sábado, 11 de abril de 2026

A ciência no banco dos réus: o encontro entre Lacey e Novaes

No último artigo discorremos sobre os aspectos básicos que tornam a ciência mais humanitária e necessária ao desenvolvimento social, econômico e tecnológico do planeta. Dando sequência a esse assunto, ainda reforçaremos as ideias de Lacey e Novaes a respeito dos saberes científicos e sua relação com um mundo onde a inovação técnica frequentemente atropela a reflexão ética, duas obras fundamentais se encontram no centro de um debate urgente sobre o futuro da civilização: Valores e Atividade Científica 2, de Hugo Lacey, e a coletânea O Homem-Máquina, organizada por Adauto Novaes. Embora possuam pontos de partida distintos, a convergência entre eles desenha um mapa crítico sobre como a ciência moderna molda - e, por vezes, deforma - a nossa realidade. Abaixo, exploramos os pontos de intersecção onde o pensamento desses autores se funde em um alerta necessário.

O Fim do Mito da Neutralidade

A maior convergência entre as obras é o ataque frontal à ideia de que a ciência é "neutra". Para Lacey, a escolha de como pesquisar já carrega um valor. Ele argumenta que a ciência moderna prioriza "estratégias descontextualizadas", voltadas para o controle e a manipulação da natureza. Na visão de Novaes e seus colaboradores, essa mesma ciência "neutra" é a que permite a manipulação do corpo humano como se fosse apenas matéria bruta, ignorando as dimensões sociais e espirituais do ser. Ambos concordam: não existe ciência sem ideologia.

A Redução do Humano ao Objeto

Os dois livros denunciam um processo de objetificação:

·  Em Lacey: A natureza e os sistemas sociais são reduzidos a variáveis que podem ser controladas por leis matemáticas e físicas.

·   Em Novaes: O ser humano é reduzido a uma "máquina". No livro organizado por Novaes, discute-se como a biotecnologia e a genética tratam o corpo como um conjunto de peças substituíveis ou dados a serem otimizados.

A convergência aqui é clara: a ciência contemporânea tende a desconsiderar a "autonomia" - seja das sementes na agroecologia (tema caro a Lacey) ou da vontade própria do indivíduo sobre seu organismo (foco de Novaes).

O Império do Controle e do Mercado

Outro ponto de união é a identificação de quem realmente dita o ritmo do progresso. Lacey aponta que a pesquisa científica está hoje quase totalmente submetida aos valores do capital e do mercado, que buscam lucros rápidos através da inovação tecnológica.

Essa tese é amplificada em O Homem-Máquina, onde os autores mostram como a manipulação do corpo (seja através de fármacos, cirurgias ou implantes) transformou a vida humana em um produto. A ciência deixa de ser um instrumento de libertação para se tornar uma ferramenta de dominação biopolíticaDessa forma podemos sintentizar tais convergências às quais os autores proprõem numa tabela bastante didática e fácil de compreender, que segue logo abaixo:

Tema Central

Visão de Lacey

Visão de Novaes (Coletânea)

Poder

A ciência serve ao controle da natureza e ao lucro.

A ciência serve ao controle dos corpos e à produtividade.

Metodologia

Mecanicista e descontextualizada.

Fragmentada e tecnicista.

Ética

Deve ser reintroduzida no centro da prática científica.

Deve ser o limite contra a desumanização técnica.

A leitura cruzada de Lacey e Novaes não é um convite ao abandono da ciência, mas sim à sua redemocratização. O que exige uma nova postura científica. Pois, enquanto Lacey pede uma ciência plural que respeite os contextos sociais, os autores de Novaes pedem uma ciência que não "desmonte" o humano em busca de uma perfeição mecânica ilusória. A convergência final é um chamado à responsabilidade: o cientista não pode mais se esconder atrás de números; ele deve responder pelo mundo que sua técnica está criando.

No entanto a ciência ainda segue sob o tacão do capital e para não nos deixar mentir, as luzes convergentes de Lacey e Novaes refletem tal pensamento. Portanto, ao esmiurçarmos as obras destes autores surge uma convergência contundente surge que denúncia como a ciência moderna se tornou uma engrenagem fundamental do modelo capitalista. Então, para ambos, a ciência não é uma entidade isolada em uma torre de marfim, mas um instrumento moldado pela lógica da acumulação, do lucro e do controle social.

A Ciência como Força Produtiva

A primeira grande convergência reside na compreensão de que a ciência abandonou o ideal de "conhecimento pelo conhecimento" para se tornar uma ferramenta de produção.

·  Lacey demonstra que o modelo de "ciência moderna" privilegia quase exclusivamente pesquisas que geram tecnologias patenteáveis e controle sobre a natureza. Isso ocorre porque tais pesquisas atendem aos interesses das corporações que buscam lucros imediatos.

·    Novaes, através dos ensaios de sua coletânea, mostra como essa mesma lógica entra "pele adentro". O corpo humano deixa de ser uma entidade sagrada ou biopsicossocial para se tornar um capital biológico. A ciência que manipula o corpo (genética, farmacologia) serve para otimizar o trabalhador e o consumidor, tornando-os mais produtivos e dependentes do mercado.

 A Estratégia de Controle e a Mercantilização

Ambos os autores identificam que a aliança entre ciência e capitalismo gera uma obsessão pelo controle total.

·    No campo (Lacey): O autor cita o exemplo das sementes transgênicas. A ciência é usada para criar sementes que não se reproduzem ou que dependem de agrotóxicos específicos. Aqui, o conhecimento científico é usado para "aprisionar" a agricultura ao  mercado financeiro, destruindo práticas tradicionais.

·    No corpo (Novaes): A ciência médica e biotecnológica foca na fragmentação do corpo em partes comercializáveis. A saúde torna-se um produto de prateleira. A convergência com Lacey é clara: o objetivo não é a autonomia do sujeito (ou do agricultor), mas a dependência de um sistema técnico-capitalista.

 O Silenciamento de Alternativas

Lacey e Novaes convergem ao apontar que o modelo capitalista impõe um "pensamento único" na ciência:

  • Marginalização de Saberes: Lacey aponta que formas de ciência que não geram lucro (como a agroecologia) são desqualificadas como "não científicas" ou irrelevantes.

  • Desumanização: Novaes alerta que, ao focar apenas no que é tecnicamente possível e economicamente rentável, a ciência ignora as questões éticas e o sofrimento humano, tratando o indivíduo como uma máquina que precisa de manutenção constante.  

Podemos sintetizar essa relação entre ciência e capital num quadro em que os pontos convergentes podem ser estabelecidos em cinco aspectos distintos:   

Ponto de Convergência

O Impacto do Modelo Capitalista

Finalidade

A pesquisa é direcionada para o que gera lucro e patentes, não para o bem-estar social amplo.

Visão de Mundo

A natureza (Lacey) e o corpo (Novaes) são vistos como recursos exploráveis e máquinas a serem otimizadas.

Poder

O conhecimento concentra-se nas mãos de grandes corporações (agroindústria, farmacêuticas, tech).

Ética

A ética é substituída pela eficiência técnica e pela viabilidade econômica.

Assim podemos dizer que o desafio da emancipação da ciência perpassa pela convergência entre os dois autores; é nos fornece um diagnóstico sombrio, porém necessário: sob a égide do capitalismo, a ciência corre o risco de deixar de ser um caminho para a verdade e passar a ser um manual de instruções para a dominação.Enquanto Lacey propõe uma ciência plural que incorpore valores sociais e ecológicos, as reflexões de Novaes pedem um retorno ao humanismo, para que a técnica não acabe por devorar o seu criador. Em suma, ambos defendem que a ciência precisa ser resgatada das mãos do mercado para voltar a servir à vida em sua plenitude. O que esses dois livros nos dizem, em uníssono, é que a luta por uma ciência diferente é, essencialmente, a luta por um modelo de sociedade diferente.

LACEY, Hugo. Valores e atividade científica 2. São Paulo: Editora 34, 2010. 384 p. (Coleção Trans).

NOVAES, Adauto (Org.). O homem-máquina: a ciência manipula o corpo. São Paulo: Companhia das Letras, 2003. 488 p.

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