No último artigo discorremos sobre os aspectos básicos que tornam a ciência mais humanitária e necessária ao desenvolvimento social, econômico e tecnológico do planeta. Dando sequência a esse assunto, ainda reforçaremos as ideias de Lacey e Novaes a respeito dos saberes científicos e sua relação com um mundo onde a inovação técnica frequentemente atropela a reflexão ética, duas obras fundamentais se encontram no centro de um debate urgente sobre o futuro da civilização: Valores e Atividade Científica 2, de Hugo Lacey, e a coletânea O Homem-Máquina, organizada por Adauto Novaes. Embora possuam pontos de partida distintos, a convergência entre eles desenha um mapa crítico sobre como a ciência moderna molda - e, por vezes, deforma - a nossa realidade. Abaixo, exploramos os pontos de intersecção onde o pensamento desses autores se funde em um alerta necessário.
O Fim do
Mito da Neutralidade
A maior convergência entre as obras é o ataque frontal à ideia de que a ciência é "neutra". Para Lacey, a escolha de como pesquisar já carrega um valor. Ele argumenta que a ciência moderna prioriza "estratégias descontextualizadas", voltadas para o controle e a manipulação da natureza. Na visão de Novaes e seus colaboradores, essa mesma ciência "neutra" é a que permite a manipulação do corpo humano como se fosse apenas matéria bruta, ignorando as dimensões sociais e espirituais do ser. Ambos concordam: não existe ciência sem ideologia.
A Redução
do Humano ao Objeto
Os
dois livros denunciam um processo de objetificação:
· Em
Lacey: A natureza e os
sistemas sociais são reduzidos a variáveis que podem ser controladas por leis
matemáticas e físicas.
· Em
Novaes: O ser humano é
reduzido a uma "máquina". No livro organizado por Novaes, discute-se
como a biotecnologia e a genética tratam o corpo como um conjunto de peças
substituíveis ou dados a serem otimizados.
A
convergência aqui é clara: a ciência contemporânea tende a desconsiderar a
"autonomia" - seja das sementes na agroecologia (tema caro a Lacey)
ou da vontade própria do indivíduo sobre seu organismo (foco de Novaes).
O Império
do Controle e do Mercado
Outro
ponto de união é a identificação de quem realmente dita o ritmo do progresso.
Lacey aponta que a pesquisa científica está hoje quase totalmente submetida aos
valores do capital e do mercado, que buscam lucros rápidos através da
inovação tecnológica.
Essa tese é amplificada em O Homem-Máquina, onde os autores mostram como a manipulação do corpo (seja através de fármacos, cirurgias ou implantes) transformou a vida humana em um produto. A ciência deixa de ser um instrumento de libertação para se tornar uma ferramenta de dominação biopolítica. Dessa forma podemos sintentizar tais convergências às quais os autores proprõem numa tabela bastante didática e fácil de compreender, que segue logo abaixo:
|
Tema Central |
Visão de Lacey |
Visão de Novaes (Coletânea) |
|
Poder |
A ciência serve ao controle da natureza e ao lucro. |
A ciência serve ao controle dos corpos e à produtividade. |
|
Metodologia |
Mecanicista e descontextualizada. |
Fragmentada e tecnicista. |
|
Ética |
Deve ser reintroduzida no centro da prática científica. |
Deve ser o limite contra a desumanização técnica. |
A leitura cruzada de Lacey e Novaes não é um convite ao abandono da ciência, mas sim à sua redemocratização. O que exige uma nova postura científica. Pois, enquanto Lacey pede uma ciência plural que respeite os contextos sociais, os autores de Novaes pedem uma ciência que não "desmonte" o humano em busca de uma perfeição mecânica ilusória. A convergência final é um chamado à responsabilidade: o cientista não pode mais se esconder atrás de números; ele deve responder pelo mundo que sua técnica está criando.
No entanto a ciência ainda segue sob o tacão do capital e para não nos deixar mentir, as luzes convergentes de Lacey e Novaes refletem tal pensamento. Portanto, ao esmiurçarmos as obras destes autores surge uma convergência contundente surge que denúncia como a ciência moderna se tornou uma engrenagem fundamental do modelo capitalista. Então, para ambos, a ciência não é uma entidade isolada em uma torre de marfim, mas um instrumento moldado pela lógica da acumulação, do lucro e do controle social.
A Ciência
como Força Produtiva
A
primeira grande convergência reside na compreensão de que a ciência abandonou o
ideal de "conhecimento pelo conhecimento" para se tornar uma ferramenta
de produção.
· Lacey demonstra que o modelo de "ciência
moderna" privilegia quase exclusivamente pesquisas que geram tecnologias
patenteáveis e controle sobre a natureza. Isso ocorre porque tais pesquisas
atendem aos interesses das corporações que buscam lucros imediatos.
· Novaes, através dos ensaios de sua coletânea,
mostra como essa mesma lógica entra "pele adentro". O corpo humano
deixa de ser uma entidade sagrada ou biopsicossocial para se tornar um capital
biológico. A ciência que manipula o corpo (genética, farmacologia) serve
para otimizar o trabalhador e o consumidor, tornando-os mais produtivos e
dependentes do mercado.
A
Estratégia de Controle e a Mercantilização
Ambos
os autores identificam que a aliança entre ciência e capitalismo gera uma
obsessão pelo controle total.
· No
campo (Lacey): O autor
cita o exemplo das sementes transgênicas. A ciência é usada para criar sementes
que não se reproduzem ou que dependem de agrotóxicos específicos. Aqui, o
conhecimento científico é usado para "aprisionar" a agricultura ao mercado financeiro, destruindo práticas tradicionais.
· No
corpo (Novaes): A
ciência médica e biotecnológica foca na fragmentação do corpo em partes
comercializáveis. A saúde torna-se um produto de prateleira. A convergência com
Lacey é clara: o objetivo não é a autonomia do sujeito (ou do agricultor), mas
a dependência de um sistema técnico-capitalista.
O
Silenciamento de Alternativas
Lacey e Novaes convergem ao apontar que o modelo capitalista impõe um "pensamento único" na ciência:
- Marginalização de Saberes: Lacey
aponta que formas de ciência que não geram lucro (como a agroecologia) são
desqualificadas como "não científicas" ou irrelevantes.
- Desumanização: Novaes alerta que, ao focar apenas no que é tecnicamente possível e economicamente rentável, a ciência ignora as questões éticas e o sofrimento humano, tratando o indivíduo como uma máquina que precisa de manutenção constante.
Podemos sintetizar essa relação entre ciência e capital num quadro em que os pontos convergentes podem ser estabelecidos em cinco aspectos distintos:
|
Ponto de Convergência |
O Impacto do Modelo Capitalista |
|
Finalidade |
A pesquisa é direcionada para o que gera lucro e
patentes, não para o bem-estar social amplo. |
|
Visão de Mundo |
A natureza (Lacey) e o corpo (Novaes) são vistos como recursos
exploráveis e máquinas a serem otimizadas. |
|
Poder |
O conhecimento concentra-se nas mãos de grandes
corporações (agroindústria, farmacêuticas, tech). |
|
Ética |
A ética é substituída pela eficiência técnica e
pela viabilidade econômica. |
Assim podemos dizer que o desafio da emancipação da ciência perpassa pela convergência entre os dois autores; é nos fornece um diagnóstico sombrio, porém necessário: sob a égide do capitalismo, a ciência corre o risco de deixar de ser um caminho para a verdade e passar a ser um manual de instruções para a dominação.Enquanto Lacey propõe uma ciência plural que incorpore valores sociais e ecológicos, as reflexões de Novaes pedem um retorno ao humanismo, para que a técnica não acabe por devorar o seu criador. Em suma, ambos defendem que a ciência precisa ser resgatada das mãos do mercado para voltar a servir à vida em sua plenitude. O que esses dois livros nos dizem, em uníssono, é que a luta por uma ciência diferente é, essencialmente, a luta por um modelo de sociedade diferente.
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