Se naquele primeiro momento do texto anterior apresentamos os pontos convergentes entre os pensamentos de nossos três autores. Aqui iremos considerar os rumos distintos de cada um deles nos aspectos da economia e sociedade, da política, da religião, dos modos de vida e dos costumes. Tais distinções surgem na avaliação que cada um faz da natureza e da finalidade desses impulsos não-racionais, refletindo seus respectivos contextos históricos. No que tange a economia e a sociedade precisamos observar o contexto histórico em que estes autores viveram. Daí podemos traçar a realidade de cada época. A perspectiva econômica e social de Mandeville jaz num contexto do século XVIII, cujos princípios estão sobrepostos na defesa implícita do laissez-faire antes de Adam Smith, e um momento da legitimação do luxo da nação hegemônica. Nesse caminho, Mandeville nos apresenta a ideia dos vícios como molas da prosperidade. Pois assim o luxo e o egoísmo são inevitáveis e cruciais para a riqueza nacional na Inglaterra pré-capitalista em ascensão. A moralidade tradicional é um elemento totalmente estéril. Ainda em Mandeville o aspecto da moralidade pública e a religião são, em parte, invenções de governantes e filósofos para domesticar o egoísmo, tornando-o socialmente útil e garantindo a ordem. Sendo a moralidade uma ferramenta ideológica utilizada pelos governos. Para Russell, que reside nas primeiras décadas do século XX em plena primeira guerra mundial, sua crítica pauta-se no imperialismo e no capitalismo industrial que motiva a guerra por recursos e mercados. Portanto, a ênfase deste autor recaí no criativo versus o possesivo. Ou seja, a obsessão pela posse (propriedade, território) leva à guerra. Defende a autodeterminação e o engajamento coletivo (sindicalismo) para equilibrar o indivíduo e o Estado. A religião (e as Igrejas) na visão de Russell frequentemente é cooptada pelo nacionalismo para justificar a guerra, atuando como um impulso a mais para a beligerância. Defende a liberdade de pensamento e o pacifismo. O capitalismo pós-industrial dotado de crítica ao consumismo, à rigidez ideológica da guerra fria e às estruturas de poder organizadas em torno da crença torna-se o contexto ideal para que Osho possa colocar o dedo sobre a ferida. Por isso, sua análise crítica radical paira sobre o sistema de crença, onde o fanatismo impulsionado pela carência psicológica é a base de sistemas religiosos, políticos e econômicos coercitivos. Em sua visão, o foco está na transformação individual para além da crença. Osho pensa a religião estruturada como prisão, assim como a política ideológica, sendo sistemas de crença que sufocam a dúvida pura (que leva ao conhecimento) e criam o fanatismo, que é a raiz do ódio e da guerra. Busca a consciência individual. Resumidamente podemos dizer que Mandeville enxerga esses impulsos (vícios) como o motor indispensável da prosperidade da nação ascendente (otimismo utilitarista). Já Russell e Osho veem a exploração desses mesmos impulsos (possessividade, necessidade de crença) como a causa das maiores tragédias e limitações da humanidade (pessimismo ético-existencial). Portanto o ponto de distinção final é a solução: Mandeville aceita o vício como motor; Russell propõe a promoção de impulsos criativos e uma política mais justa; Osho clama por uma transformação radical da consciência individual (dúvida pura) que transcenda a necessidade de crença em primeiro lugar. Com a finalidade de compreender melhor as estratégias de poder para criar ambientes de dominação contra a sociedade, estes autores tecem críticas ácidas à religião - um instrumento de controle e dominação social. Sendo um ponto de convergência notável, embora com matizes distintas, nas obras de Bernard Mandeville, Bertrand Russell e Osho. Cada autor, em seu respectivo contexto histórico (séculos XVIII, XX e pós-Guerra Fria), desvela como a fé estruturada serve aos propósitos do poder político, social e até mesmo psicológico.
1. Mandeville (século XVIII): a religião como artifício político para a ordem
Na Inglaterra
pré-capitalista do século XVIII, Mandeville, em A Fábula das Abelhas,
não ataca a fé em si, mas questiona o papel da moralidade e da virtude
(frequentemente impostas pela religião) na sociedade.
- Dominação pela Virtude Artificial: Para Mandeville, a religião institucionalizada, juntamente com a filosofia moral, funciona como um artifício político criado por "governantes hábeis" para moldar o comportamento humano. O objetivo não é a salvação da alma, mas sim a pacificação social e o controle dos vícios privados que, em excesso, poderiam desestabilizar o Estado.
- Controle do Egoísmo: a religião domina ao sugerir que o egoísmo desenfreado é pecaminoso, impondo o conceito de sacrifício e moderação. Isso permite que o Estado canalize os impulsos egoístas (vícios) da população de formas que são, paradoxalmente, economicamente produtivas (o luxo gera comércio), enquanto mantém a ordem pública pela promessa de recompensas ou medo de punições divinas.
- Característica da Época: a crítica de Mandeville é cínica e utilitarista, refletindo o nascimento do liberalismo. A religião é vista como uma ferramenta pragmática de engenharia social para a manutenção da Pax Britannica e a ascensão econômica da nação.
- Dominação pela Obediência e Justificação: Russell argumenta que as Igrejas e a moralidade religiosa são frequentemente cooptadas pelo nacionalismo para justificar a guerra. A religião não só prega a obediência cega (a Deus e, por extensão, ao Estado), mas também fornece uma sanção moral e divina para a violência. Ela transforma o assassinato em "sacrifício patriótico" e o ódio ao inimigo em uma "cruzada".
- Supressão da Dúvida: ao exigir crença inabalável e lealdade a dogmas, a religião mina o impulso criativo e o juízo racional individual, que Russell considera essenciais para a paz. A dominação ocorre ao impor uma mentalidade de rebanho, onde a crítica é vista como heresia ou traição.
- Característica da Época: a crítica de Russell é pacifista e humanista, focada na destruição causada pela união do poder religioso e do poder de Estado (militarismo). Ele critica especificamente como o clero de todas as nações beligerantes abençoava suas respectivas tropas, evidenciando a instrumentalização da fé para fins políticos e de guerra.
- Dominação pela Necessidade de Crença: Para Osho, a religião domina ao capitalizar a insegurança fundamental do indivíduo diante da vida e da morte. O ser humano não suporta a dúvida pura (o estado de não-saber) e, por isso, busca refúgio em sistemas prontos de crença (dogmas, ideologias).
- Criação do Fanatismo e da Exclusão: Este sistema de crença estabelece uma dicotomia "nós contra eles" (crentes vs. infiéis), gerando o fanatismo. A dominação se manifesta na coerção social e na violência moral imposta pelo grupo ao indivíduo que ousa duvidar. O indivíduo domina a si mesmo ao aceitar uma resposta fácil em vez da jornada incerta da consciência.
- Característica da Época: A crítica de Osho é radical e anti-institucional. Ele critica a rigidez ideológica tanto da religião quanto da política de seu tempo (capitalismo vs. comunismo). Para ele, toda crença estruturada (seja religiosa ou ideológica) é um mecanismo de dominação que impede a liberdade interior e a iluminação.
2. Russell (século XX): a religião a serviço do nacionalismo e da guerra
Russell, escrevendo em 1915, no auge da Primeira Guerra Mundial (capitalismo industrial, nacionalismo exacerbado), concentra-se em como a religião apoia a ideologia bélica. Em Por que os Homens Vão à Guerra, ele vê a dominação religiosa fundindo-se com a dominação estatal, que tem como consequência supressão da razão e Justificação da Guerra, ou seja, a violência estatal e a obediência cega.
3. Osho (pós-guerra fria): a religião como fuga psicológica e raiz do fanatismo
Osho, atuando no capitalismo pós-industrial (pós-1968, Guerra Fria), aprofunda a crítica ao nível psicológico e existencial. Em Crença, Dúvida e Fanatismo, a dominação não é apenas política, mas reside na própria estrutura da crença humana. Criação do Fanatismo e da Infelicidade Interior são consequêcias da dominação religiosa, que capitaliza a aversão humana à dúvida e à insegurança.
Em suma,
Mandeville vê a dominação religiosa como um mal necessário e útil para a
prosperidade da nação. Russell a vê como uma força perigosa a serviço do
militarismo e da guerra. Osho a vê como uma prisão psicológica e existencial
que impede a realização do potencial humano. Os três concordam que, longe de
ser apenas uma questão de fé individual, a religião é um poderoso mecanismo
de poder e controle social.
MANDEVILLE,
Bernard. A fábula das abelhas: ou vícios privados, benefícios públicos. São
Paulo: Editora Unesp, 2017. 412 p.
OSHO. Crença,
dúvida e fanatismo: é essencial ter algo em que acreditar? São Paulo: Planeta,
2015. 254 p.
RUSSELL,
Bertrand. Por que os homens vão à guerra. São Paulo: Editora Unesp, 2014. 219
p.
Nenhum comentário:
Postar um comentário