, conclui-se que as ações geopolíticas contemporâneas, ilustradas pela rotulação de facções brasileiras como organizações terroristas pelo governo Trump, não devem ser lidas sob a ótica obsoleta de uma invasão militar, mas sim como manobras de um pragmatismo financeiro e corporativo altamente midiático. Este cenário expõe a fragilidade e a hipocrisia de um liberalismo que se diz universal, mas que opera de forma excludente, marginalizando minorias sociais e sufocando indústrias locais em benefício das gigantes tecnológicas. O controle exercido por essa elite dominante fecha seu ciclo de poder ao subjugar não apenas a política e a economia, mas também a ciência, transformando o método científico em um dogma rígido que ignora a pluralidade social e holística. Desse modo, o que se vende como defesa da segurança e da democracia global revela-se, sob uma análise coesa e racional, como um sofisticado mecanismo de manutenção de privilégios, onde o capital, a informação e o conhecimento científico permanecem concentrados nas mãos de quem detém o poder de ditar as regras do jogo mundial.

sábado, 27 de junho de 2026

O motor do progresso e a ambição que destrói: os vícios humanos no tabuleiro do Estado

 

A discussão sobre a moralidade pública, o comportamento individual e o papel regulador do Estado ganhou contornos dramáticos na contemporaneidade. Em uma era hiperconectada, marcada pelo consumo desenfreado, pela ascensão do capitalismo digital e por crises geopolíticas globais, a antiga questão sobre se as instituições governamentais devem moldar a virtude dos cidadãos ou apenas gerenciar suas falhas tornou-se urgente. Fenômenos modernos como as redes sociais, estruturadas sob a vaidade e o desejo de aprovação, e o mercado financeiro, movido pela ambição, demonstram que as engrenagens econômicas e sociais do século XXI ainda dependem profundamente de impulsos egoístas. Analisar como diferentes correntes filosóficas enxergam essa dinâmica — seja como combustível para o progresso, como ameaça à sobrevivência coletiva ou como um mecanismo de opressão psicológica — permite compreender os limites e as responsabilidades do poder estatal na gestão do comportamento humano contemporâneo.

Nesse cenário, as ideias de Bernard Mandeville, formuladas ainda no século XVIII, apresentam uma visão eminentemente pragmática e utilitarista, defendendo que o Estado deve atuar como um engenheiro social cujo papel é gerenciar, e não erradicar, os vícios para garantir a prosperidade nacional. Para o autor, o egoísmo inerente aos indivíduos funciona como a matéria-prima do benefício coletivo, de modo que o vício privado pode ser estrategicamente transformado em virtude pública. Em termos práticos, Mandeville sugere uma função estatal baseada na canalização e na legislação indireta. A primeira impede a imposição de uma virtude rígida e prefere incentivar o consumo de luxo, a vaidade e o orgulho pelas suas consequências econômicas positivas na criação de empregos e na circulação de riquezas. Paralelamente, a legislação serve para estabelecer leis eficazes que garantam a segurança e a ordem, mantendo o auto-interesse dentro de limites que evitem a desintegração social. Desse modo, os políticos hábeis utilizam as normas e a moralidade como ferramentas para domesticar o lado destrutivo do egoísmo e priorizar o poder material do país, agindo sobre as paixões humanas em vez de tentar modificar a natureza do homem.

Em contrapartida a essa abordagem pragmática, Bertrand Russell oferece, no século XX, uma perspectiva focada na contenção desses mesmos impulsos, enxergando o Estado como um mediador essencial para a preservação da paz. Escrevendo em um período de guerras globais, Russell formula uma crítica direta à gestão proposta por Mandeville, pois argumenta que a busca possessiva por riqueza e domínio — celebrada no modelo mandevilleano — constitui a raiz da competição imperialista e dos conflitos armados. Portanto, em vez de estimular o consumo e o acúmulo material, o Estado ideal concebido por Russell deve promover a vida criativa por meio da ciência, da arte e da educação, alterando as estruturas sociais e econômicas para que o auto-interesse seja canalizado em formas cooperativas. Adicionalmente, para neutralizar a manifestação máxima desse vício da possessividade em escala coletiva, o filósofo defende a necessidade de um governo internacional capaz de controlar o poder dos Estados-nação, redirecionando o papel das instituições governamentais da mera busca por opulência para a gestão ativa da paz mundial.

Avançando para uma crítica ainda mais radical, o místico Osho rompe com ambas as tradições ao adotar uma visão profundamente negativa do Estado e da sociedade organizada, classificando-os como sistemas puramente coercitivos. Enquanto Mandeville busca instrumentalizar o vício e Russell tenta contê-lo por vias institucionais, Osho rejeita terminantemente a premissa de que o aparato estatal possa gerenciar qualquer impulso para o bem, visto que a política, a religião e o Estado formam uma engrenagem conjunta de dominação e repressão. Na ótica do capitalismo pós-industrial sob a qual sua filosofia se insere, o Estado atua reprimindo a dúvida e impondo ideologias que fixam o indivíduo em uma mentalidade de rebanho e no fanatismo, perpetuando o vício real da humanidade, que é a inconsciência. Por conseguinte, a verdadeira prosperidade e a liberdade não decorrem de intervenções políticas, mas sim da ausência do Estado como força impositiva e da consequente transformação existencial de cada pessoa, que deve abandonar toda crença externa para alcançar a emancipação.

O paralelo analítico entre os três pensadores revela um profundo dissenso sobre o propósito e a legitimidade do gerenciamento governamental. Mandeville aborda o vício como uma força inevitável da natureza que o Estado precisa domar e utilizar em prol do crescimento econômico. Em uma posição intermediária quanto à necessidade de controle, Russell reconhece o vício como um perigo social iminente que exige a intervenção de um superestado ou de uma estrutura coletiva forte para evitar a autodestruição humana através da violência. Por fim, Osho subverte essa lógica ao demonstrar que o vício é apenas o sintoma de uma cegueira espiritual interna que o próprio indivíduo deve resolver por conta própria, tornando qualquer tentativa de tutela estatal um obstáculo ao amadurecimento humano. Assim, enquanto os dois primeiros autores debatem as melhores técnicas de governança coletiva, o terceiro desloca o eixo do debate para a autonomia absoluta do sujeito.

Em conclusão, o embate conceitual entre a utilidade econômica de Mandeville, o pacifismo estrutural de Russell e o anarquismo espiritual de Osho escancara as contradições intrínsecas ao desenho do Estado contemporâneo. Diante de uma realidade em que a engrenagem econômica global valida a premissa mandevilleana ao prosperar sobre a vaidade mercantilizada e o consumo supérfluo, as consequências colaterais desse modelo — como as desigualdades extremas e a degradação ambiental — resgatam a advertência urgente de Russell sobre a necessidade de limitar a possessividade material em prol da sobrevivência coletiva. No entanto, a crescente burocratização da vida moderna e a vigilância digital também dão razão aos temores de Osho, evidenciando que o controle institucional frequentemente sufoca a subjetividade e padroniza o pensamento. Diante disso, a reflexão crítica indica que a superação desse impasse não reside na aceitação cega do egoísmo como motor do progresso, nem no autoritarismo estatal disfarçado de virtude, mas sim no desenvolvimento de uma consciência ética individual capaz de transformar a busca por riqueza em responsabilidade social e criatividade compartilhada.

 

MANDEVILLE, Bernard. A fábula das abelhas: ou vícios privados, benefícios públicos. São Paulo: Editora Unesp, 2017. 412 p.

OSHO. Crença, dúvida e fanatismo: é essencial ter algo em que acreditar? São Paulo: Planeta, 2015. 254 p.

RUSSELL, Bertrand. Por que os homens vão à guerra. São Paulo: Editora Unesp, 2014. 219 p.

Natureza

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