sábado, 4 de abril de 2026

Entre a ética e a técnica: o dilema da ciência contemporânea em Lacey e Novaes

A evolução da humanidade durantes os milênios é a prova cabal de que o ser humano tornou-se capaz de contornar seus problemas, e com isso criar soluções inteligentes para resolver suas necessidades. A invenção da roda, do arado, a descoberta do fogo na pré-história até a inteligência artificial, a nanotecnologia, a biotecnologia em nossos dias atuais mostra a importância da ciência na evolução da sociedade. Por outro lado, quanto essa revolução científica de fato beneficiou nós, seres humanos. Portanto, cabe aqui neste artigo discutirmos pontos centrais a respeito da imparcialidade, da neutralidade e autonomia da ciência. Enfim, a quem serve o saber e o fazer científico. Pois, é isso que iremos debater neste artigo, sob os holofotes de Hugo Lacey junto a obra de Adauto Novaes - Homem máquina. 

No cenário atual, onde a biotecnologia e a inteligência artificial avançam em ritmo frenético, a pergunta que ecoa nos centros de pesquisa e na filosofia não é mais apenas "o que podemos fazer?", mas sim "o que devemos fazer?". Este embate ético é o fio condutor que une duas obras fundamentais para compreender a ciência moderna: Valores e Atividade Científica 2, de Hugo Lacey, e O Homem-Máquina: A Ciência Manipula o Corpo, organizado por Adauto Novaes.

Embora partam de perspectivas distintas, ambos os autores convergem para uma crítica necessária à suposta "neutralidade" do progresso técnico-científico.

A Ciência Além do Laboratório: Hugo Lacey

Em sua obra, o filósofo australiano Hugo Lacey desafia a ideia de que a ciência é uma busca pura e desinteressada pela verdade. Para Lacey, a atividade científica está intrinsecamente ligada a valores.

Os Três Tipos de Valores

Lacey argumenta que a ciência é influenciada por uma tríade de valores:

  • Cognitivos: Critérios de verdade, como consistência e poder preditivo.
  • Éticos: O impacto das descobertas na vida humana e no meio ambiente.
  • Sociais/Políticos: Quem financia a pesquisa e quais interesses (militares, de mercado ou sociais) ela serve.

O autor propõe a Pluralidade Metodológica, sugerindo que a ciência não deve focar apenas em estratégias descontextualizadas (que buscam o controle da natureza), mas também em estratégias que considerem o contexto social e ecológico, como a agroecologia.

O Corpo sob o Bisturi da Razão: Adauto Novaes

Se Lacey foca na estrutura da pesquisa, a coletânea organizada por Adauto Novaes, O Homem-Máquina, mergulha nas consequências antropológicas dessa ciência. O livro explora como a visão mecanicista — que vê o corpo humano como uma engrenagem ou um conjunto de dados — transformou nossa relação com a vida.

A Fragmentação do Humano

Os ensaios presentes na obra de Novaes alertam para o risco da manipulação extrema. Ao tratar o corpo como um objeto puramente biológico e técnico, a ciência corre o risco de:

  •  Anular a subjetividade e a história individual.
  • Transformar a saúde em um produto de consumo.
  •  Criar uma "eugenia moderna" através da edição genética e da protetização sem limites éticos claros.

"A ciência que manipula o corpo é a mesma que, muitas vezes, esquece a dignidade do homem que o habita."

O Ponto de Encontro: A Necessidade de Limites

O diálogo entre Lacey e as reflexões de Novaes revela uma urgência: a democratização do conhecimento científico.

Ponto de Comparação

Hugo Lacey

Adauto Novaes (Coletânea)

Foco Principal

Metodologia e Valores

Antropologia e Biopoder

Crítica Central

O predomínio da estratégia de controle

A visão do homem como máquina funcional

Solução Proposta

Ciência plural e socialmente responsável

Reflexão filosófica sobre os limites da técnica

Uma Ciência para Quem?

A leitura conjunta dessas obras sugere que a ciência não é um destino inevitável, mas uma escolha política e ética. Enquanto Lacey nos fornece as ferramentas teóricas para identificar quais valores guiam nossas pesquisas, os autores de Novaes nos mostram o que está em jogo: a nossa própria definição de humanidade.

Para o leitor contemporâneo, a mensagem é clara: o progresso técnico só terá valor se estiver a serviço da emancipação humana e do equilíbrio planetário, e não apenas da eficiência mecânica ou do lucro desenfreado.

LACEY, Hugo. Valores e atividade científica 2. São Paulo: Editora 34, 2010. 384 p. (Coleção Trans).

NOVAES, Adauto (Org.). O homem-máquina: a ciência manipula o corpo. São Paulo: Companhia das Letras, 2003. 488 p.

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